Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues
Pós-PhD em Neurociências. Mestre em Psicologia. Pesquisador do CPAH, Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, Portugal.
Tipo de manuscrito: revisão narrativa crítica com proposição de hipótese teórica. Versão editorial: 1.0, 21 out. 2026. Sem dados empíricos originais.
RESUMO
A empatia resulta da integração entre processos afetivos, inferência sobre estados mentais e regulação do comportamento social. Este artigo examina duas exposições distintas que podem influenciar essas competências: insuficiência persistente de responsividade emocional parental durante o desenvolvimento e utilização problemática das redes sociais. O objetivo consiste em formular uma hipótese neurobiológica de convergência, sem presumir que ambas as exposições produzam o mesmo efeito ou que haja redução histórica universal da empatia. Realizou-se revisão narrativa crítica de estudos longitudinais, observacionais, experimentais, de neuroimagem e revisões de acesso integral verificável, selecionados pela pertinência às redes pré-frontais, temporoparietais, límbicas e aos sistemas de recompensa. As evidências associam cuidado responsivo e sincronização interpessoal a indicadores posteriores de empatia; estudos sobre redes sociais relacionam o envolvimento problemático a dificuldades socioemocionais em algumas populações, enquanto o uso não problemático apresenta resultados heterogéneos e, por vezes, positivos. A oxitocina participa na afiliação, a serotonina modula decisões relacionadas com danos e a dopamina integra circuitos de aprendizagem por recompensa; nenhum destes mediadores determina isoladamente a empatia. Propõe-se que a autorregulação e a avaliação do valor social constituam mecanismos potenciais de interação entre experiências precoces e reforço digital. A hipótese exige testes longitudinais com medidas comportamentais, neurobiológicas e de uso digital.
Palavras-chave: empatia; negligência emocional; córtex pré-frontal; oxitocina; redes sociais; recompensa social.
ABSTRACT
Empathy depends on the integration of affective processing, mental-state inference, and social-behavioral regulation. This article examines two distinct exposures potentially related to these abilities: persistently low parental emotional responsiveness during development and problematic social media use. The aim is to formulate a neurobiological convergence hypothesis without assuming identical effects or a universal historical decline in empathy. A critical narrative review was conducted using accessible full-text longitudinal, observational, experimental, neuroimaging, and review studies on prefrontal, temporoparietal, limbic and reward-related mechanisms. Responsive caregiving and interpersonal synchrony were associated with later indicators of empathy. Problematic social media use correlated with socioemotional difficulties in selected samples, whereas non-problematic use yielded heterogeneous and sometimes positive findings. Oxytocin participates in affiliation, serotonin modulates harm-related decision making, and dopamine contributes to reward learning, but none determines empathy in isolation. Self-regulation and social-value computation are proposed as possible interacting mechanisms linking early experiences to digital reinforcement. Longitudinal tests combining behavioral, neurobiological and digital-exposure measures are required.
Keywords: empathy; emotional neglect; prefrontal cortex; oxytocin; social media; social reward.
1 INTRODUÇÃO
A empatia pode diminuir na expressão comportamental mesmo quando o indivíduo conserva a capacidade de reconhecer o estado emocional de outra pessoa. O problema aparece quando compreender o sofrimento alheio deixa de orientar a decisão, sobretudo diante de recompensas sociais concorrentes, conflito interpessoal ou necessidade de afirmação da própria imagem. Esta distinção separa capacidade empática, motivação para ajudar e comportamento efetivamente observado (Beadle; Paradiso; Tranel, 2018; Smith; Stamoulis, 2023).
A formulação autoral que motivou este estudo sustenta que a menor atenção emocional e afetiva parental, somada ao uso problemático das redes sociais, pode favorecer uma relação social mais centrada no próprio indivíduo. A explicação inicial atribuía o fenómeno à maturação e à comunicação entre córtex pré-frontal dorsolateral, ventromedial e orbitofrontal. O presente texto conserva essa hipótese, porém corrige a simplificação anatómica: empatia afetiva e cognitiva não se localizam exclusivamente nestas três subregiões, nem dependem de um suposto aumento uniforme do seu desenvolvimento.
O córtex pré-frontal integra sistemas de avaliação de consequências e controlo executivo, enquanto redes distribuídas com ínsula, cíngulo, amígdala e territórios temporoparietais participam na identificação de sinais afetivos, na tomada de perspetiva e na distinção entre o próprio estado e o do outro. O estudo de lesões ventromediais oferece evidência mais direta sobre decisões pró-sociais do que a simples correlação entre atividade cerebral e autorrelato de empatia (Beadle; Paradiso; Tranel, 2018).
A hipótese central é delimitada: experiências precoces de responsividade emocional insuficiente podem associar-se a menor eficiência ou a estratégias diferentes de regulação socioafetiva; posteriormente, ambientes digitais com reforço social recorrente podem interagir com essas diferenças individuais e modificar a probabilidade de respostas empáticas em determinadas condições. A hipótese não implica uma sequência inevitável e não permite afirmar que a sociedade inteira esteja biologicamente menos empática.
2 MÉTODO E CRITÉRIOS DE INFERÊNCIA
Este manuscrito constitui uma revisão narrativa crítica orientada por uma hipótese previamente formulada pelo autor. Não constitui revisão sistemática, meta-análise ou investigação experimental inédita. A seleção documental deu prioridade a publicações com texto integral acessível, identificador DOI, descrição do desenho e população, resultados verificáveis e pertinência direta para empatia, cuidado parental, recompensa social e regulação do comportamento.
A consulta bibliográfica ocorreu em outubro de 2026, mediante pesquisa em páginas integrais de periódicos e arquivos de acesso aberto, incluindo Nature Communications, PLOS ONE, Frontiers e periódicos indexados no PubMed Central, bem como revisões integrais publicadas pela Springer Nature. Não se elaborou uma estratégia exaustiva reprodutível para todas as bases nem se calcularam estimativas agrupadas próprias. Os resultados originais são preservados quanto à população, ao desenho e à direção da associação, sem conversão de correlação em causalidade.
A interpretação adotou quatro categorias: associação observacional, antecedência temporal em coortes, intervenção experimental e hipótese mecanística. Estudos de ressonância magnética funcional indicam variação de sinal hemodinâmico, não concentração de dopamina, oxitocina ou serotonina. Estudos de lesão informam a necessidade de determinadas estruturas para tarefas específicas, mas não estabelecem que uma única área seja suficiente para produzir empatia.
3 ORGANIZAÇÃO NEUROANATÓMICA DA EMPATIA
3.1 Empatia afetiva, cognitiva e controlo do comportamento
A empatia afetiva envolve resposta à expressão emocional de outra pessoa e processamento de sinais de relevância corporal e social; a empatia cognitiva envolve representação de estados mentais e tomada de perspetiva. A distinção é analítica, pois as tarefas reais recrutam circuitos em interação, com diversidade de respostas entre indivíduos e fases de desenvolvimento (Levy; Goldstein; Feldman, 2019; Smith; Stamoulis, 2023).
