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Neurociências, filosofia e felicidade: uma abordagem interdisciplinar

Filósofos, poetas, religiosos e cientistas dedicaram-se a compreender essa complexa emoção, buscando desvendar seus segredos e formular receitas para uma vida feliz.

Introdução

A busca pela felicidade é um anseio universal que permeia a história da humanidade. Filósofos, poetas, religiosos e cientistas dedicaram-se a compreender essa complexa emoção, buscando desvendar seus segredos e formular receitas para uma vida feliz.

Desta forma, é necessário conhecer a felicidade sob diferentes perspectivas, combinando filosofia, neurociência e psicologia. Para tanto, analisou-se a natureza multifacetada da felicidade, indo além da mera alegria e positividade superficial, e investigou-se os elementos que contribuem para o bem-estar individual e coletivo.

Visões filosóficas da felicidade

Ao longo da história, diversos filósofos ofereceram diferentes perspectivas sobre a felicidade. Para Aristóteles, a felicidade consistia na busca pelo equilíbrio e pela harmonia, na prática do bem e no desenvolvimento das virtudes. Já Kant a definia como a condição do ser racional no mundo, enquanto Nietzsche a considerava algo frágil e volátil, a ser conquistada através da superação constante.

Para além, a felicidade não se trata de pura euforia, mas sim de um estado de espírito no qual o sujeito sente-se leve, em paz e grato, com uma visão otimista da vida. Perceba que não precisa estar “nas nuvens” o tempo todo, mas sim sentir-se tranquilo e aberto a observar o mundo com generosidade. É natural que os sentimentos oscilem com as situações do dia a dia, mas cultivar a positividade e a gratidão contribui para uma felicidade mais constante, mesmo diante dos desafios.

Elementos da Felicidade

A felicidade não se resume a um estado momentâneo de euforia, mas sim a um conjunto de fatores que contribuem para o bem-estar geral do indivíduo. Entre os elementos que compõem a felicidade, destaca-se cinco tipos de bem-estar:

  • Bem-estar emocional: Um estado emocional equilibrado, com predominância de emoções positivas como alegria, gratidão e contentamento.
  • Bem-estar relacional: A construção de relações saudáveis e positivas com familiares, amigos, parceiros e comunidade.
  • Bem-estar físico: O cuidado com o corpo, através da prática regular de exercícios físicos, alimentação adequada e sono de qualidade.
  • Bem-estar intelectual: A capacidade de gerenciar as próprias emoções, lidar com o estresse e construir relacionamentos saudáveis.
  • Bem-estar espiritual: A busca por significado, transcendência e conexão com algo maior que si mesmo.

Neurociência da felicidade

De acordo com ospesquisadores em felicidade Lyubomirsky, Sheldon e Schkade, 50% de genética, 10% de fatores externos e 40% das próprias escolhas. Ou seja, metade da capacidade de ser feliz já está definida no DNA do ser humano, enquanto o ambiente ao redor contribui com apenas 10%. A grande surpresa está nos 40% restantes, que dependem unicamente dos pensamentos e ações dos indivíduos. Em outras palavras, o poder de cultivar a felicidade está nas mãos de quem a deseja!

Assim, a neurociência, por sua vez, pode ofereceras bases sobre os mecanismos cerebrais relacionados à felicidade. Estudos revelam que não há uma área específica do cérebro responsável pela felicidade, mas sim uma rede complexa de regiões que se ativam em diferentes momentos. Contudo, o sistema límbico, centro de controle das emoções, é fundamental para a experiência da felicidade.

Portanto, o corpo humano é uma fábrica de felicidade! Através de simples ações, pode-se estimular a produção de quatro neurotransmissoresresponsáveis pelas sensações de bem-estar e alegria e, por consequência, sentir-se feliz.

A endorfina, um opiáceo natural, podem ser elevadas comendo algo picante, assistindo a um filme triste ou simplesmente dançando e cantando com alegria. Quanto a serotonina, combatente da depressão, ela aumenta ao recordar momentos felizes com amigos ou revendo fotos antigas, sendo que o sol e os exercícios aeróbicos também contribuem para sua produção.

Dopamina, a “mediadora do prazer”, está ligada à motivação, ao amor e à paixão. Definir metas de curto prazo e alcançá-las libera essa substância, aumentando a sensação de conquista. Já a oxitocina, o hormônio dos vínculos emocionais, é liberada quando é dado um abraço ou tem uma troca de presentes com pessoas queridas, fortalecendo a confiança e a conexão nos relacionamentos.

Ser ou parecer feliz na era da tecnologia?

O livro História da Felicidade, do autor Peter N. Stearns, explora as raízes e as diversas influências que moldaram o conceito atual de felicidade. Stearns, historiador formado em Harvard e professor na Universidade George Mason, dedica-se a desvendar diferentes culturas através da história das emoções.

Em entrevista à Revista Galileu, ele destaca a importância de entender as diferentes perspectivas sobre a felicidade: “Devemos olhar ao redor do mundo e tentar entender como operam essas diferentes visões“.

Desta forma, a busca pela felicidade não deve se confundir com a necessidade de aparentar felicidade a todo custo. É importante distinguir a felicidade genuína, que brota de dentro, da felicidade artificial, que se baseia em comparações e expectativas irreais.

A cultura da positividade tóxica, que ignora as emoções negativas e pressiona as pessoas a serem felizes o tempo todo, pode ser prejudicial à saúde mental. É importante reconhecer e aceitar a amplitude das emoções humanas, incluindo tristeza, raiva e frustração, como parte natural da vida.

Contudo, a era digital, com suas inovações e desafios, também impacta a busca pela felicidade. O excesso de informação e cobrança, a constante comparação social nas redes sociais e a cultura da positividade tóxica podem gerar ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental.

Por outro lado, a tecnologia também oferece ferramentas para o cultivo da felicidade, como aplicativos de meditação, mindfulness e terapia online. A chave está no uso consciente e equilibrado das tecnologias, priorizando a conexão autêntica e a construção de relações significativas.

Conclusão

Sendo assim, através da integração da filosofia, neurociência e psicologia, pôde-secompreender os diferentes aspectos da felicidade e formular estratégias para cultivá-la durante a vida.

É importante reconhecer que a felicidade não é um estado permanente, mas sim um processo contínuo de busca e adaptação. As diferentes visões sobre a felicidade, desde as perspectivas filosóficas até as pesquisas neurocientíficas, oferecem um panorama abrangente dessa emoção complexa.

Quando compreende-se os mecanismos cerebrais da felicidade e os fatores que contribuem para o bem-estar individual e coletivo, o indivíduo estará apto a tomar decisões conscientes para cultivar uma vida mais feliz e plena.

Na era digital, é fundamental estar atento aos desafios e oportunidades que a tecnologia oferece à busca pela felicidade. O uso consciente das ferramentas digitais, aliado à prática de atividades que promovem o bem-estar físico, mental e social, são essenciais para c construção uma vida mais feliz e significativa.

Referências

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LYUBOMIRSKY, Sonja; SHELDON,Kennon M.; SCHKADE, David. Pursuing happiness: the architecture of sustainable change. Review of General Psychology, v. 9, n. 2, p. 111–131, 2005. Disponível em: https://sonjalyubomirsky.com/wp-content/themes/sonjalyubomirsky/papers/LSS2005.pdf. Acesso em: 20 mar. 2024.

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