Home OpiniãoManifestações Atípicas da Paracoccidioidomicose: Síndrome Colestática Aguda no Paciente Imunossuprimido e os Desafios de Manejo Clínico

Manifestações Atípicas da Paracoccidioidomicose: Síndrome Colestática Aguda no Paciente Imunossuprimido e os Desafios de Manejo Clínico

by Redação CPAH

A paracoccidioidomicose (PCM) permanece classificada como uma das principais micoses sistêmicas endêmicas na América Latina, com expressiva prevalência no território brasileiro. Causada pelo fungo dimórfico do complexo Paracoccidioides, a patologia apresenta-se classicamente sob duas formas clínicas principais: a forma aguda/subaguda (tipo juvenil), que cursa com linfadenopatia generalizada e hepatoesplenomegalia, e a forma crônica (tipo adulto), com marcante tropismo pelo sistema respiratório e lesões tegumentares. Contudo, em pacientes que apresentam estados de imunossupressão profunda — seja por infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), quimioterapia antineoplásica ou uso crônico de agentes imunomoduladores —, a apresentação fisiopatológica da PCM desvia-se dos padrões habituais. Nesses cenários, o comprometimento de órgãos do sistema fagocítico mononuclear pode ocorrer de maneira agressiva e atípica, manifestando-se como uma síndrome colestática aguda decorrente da compressão extrínseca das vias biliares ou por infiltração granulomatosa direta no parênquima hepático.

A vigência de icterícia colestática aguda em indivíduos imunocomprometidos impõe um espectro complexo de diagnósticos diferenciais, que inclui desde hepatotoxicidade induzida por fármacos (DILI) até infecções oportunistas bacterianas, virais e neoplásicas. A compressão mecânica das vias biliares extra-hepáticas por adenopatias hilares maciças induzidas pelo Paracoccidioides pode mimetizar perfeitamente colangiocarcinomas ou coleledocolitíase, retardando o diagnóstico correto. Clinicamente, os pacientes evoluem com elevação acentuada de enzimas marcadoras de colestase (como a fosfatase alcalina e a gama-glutamiltransferase) e hiperbilirrubinemia de predomínio direto, frequentemente acompanhadas de manifestações sistêmicas inespecíficas, como perda ponderal, febre e astenia. A propedêutica diagnóstica exige, portanto, uma abordagem multimodal fundamentada em exames de imagem de alta resolução (ultrassonografia abdominal e tomografia computadorizada) associada à investigação sorológica e, fundamentalmente, à análise histopatológica ou citológica de tecidos acometidos para a visualização das leveduras em “roda de leme” características do fungo.

O manejo terapêutico da paracoccidioidomicose grave associada à colestase em pacientes imunossuprimidos representa um dilema médico complexo, devido ao sinergismo de toxicidades farmacológicas. O tratamento de escolha para formas graves envolve o emprego inicial de Anfotericina B (preferencialmente em formulação lipídica) ou formulações endovenosas, seguido pela terapia de manutenção com derivados azólicos (como o itraconazol) ou a associação sulfametoxazol-trimetoprima. Todavia, a metabolização predominantemente hepática e o potencial hepatotóxico dos azólicos impõem severas restrições no manejo do paciente que já apresenta disfunção biliar e icterícia obstrutiva. Adicionalmente, em pacientes coinfectados pelo HIV, a sobreposição com a terapia antirretroviral (TARV) e a possibilidade de deflagração da Síndrome Inflamatória de Reconstituição Imune (IRIS) elevam a morbidade. Torna-se imperativo, portanto, o monitoramento rigoroso e seriado da função hepática e a customização do esquema antifúngico, garantindo a depuração do patógeno sem a exacerbação do insulto colestático ou lesão hepatocelular iatrogênica.

Referência (Formato ABNT):

VASQUES, Jeryana de Souza et al. Acute cholestatic syndrome caused by paracoccidioidomycosis in an immunosuppressed patient: a case report. Open Minds Internacional Journal, v. 1, n. 1, art. 14, p. 1-2, set. 2025. ISSN 2675-5157. DOI: https://doi.org/10.22533/at.ed.51571252300714.

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