A ínsula anterior participa na integração de sinais interoceptivos e afetivos, enquanto o córtex cingulado médio e anterior participa na mobilização de respostas perante eventos emocionalmente relevantes. A junção temporoparietal e regiões temporais contribuem para a representação de agentes e estados mentais; a amígdala contribui para a atribuição de relevância a sinais sociais, sem funcionar como um centro exclusivo do medo. Levy, Goldstein e Feldman (2019) acompanharam 84 crianças, 42 delas expostas a adversidade crónica relacionada com conflito armado, e identificaram uma resposta neural distribuída perante o sofrimento alheio.
O córtex pré-frontal ventromedial integra valor subjetivo, contexto afetivo e decisões dirigidas a outras pessoas. Beadle, Paradiso e Tranel (2018) estudaram oito pacientes com lesão focal ventromedial e grupos de comparação, observando menor incremento de ofertas económicas quando o sofrimento de terceiros era apresentado. A diferença diz respeito ao comportamento numa tarefa delimitada, não representa diagnóstico de ausência geral de empatia.
O córtex orbitofrontal participa na atualização de contingências de recompensa e punição e o dorsolateral está ligado à manutenção de objetivos, flexibilidade e controlo de respostas. A comunicação destas áreas pode ajudar a transformar reconhecimento do estado alheio em comportamento social ajustado. Contudo, não existe evidência de uma sequência linear na qual o desenvolvimento ventromedial determina, por si só, o orbitofrontal ou o dorsolateral.
Quadro 1. Componentes neurais tratados na hipótese e limites das suas funções. Elaboração conceptual com base em Levy, Goldstein e Feldman (2019), Beadle, Paradiso e Tranel (2018) e Dores et al. (2025).
| Estrutura / rede | Contribuição funcional | Limite da inferência |
|---|---|---|
| Pré-frontal ventromedial (vmPFC) | Integração de valor afetivo e decisão pró-social | Lesão altera determinadas tarefas, não mede empatia total |
| Orbitofrontal (OFC) | Atualização do valor de resultados e contingências | Não equivale a uma “região da empatia” |
| Pré-frontal dorsolateral (dlPFC) | Controlo executivo, manutenção de objetivos, regulação | Controlo cognitivo pode servir tanto ajuda como autopromoção |
| Ínsula anterior e cíngulo | Saliência afetiva, interocepção e mobilização de respostas | Ativação não demonstra sentimento empático isoladamente |
| Junção temporoparietal e temporal superior | Inferência de perspetivas e estados mentais | Capacidade de inferir não implica intenção pró-social |
| Amígdala e estriado ventral | Saliência social e processamento de recompensas | BOLD não mede diretamente neurotransmissores |
3.2 Oxitocina, dopamina, serotonina e sistemas de stress
A oxitocina constitui um neuropeptídeo associado a processos afiliativos, responsividade parental e coordenação das interações sociais. A evidência não autoriza classificá-la como substância que produz empatia de modo invariável. Carozza e Leong (2021) analisaram o toque afetivo parental e descreveram vias sensoriais, hipotálamo e sinalização oxitocinérgica como componentes de uma relação entre contacto, regulação autonómica e vinculação. Markova (2018) examinou 43 díades com bebés de quatro meses, associando rotinas interativas e medidas periféricas de oxitocina sem demonstrar que um valor hormonal isolado determine uma capacidade empática futura.
A dopamina participa na aprendizagem de valores e na sinalização de recompensa em circuitos mesocorticolímbicos. Isso oferece uma explicação fisiológica plausível para a procura repetida de aprovação, mas não comprova que o uso de redes sociais provoque hiperatividade dopaminérgica persistente. Meshi, Morawetz e Heekeren (2013) estudaram 31 adultos jovens com neuroimagem e observaram relação entre resposta do núcleo accumbens à valorização da própria reputação e intensidade de utilização do Facebook. A investigação mediu atividade por ressonância funcional, não libertação sináptica de dopamina.
A serotonina modula avaliação de danos e decisões morais em condições experimentais específicas. Crockett et al. (2010) manipularam farmacologicamente a transmissão serotoninérgica em voluntários saudáveis e observaram maior aversão a causar prejuízo direto em determinados dilemas, com diferenças relacionadas com traços empáticos. O resultado não permite concluir que uma pessoa menos empática tenha necessariamente menos serotonina, nem que alterações serotoninérgicas decorram do tempo de ecrã.
A resposta ao stress envolve sistemas autonómicos e o eixo hipotálamo, hipófise e suprarrenais, incluindo sinalização de cortisol. Uma experiência de cuidado inconsistente pode alterar a maneira como a criança regula excitação e ameaça, porém a direção de mudanças hormonais depende do tipo de adversidade, da idade e do método de medição. Neste artigo, a eventual mediação do cortisol entre negligência emocional e empatia permanece como hipótese, pois os estudos selecionados não demonstram diretamente a cadeia completa proposta.
Os sistemas glutamatérgico e GABAérgico sustentam, respetivamente, grande parte da transmissão excitatória e inibitória no sistema nervoso central. Podem ser considerados condições celulares gerais para a comunicação entre circuitos, mas os trabalhos examinados não justificam associar uma alteração específica destes neurotransmissores ao uso de plataformas digitais ou à perda de empatia. A hipótese não utiliza essas alterações como resultados estabelecidos.
4 RESPONSIVIDADE EMOCIONAL PARENTAL E DESENVOLVIMENTO SOCIOAFETIVO
4.1 A diferença entre ausência afetiva, negligência e variação normal do cuidado
A ausência persistente de atenção emocional e afetiva não equivale à impossibilidade pontual de um cuidador responder, nem pode ser inferida apenas pelo número de horas que pais e filhos passam juntos. A exposição de interesse envolve baixa responsividade repetida às necessidades da criança, reduzida contingência na resposta emocional e dificuldade de estabelecer reciprocidade durante a socialização. O uso indistinto do termo negligência para qualquer imperfeição parental compromete a interpretação clínica e científica.
A sincronização cuidador-criança permite que os sinais da criança recebam respostas ajustadas no tempo e na intensidade. Levy, Goldstein e Feldman (2019) observaram mães e filhos em diferentes momentos do desenvolvimento e relacionaram a sincronização ao padrão neural de resposta empática na pré-adolescência. O estudo não mostrou que toda exposição a adversidade conduz a menor empatia, pois determinadas características de temperamento e ansiedade acompanharam maior recrutamento de regiões associadas ao processamento de sofrimento.
O estudo longitudinal de Smith e Stamoulis (2023), a partir da coorte Adolescent Brain Cognitive Development, examinou 11.062 participantes na avaliação inicial e 9.832 após dois anos. A valorização do afeto pelos cuidadores e outros indicadores positivos de ambiente social apresentaram associações positivas com comportamentos empáticos, com magnitudes modestas para algumas estimativas. A amostra demonstra associação populacional e antecedência temporal de medições, mas não identifica que a falta de afeto cause lesão em áreas pré-frontais específicas.
