A relação entre a exposição a ambientes naturais e a saúde mental da população tem se consolidado como um campo de investigação prioritário na saúde pública contemporânea. O crescimento urbano acelerado e as mudanças nos estilos de vida têm limitado o contato humano com o mundo natural, impulsionando a necessidade de quantificar os benefícios terapêuticos e preventivos dos espaços verdes (como florestas e parques) e espaços azuis (compreendendo ambientes aquáticos continentais e costeiros). Estudos de grande escala evidenciam que tanto a proximidade residencial em relação a essas áreas quanto a realização de visitas recreativas e o sentimento de conexão psicológica com a natureza exercem um papel protetivo crucial sobre o aparato psíquico. Investigar de forma integrada essas diferentes dimensões de exposição e conectividade é fundamental para mapear os determinantes ambientais do bem-estar e da mitigação do sofrimento mental em nível global.
A análise epidemiológica de dados transnacionais, abrangendo mais de 16.000 indivíduos em 18 países, revela que os benefícios à saúde mental variam conforme a natureza e a frequência da exposição ambiental. Evidências científicas apontam que indivíduos residentes em bairros com maior densidade de áreas verdes ou situados em regiões costeiras manifestam índices superiores de bem-estar positivo. Contudo, constata-se que essa associação epidemiológica direta vinculada à mera proximidade residencial declina substancialmente quando se controla estatisticamente a frequência de visitas recreativas efetivas a esses locais. Esse fenômeno sugere que os mecanismos de mediação da saúde mental dependem mais da experiência ativa e do engajamento comportamental do sujeito com o ecossistema do que da simples presença estática da natureza no entorno domiciliar.
No que tange à frequência de visitação a curto prazo, o hábito de frequentar espaços verdes, azuis continentais (como rios e lagos) ou azuis costeiros nas últimas quatro semanas demonstra uma forte associação dose-resposta com indicadores de saúde psicológica. O engajamento recreativo habitual nesses três cenários naturais correlaciona-se de maneira positiva e consistente com elevados níveis de bem-estar psicológico, atuando simultaneamente de modo inverso sobre os escores de sofrimento mental ou estresse psicológico. De forma notável, as associações benéficas decorrentes de visitas a espaços verdes demonstram estabilidade e consistência estatística de modo transversal ao longo das diferentes estações do ano e entre as diversas nações avaliadas, indicando uma universalidade no potencial terapêutico dessas interações socioambientais.
Além da exposição física, medida pela proximidade e pelas visitas, a dimensão intrínseca da conectividade com a natureza — entendida como o vínculo psicológico e a afinidade afetiva que o indivíduo desenvolve em relação ao mundo natural — atua de maneira independente na modulação da saúde mental. Altos índices de conexão subjetiva com a natureza correlacionam-se fortemente com a promoção do bem-estar e com menores taxas de distúrbios afetivos. Adicionalmente, verificou-se que esse traço de conectividade psicológica está positivamente associado à probabilidade de o indivíduo realizar visitas recreativas mais frequentes a ecossistemas naturais, estabelecendo um ciclo virtuoso em que a afinidade afetiva estimula o comportamento de exposição física e ambos potencializam a resiliência psíquica.
Diante do exposto, as evidências científicas sugerem que o planejamento urbano contemporâneo e as estratégias de saúde pública devem transcender a mera preservação ecológica, focando no desenho de cidades que otimizem as oportunidades de engajamento ativo da população com a biodiversidade. Garantir o acesso equitativo a parques, áreas litorâneas e margens de rios propicia benefícios em larga escala, mitigando o ônus associado aos transtornos mentais comuns. Estimular não apenas a presença física nesses territórios, mas cultivar programas que fomentem a conexão psicológica e a valorização subjetiva dos elementos naturais surge como uma intervenção custo-efetiva e de alto impacto para a maximização da saúde coletiva e do bem-estar eudaimônico em sociedades urbanizadas.
Referência (Formato ABNT)
WHITE, Mathew P.; ELLIOTT, Lewis R.; GRELLIER, James; ECONOMOU, Theo; BELL, Simon; BRATMAN, Gregory N.; CIRACH, Marta; GASCON, Mireia; LIMA, Maria L.; LÕHMUS, Mare; NIEUWENHUIJSEN, Mark; OJALA, Ann; ROIKO, Anne; SCHULTZ, P. Wesley; VAN DEN BOSCH, Matilda; FLEMING, Lora E. Associations between green/blue spaces and mental health across 18 countries. Scientific Reports, [S. l.], v. 11, n. 1, art. 8438, p. 1-12, abr. 2021. DOI: https://doi.org/10.1038/s41598-021-87675-0. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-021-87675-0. Acesso em: 16 jun. 2026.