O toque afetivo, a vocalização responsiva, a atenção ao olhar e a correção dos estados de desconforto constituem exemplos de oportunidades repetidas de aprendizagem social. Carozza e Leong (2021) descrevem como experiências táteis podem participar em processos de regulação autonómica e vínculo, mediante sinalização neuroendócrina e aprendizagem de contingências. Uma criança que recebe reconhecimento consistente de sinais emocionais encontra mais ocasiões para relacionar emoção, resposta do cuidador e consequência interpessoal.
4.2 Formulação neurobiológica da primeira vertente
O mecanismo proposto consiste numa associação entre menor exposição a experiências responsivas e desenvolvimento menos favorável de processos de diferenciação emocional, regulação e tomada de perspetiva, com consequências possíveis para decisões sociais. A hipótese prevê heterogeneidade: em alguns indivíduos pode ocorrer menor envolvimento empático; noutros, maior vigilância às emoções alheias, sem que esta vigilância represente empatia compassiva. Experiência precoce, temperamento e relações posteriores precisam ser tratados conjuntamente.
A referência ao vmPFC, OFC e dlPFC deve ser interpretada como participação numa rede, não como afirmação de que a negligência comprometa sucessivamente estas três áreas. A evidência de lesão ventromedial para comportamentos pró-sociais (Beadle; Paradiso; Tranel, 2018) e a evidência longitudinal sobre experiências precoces (Levy; Goldstein; Feldman, 2019) apoiam partes diferentes do raciocínio. A ligação causal direta entre ambas ainda não foi demonstrada pelas fontes aqui avaliadas.
5 USO PROBLEMÁTICO DAS REDES SOCIAIS E EXPRESSÃO DA EMPATIA
5.1 Intensidade de utilização não equivale a uso problemático
O tempo acumulado nas plataformas é uma variável incompleta para identificar prejuízo socioemocional. O uso problemático pressupõe perda de controlo, preocupação persistente, interferência funcional ou sofrimento associados ao comportamento digital. Poli et al. (2025) analisaram 23 estudos, incluindo 19 longitudinais e quatro de intervenção, e encontraram resultados heterogéneos para fatores de risco e proteção. O número de horas de acesso não substitui a avaliação da função psicológica do comportamento.
A revisão de Piccerillo e Digennaro (2025), composta por 25 estudos, encontrou associações entre uso problemático e dificuldades de regulação emocional, mas identificou também correlações positivas entre utilização de redes sociais e empatia em determinados estudos. Estes resultados contradizem a afirmação de que qualquer aumento de utilização reduz a empatia. Interação com amigos e práticas de apoio podem produzir experiências sociais distintas de comparação hostil ou procura compulsiva de aprovação.
5.2 Reforço social, autorreferência e comportamento observável
A recompensa social online fornece indicadores mensuráveis, como curtidas, comentários e partilhas, que podem orientar a procura de reconhecimento. Meshi, Morawetz e Heekeren (2013) relacionaram atividade do núcleo accumbens perante ganhos de reputação própria com intensidade de uso do Facebook em 31 adultos jovens. Dores et al. (2025) analisaram estudos de neuroimagem sobre feedback social online e identificaram a participação de estriado ventral, vmPFC e amígdala, reconhecendo heterogeneidade metodológica e amostras limitadas.
A atividade destas regiões não significa que o indivíduo tenha perdido a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa. Significa que sinais associados ao valor social podem disputar prioridade atencional e motivacional com necessidades interpessoais concorrentes. A hipótese autoral prevê uma redução contextual da expressão empática quando a obtenção de validação social possui maior valor subjetivo do que o custo afetivo imposto ao outro. Falta demonstrar experimentalmente esta competição em protocolos que mensurem as duas variáveis em simultâneo.
Uma pessoa pode compreender a dor de um interlocutor e, ainda assim, publicar um comentário hostil para obter aprovação do próprio grupo. O exemplo permite distinguir empatia cognitiva, motivação reputacional, desinibição contextual e comportamento agressivo. Sem avaliação de intenções e consequências, a simples existência de uma publicação moral ou de uma defesa pública da empatia não autoriza classificá-la como simulação ou hipocrisia.
5.3 Resultados observacionais e divergências
Accorinti et al. (2025) avaliaram 362 adolescentes italianos, 147 em acompanhamento psiquiátrico e 215 controlos, entre 11 e 18 anos. Maior risco de utilização problemática apresentou associação modesta com menores indicadores de empatia cognitiva e maior sofrimento pessoal, sobretudo em análises de grupos específicos. A natureza transversal, a seleção clínica e possíveis confundidores impedem atribuir ao uso digital a causa destas diferenças.
Ursoniu et al. (2024) estudaram 649 estudantes de Medicina e examinaram a associação entre utilização problemática de redes sociais, alexitimia e empatia, incluindo modelo estatístico de mediação. Modelos de mediação estimados sobre dados observacionais não demonstram uma sequência causal, mesmo quando estatisticamente ajustados. O estudo contribui para identificar hipóteses sobre reconhecimento dos próprios estados emocionais, mas a população universitária não representa crianças em desenvolvimento.
A coexistência de achados negativos em amostras de risco e positivos em outros contextos exige separar frequência de utilização, padrões problemáticos, conteúdo consumido, finalidade do acesso e saúde mental prévia. A revisão de Poli et al. (2025) também identificou relações com variáveis familiares, mas os dados não estabelecem uma trajetória universal em direção ao egoísmo. A afirmação de redução generalizada da empatia deve ser substituída por risco contextual e individual.
6 HIPÓTESE DE CONVERGÊNCIA NEUROFUNCIONAL
Propõe-se que experiências precoces com baixa responsividade emocional e a exposição posterior a esquemas digitais de reforço social possam interagir pela modulação de autorregulação, atribuição de valor e saliência dos sinais interpessoais. A primeira exposição constitui condição de desenvolvimento; a segunda representa ambiente comportamental atual. O seu efeito conjunto não pode ser calculado somando riscos independentes, pois os mecanismos podem variar, compensar-se ou mesmo produzir respostas opostas.
No modelo proposto, uma criança com menos oportunidades consistentes de co-regulação afetiva pode chegar à adolescência com maior necessidade de validação ou estratégias menos eficientes de gestão de rejeição social. Se utilizar redes para reduzir desconforto e procurar recompensa imediata, a aprovação pública poderá assumir valor excessivo em situações específicas. Esse encadeamento constitui inferência teórica e não resultado empírico demonstrado neste manuscrito.
A previsão principal é que adolescentes com menor responsividade afetiva parental medida longitudinalmente e maior utilização digital problemática apresentem, em média e após controlo de confundidores, menor tradução da compreensão do sofrimento alheio em escolhas pró-sociais perante recompensas de reputação. A previsão depende de medidas simultâneas de comportamento, contexto familiar e resposta neurobiológica; nenhuma publicação consultada testou diretamente toda a cadeia.
Quadro 2. Modelo integrado com distinção entre observação e hipótese. Elaboração autoral.
| Etapa | Sinal a medir | Situação da evidência |
|---|---|---|
| Experiência parental precoce | Responsividade, sincronização, calor afetivo, continuidade do cuidado | Apoio observacional e longitudinal parcial (Levy et al., 2019; Smith; Stamoulis, 2023) |
| Processamento de valor e regulação | vmPFC, OFC, dlPFC, ínsula, cíngulo e junção temporoparietal em tarefas separadas | Funções regionais sustentadas; ligação única entre exposições não testada |
| Reforço digital | Uso problemático, busca de aprovação, resposta do estriado ventral e vmPFC | Associações e neuroimagem em populações específicas (Meshi et al., 2013; Dores et al., 2025) |
| Empatia e ação pró-social | Tomada de perspetiva, sofrimento pessoal, ajuda efetiva e agressão | Associações heterogéneas; causalidade conjunta ainda não demonstrada |
| Interação das vertentes | Termo estatístico cuidado parental × uso problemático sobre decisão pró-social | [LACUNA] Hipótese original sem teste direto encontrado |
7 DISCUSSÃO E PROPOSTA DE TESTE EMPÍRICO
O modelo explicativo conserva duas proposições distintas: o cuidado responsivo fornece oportunidades de aprendizagem socioemocional e os mecanismos de recompensa social podem influenciar a expressão de decisões interpessoais. A convergência destas proposições não permite afirmar uma deterioração anatómica produzida por plataformas digitais. Tampouco estabelece que o córtex pré-frontal dorsolateral represente um indicador direto da capacidade de permanecer sozinho ou de tolerar a solidão.
Uma investigação prospectiva deverá acompanhar uma coorte desde a infância, com medidas repetidas de responsividade parental, ambiente familiar e características temperamentais. Na adolescência, o protocolo deverá obter registos objetivos e consentidos de utilização digital, diferenciando padrão problemático, tipo de conteúdo, contexto da interação e intensidade de exposição. Instrumentos de empatia cognitiva e afetiva deverão ser aplicados juntamente com tarefas comportamentais de decisão perante sofrimento e valorização da própria reputação.
A neuroimagem deverá incluir tarefas independentes de mentalização, resposta afetiva e recompensa social. As análises poderão testar conectividade funcional entre vmPFC, OFC, dlPFC, ínsula, cíngulo, territórios temporoparietais e estriado ventral, com hipóteses previamente registadas e correção para comparações múltiplas. A utilização de ressonância funcional não deverá ser descrita como medição química da dopamina; mediadores neuroendócrinos periféricos, se utilizados, exigirão avaliação dos limites de correspondência com sinalização cerebral.
Os modelos deverão testar efeitos de interação e mediação temporal, controlando idade, sexo, puberdade, depressão, ansiedade, características temperamentais, contexto socioeconómico, experiências adversas e qualidade de relacionamentos presenciais. Para inferência causal, ensaios com alterações eticamente aceitáveis no uso digital e intervenções de educação socioemocional poderão complementar a coorte. A hipótese será enfraquecida se a associação desaparecer após controlo de confundidores ou se a utilização digital melhorar os resultados empáticos sem prejuízo comportamental.
A expressão “o mal do século é a redução da empatia” permanece como enunciado reflexivo do autor e não como dado epidemiológico. Para a transformar em conclusão científica seria necessário demonstrar declínio temporal comparável entre coortes e sociedades, controlar mudanças nos instrumentos de medição e distinguir comportamento observado de autorrelato. Essas condições não foram satisfeitas pelas fontes selecionadas.
8 LIMITAÇÕES
A revisão não utilizou protocolo sistemático de busca e extração, não executou dupla seleção independente e não calculou risco de viés de cada estudo mediante instrumento uniforme. Assim, não permite estimar efeito global nem afirmar completude bibliográfica. Os estudos selecionados combinam adultos, estudantes de Medicina, crianças acompanhadas longitudinalmente e adolescentes de amostras clínicas, com instrumentos e tarefas que não são diretamente equivalentes.
Existe distância inferencial entre associação de cuidado parental e empatia, atividade de circuitos envolvidos em recompensa e hipótese de comportamento egoísta. Neuroimagem funcional não equivale a causalidade nem quantifica diretamente neurotransmissores; indicadores periféricos de oxitocina e cortisol não permitem deduzir concentrações sinápticas centrais. A evidência sobre córtex orbitofrontal e dorsolateral nesta cadeia é funcional e indireta, enquanto a ligação da negligência parental ao posterior uso problemático e à resposta empática precisa de estudo específico.
Resultados contraditórios sobre utilização digital não podem ser descartados em favor da hipótese. É necessário considerar causalidade inversa, diferenças pré-existentes de empatia e autorregulação, seleção dos participantes, variação cultural, conteúdo das plataformas e possíveis erros de medição. Nenhuma análise aqui apresentada comprova um decréscimo global de empatia por geração, nem uma perda uniforme de desenvolvimento cerebral associada às redes sociais.
9 CONCLUSÃO
A responsividade emocional parental e os padrões problemáticos de utilização das redes sociais constituem exposições distintas que podem relacionar-se com a expressão da empatia por vias de desenvolvimento socioafetivo, regulação e recompensa. A hipótese autoral propõe a interação entre essas vias, com participação de redes pré-frontais, límbicas e temporoparietais e modulação por sistemas oxitocinérgicos, serotoninérgicos e dopaminérgicos. As evidências existentes sustentam componentes do mecanismo, mas não comprovam a cadeia causal completa. O passo seguinte é testá-la.
REFERÊNCIAS
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LEVY, J.; GOLDSTEIN, A.; FELDMAN, R. The neural development of empathy is sensitive to caregiving and early trauma. Nature Communications, v. 10, art. 1905, 2019. DOI: https://doi.org/10.1038/s41467-019-09927-y.
MARKOVA, G. The games infants play: social games during early mother–infant interactions and their relationship with oxytocin. Frontiers in Psychology, v. 9, art. 1041, 2018. DOI: https://doi.org/10.3389/fpsyg.2018.01041.
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URSONIU, S. et al. The interconnection between social media addiction, alexithymia and empathy in medical students. Frontiers in Psychiatry, v. 15, art. 1467246, 2024. DOI: https://doi.org/10.3389/fpsyt.2024.1467246.
DECLARAÇÕES EDITORIAIS
Contribuições de autoria (CRediT): Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues: conceptualização da hipótese original, definição do problema, orientação interpretativa e revisão científica final a confirmar antes da submissão. Apoio automatizado à redação técnica e formatação descrito abaixo. Não houve recolha nem análise de dados primários para este manuscrito.
Uso de inteligência artificial: foi utilizado o ChatGPT, modelo GPT-6 (OpenAI), em outubro de 2026, para apoio na organização do manuscrito, redação editorial, pesquisa e verificação bibliográfica e normalização formal. A ferramenta não é autora. O autor indicado deve rever integralmente os argumentos e referências, aprovar o texto final e assumir responsabilidade pelo conteúdo antes de qualquer submissão.
Financiamento: nenhum financiamento específico foi informado para a elaboração deste manuscrito. Informação sujeita a confirmação do autor.
Conflitos de interesses: informação não fornecida. A declaração formal deve ser preenchida e assinada pelo autor antes da submissão; não se presume ausência de conflitos.
Aprovação ética: este documento apresenta análise de literatura publicada e não descreve recolha de dados humanos originais; não foi solicitada aprovação de comité de ética para a sua preparação. Eventual investigação futura exigirá avaliação ética própria.
Disponibilidade de dados: não foram produzidos dados primários. As evidências são identificadas por DOI nas referências; a auditoria de proveniência acompanha esta versão editorial.
APÊNDICE A | AUDITORIA DE PROVENIÊNCIA
A tabela identifica afirmações nucleares, fonte integral utilizada, identificador DOI, localização do resultado e grau de suporte. Os campos [FONTE], [AUTORAL] e [LACUNA] pertencem ao controle editorial desta versão, não integram a redação destinada à publicação. A classificação “direto” refere-se ao que a publicação efetivamente mediu, e não a causalidade universal.
Empatia envolve componentes afetivos e cognitivos | [FONTE] Smith; Stamoulis (2023) | DOI: 10.1371/journal.pone.0293473 | Localização: Introdução, definição do construto | Suporte: Direto
Responsividade parental associa-se a empatia juvenil | [FONTE] Smith; Stamoulis (2023) | DOI: 10.1371/journal.pone.0293473 | Localização: Resumo; resultados da coorte ABCD, n inicial 11.062 | Suporte: Direto, associativo
Sincronização mãe-filho relaciona-se com resposta neural empática | [FONTE] Levy; Goldstein; Feldman (2019) | DOI: 10.1038/s41467-019-09927-y | Localização: Resumo, métodos e discussão; n final 84 | Suporte: Direto, longitudinal
vmPFC participa na ajuda perante sofrimento | [FONTE] Beadle; Paradiso; Tranel (2018) | DOI: 10.3389/fneur.2018.00288 | Localização: Resultados, hipótese principal; oito pacientes com lesão | Suporte: Direto, amostra pequena
Oxitocina participa em processos afiliativos no cuidado | [FONTE] Carozza; Leong (2021) | DOI: 10.3389/fnins.2020.613378 | Localização: Secções de toque e vínculo afiliativo | Suporte: Parcial, revisão
Interação materna e oxitocina periférica associadas | [FONTE] Markova (2018) | DOI: 10.3389/fpsyg.2018.01041 | Localização: Métodos e resultados; 43 díades | Suporte: Direto, correlacional
Modulação serotoninérgica altera aversão a causar dano | [FONTE] Crockett et al. (2010) | DOI: 10.1073/pnas.1009396107 | Localização: Métodos e resultados experimentais | Suporte: Direto, tarefas específicas
Recompensa reputacional relaciona-se com resposta do accumbens | [FONTE] Meshi; Morawetz; Heekeren (2013) | DOI: 10.3389/fnhum.2013.00439 | Localização: Métodos e resultados de fMRI; n 31 | Suporte: Direto, associativo
Resposta a curtidas envolve regiões de recompensa | [FONTE] Dores et al. (2025) | DOI: 10.3390/healthcare13010089 | Localização: Resultados e limitações da revisão | Suporte: Direto, heterogéneo
Uso problemático distingue-se de horas de utilização | [FONTE] Poli et al. (2025) | DOI: 10.1007/s40429-025-00694-z | Localização: Introdução, critérios de inclusão e discussão | Suporte: Direto, conceptual
Redes sociais podem associar-se positivamente à empatia | [FONTE] Piccerillo; Digennaro (2025) | DOI: 10.1007/s40894-024-00245-z | Localização: Secção “Adolescent’s Empathy and Social Media” | Suporte: Direto, síntese de literatura
Risco digital e empatia cognitiva reduzida em amostra clínica | [FONTE] Accorinti et al. (2025) | DOI: 10.3390/children12091226 | Localização: Resumo, resultados e discussão; n 362 | Suporte: Direto, transversal
Alexitimia pode participar na associação uso-empatia | [FONTE] Ursoniu et al. (2024) | DOI: 10.3389/fpsyt.2024.1467246 | Localização: Métodos e modelo de mediação; n 649 | Suporte: Parcial, não causal
Negligência causa dano sequencial vmPFC > OFC > dlPFC | [LACUNA] Não há teste causal direto nas fontes | DOI: Não aplicável | Localização: Não identificado | Suporte: Sem suporte: descartado
Exposição digital reduz diretamente a concentração de dopamina | [LACUNA] fMRI não é dosagem de neurotransmissor | DOI: Não aplicável | Localização: Limitação metodológica | Suporte: Sem suporte: descartado
Negligência e uso problemático interagem na mesma cadeia causal | [AUTORAL] Hipótese central proposta | DOI: Não aplicável | Localização: Secção 6 do manuscrito | Suporte: Hipotético, não demonstrado
A empatia diminuiu universalmente entre gerações | [LACUNA] Sem séries comparáveis identificadas | DOI: Não aplicável | Localização: Limitações da revisão | Suporte: Sem suporte: descartado
APÊNDICE B | PARECER ADVERSARIAL
Parecer crítico independente simulado para avaliação do argumento: o manuscrito não comprova a interação causal entre negligência emocional infantil e uso problemático de redes sociais na redução da empatia. As referências provêm de populações, tarefas e instrumentos diferentes; estudos de neuroimagem medem atividade associada a eventos, não disponibilidade de neurotransmissores. O modelo combina três escalas temporais distintas, infância, adolescência e decisão imediata, sem dados próprios que integrem essas escalas. A hipótese não poderia ser apresentada como mecanismo demonstrado.
Objeção adicional: a expressão “redução da empatia” pode sugerir tendência histórica inexistente no conjunto de fontes; a relação com redes digitais é heterogénea e inclui associações positivas. Estudos de utilização problemática também apresentam possível causalidade inversa, confundimento por psicopatologia e diferenças de seleção. O conceito de ausência afetiva parental não foi operacionalizado com um instrumento específico neste manuscrito.
Decisão editorial simulada: rejeitar qualquer versão que apresente as duas vertentes como causas comprovadas de alterações anatómicas ou neuroquímicas. Aceitar a discussão apenas como hipótese de revisão narrativa crítica, com descrição explícita das lacunas, previsão falsificável, estudos contrários e reconhecimento das restrições metodológicas. Exigir protocolo de revisão sistemática caso o manuscrito pretenda calcular direção ou magnitude geral do efeito.
APÊNDICE C | RASTREABILIDADE E REVISÃO PRÉ-SUBMISSÃO
Rascunho conceptual de origem: texto autoral fornecido na conversa em outubro de 2026, com a tese “o mal do século é a redução da empatia” e a relação proposta entre cuidado afetivo parental, uso excessivo de redes sociais e função pré-frontal. Versão de trabalho editorial: 1.0, 21 de outubro de 2026. Esta versão preserva o núcleo da hipótese, substituindo relações causais categóricas não demonstradas por mecanismos propostos e inferências explicitamente delimitadas.
Estado de verificação: as referências utilizadas possuem DOI e páginas de texto integral acessíveis na consulta efetuada. Não se considera concluída a avaliação científica externa por pares; a responsabilidade pela aprovação autoral e submissão permanece pendente. Autor correspondente, conflitos de interesses, eventual financiamento e adequação às regras da revista ainda exigem confirmação.
Checklist científico: conferir cada DOI, verificar se a formulação das funções neuroanatómicas está restrita ao desenho do estudo, documentar a estratégia de busca se o artigo evoluir para revisão sistemática, definir instrumentos de medida do cuidado emocional parental, validar critérios de uso digital problemático, registar previamente o modelo causal e testar as hipóteses com correção para comparações múltiplas.
Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues
Pós-PhD em Neurociências. Mestre em Psicologia. Pesquisador do CPAH, Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, Portugal.
Tipo de manuscrito: revisão narrativa crítica com proposição de hipótese teórica. Versão editorial: 1.0, 21 out. 2026. Sem dados empíricos originais.
RESUMO
A empatia resulta da integração entre processos afetivos, inferência sobre estados mentais e regulação do comportamento social. Este artigo examina duas exposições distintas que podem influenciar essas competências: insuficiência persistente de responsividade emocional parental durante o desenvolvimento e utilização problemática das redes sociais. O objetivo consiste em formular uma hipótese neurobiológica de convergência, sem presumir que ambas as exposições produzam o mesmo efeito ou que haja redução histórica universal da empatia. Realizou-se revisão narrativa crítica de estudos longitudinais, observacionais, experimentais, de neuroimagem e revisões de acesso integral verificável, selecionados pela pertinência às redes pré-frontais, temporoparietais, límbicas e aos sistemas de recompensa. As evidências associam cuidado responsivo e sincronização interpessoal a indicadores posteriores de empatia; estudos sobre redes sociais relacionam o envolvimento problemático a dificuldades socioemocionais em algumas populações, enquanto o uso não problemático apresenta resultados heterogéneos e, por vezes, positivos. A oxitocina participa na afiliação, a serotonina modula decisões relacionadas com danos e a dopamina integra circuitos de aprendizagem por recompensa; nenhum destes mediadores determina isoladamente a empatia. Propõe-se que a autorregulação e a avaliação do valor social constituam mecanismos potenciais de interação entre experiências precoces e reforço digital. A hipótese exige testes longitudinais com medidas comportamentais, neurobiológicas e de uso digital.
Palavras-chave: empatia; negligência emocional; córtex pré-frontal; oxitocina; redes sociais; recompensa social.
ABSTRACT
Empathy depends on the integration of affective processing, mental-state inference, and social-behavioral regulation. This article examines two distinct exposures potentially related to these abilities: persistently low parental emotional responsiveness during development and problematic social media use. The aim is to formulate a neurobiological convergence hypothesis without assuming identical effects or a universal historical decline in empathy. A critical narrative review was conducted using accessible full-text longitudinal, observational, experimental, neuroimaging, and review studies on prefrontal, temporoparietal, limbic and reward-related mechanisms. Responsive caregiving and interpersonal synchrony were associated with later indicators of empathy. Problematic social media use correlated with socioemotional difficulties in selected samples, whereas non-problematic use yielded heterogeneous and sometimes positive findings. Oxytocin participates in affiliation, serotonin modulates harm-related decision making, and dopamine contributes to reward learning, but none determines empathy in isolation. Self-regulation and social-value computation are proposed as possible interacting mechanisms linking early experiences to digital reinforcement. Longitudinal tests combining behavioral, neurobiological and digital-exposure measures are required.
Keywords: empathy; emotional neglect; prefrontal cortex; oxytocin; social media; social reward.
1 INTRODUÇÃO
A empatia pode diminuir na expressão comportamental mesmo quando o indivíduo conserva a capacidade de reconhecer o estado emocional de outra pessoa. O problema aparece quando compreender o sofrimento alheio deixa de orientar a decisão, sobretudo diante de recompensas sociais concorrentes, conflito interpessoal ou necessidade de afirmação da própria imagem. Esta distinção separa capacidade empática, motivação para ajudar e comportamento efetivamente observado (Beadle; Paradiso; Tranel, 2018; Smith; Stamoulis, 2023).
A formulação autoral que motivou este estudo sustenta que a menor atenção emocional e afetiva parental, somada ao uso problemático das redes sociais, pode favorecer uma relação social mais centrada no próprio indivíduo. A explicação inicial atribuía o fenómeno à maturação e à comunicação entre córtex pré-frontal dorsolateral, ventromedial e orbitofrontal. O presente texto conserva essa hipótese, porém corrige a simplificação anatómica: empatia afetiva e cognitiva não se localizam exclusivamente nestas três subregiões, nem dependem de um suposto aumento uniforme do seu desenvolvimento.
O córtex pré-frontal integra sistemas de avaliação de consequências e controlo executivo, enquanto redes distribuídas com ínsula, cíngulo, amígdala e territórios temporoparietais participam na identificação de sinais afetivos, na tomada de perspetiva e na distinção entre o próprio estado e o do outro. O estudo de lesões ventromediais oferece evidência mais direta sobre decisões pró-sociais do que a simples correlação entre atividade cerebral e autorrelato de empatia (Beadle; Paradiso; Tranel, 2018).
A hipótese central é delimitada: experiências precoces de responsividade emocional insuficiente podem associar-se a menor eficiência ou a estratégias diferentes de regulação socioafetiva; posteriormente, ambientes digitais com reforço social recorrente podem interagir com essas diferenças individuais e modificar a probabilidade de respostas empáticas em determinadas condições. A hipótese não implica uma sequência inevitável e não permite afirmar que a sociedade inteira esteja biologicamente menos empática.
2 MÉTODO E CRITÉRIOS DE INFERÊNCIA
Este manuscrito constitui uma revisão narrativa crítica orientada por uma hipótese previamente formulada pelo autor. Não constitui revisão sistemática, meta-análise ou investigação experimental inédita. A seleção documental deu prioridade a publicações com texto integral acessível, identificador DOI, descrição do desenho e população, resultados verificáveis e pertinência direta para empatia, cuidado parental, recompensa social e regulação do comportamento.
A consulta bibliográfica ocorreu em outubro de 2026, mediante pesquisa em páginas integrais de periódicos e arquivos de acesso aberto, incluindo Nature Communications, PLOS ONE, Frontiers e periódicos indexados no PubMed Central, bem como revisões integrais publicadas pela Springer Nature. Não se elaborou uma estratégia exaustiva reprodutível para todas as bases nem se calcularam estimativas agrupadas próprias. Os resultados originais são preservados quanto à população, ao desenho e à direção da associação, sem conversão de correlação em causalidade.
A interpretação adotou quatro categorias: associação observacional, antecedência temporal em coortes, intervenção experimental e hipótese mecanística. Estudos de ressonância magnética funcional indicam variação de sinal hemodinâmico, não concentração de dopamina, oxitocina ou serotonina. Estudos de lesão informam a necessidade de determinadas estruturas para tarefas específicas, mas não estabelecem que uma única área seja suficiente para produzir empatia.
3 ORGANIZAÇÃO NEUROANATÓMICA DA EMPATIA
3.1 Empatia afetiva, cognitiva e controlo do comportamento
A empatia afetiva envolve resposta à expressão emocional de outra pessoa e processamento de sinais de relevância corporal e social; a empatia cognitiva envolve representação de estados mentais e tomada de perspetiva. A distinção é analítica, pois as tarefas reais recrutam circuitos em interação, com diversidade de respostas entre indivíduos e fases de desenvolvimento (Levy; Goldstein; Feldman, 2019; Smith; Stamoulis, 2023).
A ínsula anterior participa na integração de sinais interoceptivos e afetivos, enquanto o córtex cingulado médio e anterior participa na mobilização de respostas perante eventos emocionalmente relevantes. A junção temporoparietal e regiões temporais contribuem para a representação de agentes e estados mentais; a amígdala contribui para a atribuição de relevância a sinais sociais, sem funcionar como um centro exclusivo do medo. Levy, Goldstein e Feldman (2019) acompanharam 84 crianças, 42 delas expostas a adversidade crónica relacionada com conflito armado, e identificaram uma resposta neural distribuída perante o sofrimento alheio.
O córtex pré-frontal ventromedial integra valor subjetivo, contexto afetivo e decisões dirigidas a outras pessoas. Beadle, Paradiso e Tranel (2018) estudaram oito pacientes com lesão focal ventromedial e grupos de comparação, observando menor incremento de ofertas económicas quando o sofrimento de terceiros era apresentado. A diferença diz respeito ao comportamento numa tarefa delimitada, não representa diagnóstico de ausência geral de empatia.
O córtex orbitofrontal participa na atualização de contingências de recompensa e punição e o dorsolateral está ligado à manutenção de objetivos, flexibilidade e controlo de respostas. A comunicação destas áreas pode ajudar a transformar reconhecimento do estado alheio em comportamento social ajustado. Contudo, não existe evidência de uma sequência linear na qual o desenvolvimento ventromedial determina, por si só, o orbitofrontal ou o dorsolateral.
Quadro 1. Componentes neurais tratados na hipótese e limites das suas funções. Elaboração conceptual com base em Levy, Goldstein e Feldman (2019), Beadle, Paradiso e Tranel (2018) e Dores et al. (2025).
| Estrutura / rede | Contribuição funcional | Limite da inferência |
|---|---|---|
| Pré-frontal ventromedial (vmPFC) | Integração de valor afetivo e decisão pró-social | Lesão altera determinadas tarefas, não mede empatia total |
| Orbitofrontal (OFC) | Atualização do valor de resultados e contingências | Não equivale a uma “região da empatia” |
| Pré-frontal dorsolateral (dlPFC) | Controlo executivo, manutenção de objetivos, regulação | Controlo cognitivo pode servir tanto ajuda como autopromoção |
| Ínsula anterior e cíngulo | Saliência afetiva, interocepção e mobilização de respostas | Ativação não demonstra sentimento empático isoladamente |
| Junção temporoparietal e temporal superior | Inferência de perspetivas e estados mentais | Capacidade de inferir não implica intenção pró-social |
| Amígdala e estriado ventral | Saliência social e processamento de recompensas | BOLD não mede diretamente neurotransmissores |
3.2 Oxitocina, dopamina, serotonina e sistemas de stress
A oxitocina constitui um neuropeptídeo associado a processos afiliativos, responsividade parental e coordenação das interações sociais. A evidência não autoriza classificá-la como substância que produz empatia de modo invariável. Carozza e Leong (2021) analisaram o toque afetivo parental e descreveram vias sensoriais, hipotálamo e sinalização oxitocinérgica como componentes de uma relação entre contacto, regulação autonómica e vinculação. Markova (2018) examinou 43 díades com bebés de quatro meses, associando rotinas interativas e medidas periféricas de oxitocina sem demonstrar que um valor hormonal isolado determine uma capacidade empática futura.
A dopamina participa na aprendizagem de valores e na sinalização de recompensa em circuitos mesocorticolímbicos. Isso oferece uma explicação fisiológica plausível para a procura repetida de aprovação, mas não comprova que o uso de redes sociais provoque hiperatividade dopaminérgica persistente. Meshi, Morawetz e Heekeren (2013) estudaram 31 adultos jovens com neuroimagem e observaram relação entre resposta do núcleo accumbens à valorização da própria reputação e intensidade de utilização do Facebook. A investigação mediu atividade por ressonância funcional, não libertação sináptica de dopamina.
A serotonina modula avaliação de danos e decisões morais em condições experimentais específicas. Crockett et al. (2010) manipularam farmacologicamente a transmissão serotoninérgica em voluntários saudáveis e observaram maior aversão a causar prejuízo direto em determinados dilemas, com diferenças relacionadas com traços empáticos. O resultado não permite concluir que uma pessoa menos empática tenha necessariamente menos serotonina, nem que alterações serotoninérgicas decorram do tempo de ecrã.
A resposta ao stress envolve sistemas autonómicos e o eixo hipotálamo, hipófise e suprarrenais, incluindo sinalização de cortisol. Uma experiência de cuidado inconsistente pode alterar a maneira como a criança regula excitação e ameaça, porém a direção de mudanças hormonais depende do tipo de adversidade, da idade e do método de medição. Neste artigo, a eventual mediação do cortisol entre negligência emocional e empatia permanece como hipótese, pois os estudos selecionados não demonstram diretamente a cadeia completa proposta.
Os sistemas glutamatérgico e GABAérgico sustentam, respetivamente, grande parte da transmissão excitatória e inibitória no sistema nervoso central. Podem ser considerados condições celulares gerais para a comunicação entre circuitos, mas os trabalhos examinados não justificam associar uma alteração específica destes neurotransmissores ao uso de plataformas digitais ou à perda de empatia. A hipótese não utiliza essas alterações como resultados estabelecidos.
4 RESPONSIVIDADE EMOCIONAL PARENTAL E DESENVOLVIMENTO SOCIOAFETIVO
4.1 A diferença entre ausência afetiva, negligência e variação normal do cuidado
A ausência persistente de atenção emocional e afetiva não equivale à impossibilidade pontual de um cuidador responder, nem pode ser inferida apenas pelo número de horas que pais e filhos passam juntos. A exposição de interesse envolve baixa responsividade repetida às necessidades da criança, reduzida contingência na resposta emocional e dificuldade de estabelecer reciprocidade durante a socialização. O uso indistinto do termo negligência para qualquer imperfeição parental compromete a interpretação clínica e científica.
A sincronização cuidador-criança permite que os sinais da criança recebam respostas ajustadas no tempo e na intensidade. Levy, Goldstein e Feldman (2019) observaram mães e filhos em diferentes momentos do desenvolvimento e relacionaram a sincronização ao padrão neural de resposta empática na pré-adolescência. O estudo não mostrou que toda exposição a adversidade conduz a menor empatia, pois determinadas características de temperamento e ansiedade acompanharam maior recrutamento de regiões associadas ao processamento de sofrimento.
O estudo longitudinal de Smith e Stamoulis (2023), a partir da coorte Adolescent Brain Cognitive Development, examinou 11.062 participantes na avaliação inicial e 9.832 após dois anos. A valorização do afeto pelos cuidadores e outros indicadores positivos de ambiente social apresentaram associações positivas com comportamentos empáticos, com magnitudes modestas para algumas estimativas. A amostra demonstra associação populacional e antecedência temporal de medições, mas não identifica que a falta de afeto cause lesão em áreas pré-frontais específicas.
O toque afetivo, a vocalização responsiva, a atenção ao olhar e a correção dos estados de desconforto constituem exemplos de oportunidades repetidas de aprendizagem social. Carozza e Leong (2021) descrevem como experiências táteis podem participar em processos de regulação autonómica e vínculo, mediante sinalização neuroendócrina e aprendizagem de contingências. Uma criança que recebe reconhecimento consistente de sinais emocionais encontra mais ocasiões para relacionar emoção, resposta do cuidador e consequência interpessoal.
4.2 Formulação neurobiológica da primeira vertente
O mecanismo proposto consiste numa associação entre menor exposição a experiências responsivas e desenvolvimento menos favorável de processos de diferenciação emocional, regulação e tomada de perspetiva, com consequências possíveis para decisões sociais. A hipótese prevê heterogeneidade: em alguns indivíduos pode ocorrer menor envolvimento empático; noutros, maior vigilância às emoções alheias, sem que esta vigilância represente empatia compassiva. Experiência precoce, temperamento e relações posteriores precisam ser tratados conjuntamente.
A referência ao vmPFC, OFC e dlPFC deve ser interpretada como participação numa rede, não como afirmação de que a negligência comprometa sucessivamente estas três áreas. A evidência de lesão ventromedial para comportamentos pró-sociais (Beadle; Paradiso; Tranel, 2018) e a evidência longitudinal sobre experiências precoces (Levy; Goldstein; Feldman, 2019) apoiam partes diferentes do raciocínio. A ligação causal direta entre ambas ainda não foi demonstrada pelas fontes aqui avaliadas.
5 USO PROBLEMÁTICO DAS REDES SOCIAIS E EXPRESSÃO DA EMPATIA
5.1 Intensidade de utilização não equivale a uso problemático
O tempo acumulado nas plataformas é uma variável incompleta para identificar prejuízo socioemocional. O uso problemático pressupõe perda de controlo, preocupação persistente, interferência funcional ou sofrimento associados ao comportamento digital. Poli et al. (2025) analisaram 23 estudos, incluindo 19 longitudinais e quatro de intervenção, e encontraram resultados heterogéneos para fatores de risco e proteção. O número de horas de acesso não substitui a avaliação da função psicológica do comportamento.
A revisão de Piccerillo e Digennaro (2025), composta por 25 estudos, encontrou associações entre uso problemático e dificuldades de regulação emocional, mas identificou também correlações positivas entre utilização de redes sociais e empatia em determinados estudos. Estes resultados contradizem a afirmação de que qualquer aumento de utilização reduz a empatia. Interação com amigos e práticas de apoio podem produzir experiências sociais distintas de comparação hostil ou procura compulsiva de aprovação.
5.2 Reforço social, autorreferência e comportamento observável
A recompensa social online fornece indicadores mensuráveis, como curtidas, comentários e partilhas, que podem orientar a procura de reconhecimento. Meshi, Morawetz e Heekeren (2013) relacionaram atividade do núcleo accumbens perante ganhos de reputação própria com intensidade de uso do Facebook em 31 adultos jovens. Dores et al. (2025) analisaram estudos de neuroimagem sobre feedback social online e identificaram a participação de estriado ventral, vmPFC e amígdala, reconhecendo heterogeneidade metodológica e amostras limitadas.
A atividade destas regiões não significa que o indivíduo tenha perdido a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa. Significa que sinais associados ao valor social podem disputar prioridade atencional e motivacional com necessidades interpessoais concorrentes. A hipótese autoral prevê uma redução contextual da expressão empática quando a obtenção de validação social possui maior valor subjetivo do que o custo afetivo imposto ao outro. Falta demonstrar experimentalmente esta competição em protocolos que mensurem as duas variáveis em simultâneo.
Uma pessoa pode compreender a dor de um interlocutor e, ainda assim, publicar um comentário hostil para obter aprovação do próprio grupo. O exemplo permite distinguir empatia cognitiva, motivação reputacional, desinibição contextual e comportamento agressivo. Sem avaliação de intenções e consequências, a simples existência de uma publicação moral ou de uma defesa pública da empatia não autoriza classificá-la como simulação ou hipocrisia.
5.3 Resultados observacionais e divergências
Accorinti et al. (2025) avaliaram 362 adolescentes italianos, 147 em acompanhamento psiquiátrico e 215 controlos, entre 11 e 18 anos. Maior risco de utilização problemática apresentou associação modesta com menores indicadores de empatia cognitiva e maior sofrimento pessoal, sobretudo em análises de grupos específicos. A natureza transversal, a seleção clínica e possíveis confundidores impedem atribuir ao uso digital a causa destas diferenças.
Ursoniu et al. (2024) estudaram 649 estudantes de Medicina e examinaram a associação entre utilização problemática de redes sociais, alexitimia e empatia, incluindo modelo estatístico de mediação. Modelos de mediação estimados sobre dados observacionais não demonstram uma sequência causal, mesmo quando estatisticamente ajustados. O estudo contribui para identificar hipóteses sobre reconhecimento dos próprios estados emocionais, mas a população universitária não representa crianças em desenvolvimento.
A coexistência de achados negativos em amostras de risco e positivos em outros contextos exige separar frequência de utilização, padrões problemáticos, conteúdo consumido, finalidade do acesso e saúde mental prévia. A revisão de Poli et al. (2025) também identificou relações com variáveis familiares, mas os dados não estabelecem uma trajetória universal em direção ao egoísmo. A afirmação de redução generalizada da empatia deve ser substituída por risco contextual e individual.
6 HIPÓTESE DE CONVERGÊNCIA NEUROFUNCIONAL
Propõe-se que experiências precoces com baixa responsividade emocional e a exposição posterior a esquemas digitais de reforço social possam interagir pela modulação de autorregulação, atribuição de valor e saliência dos sinais interpessoais. A primeira exposição constitui condição de desenvolvimento; a segunda representa ambiente comportamental atual. O seu efeito conjunto não pode ser calculado somando riscos independentes, pois os mecanismos podem variar, compensar-se ou mesmo produzir respostas opostas.
No modelo proposto, uma criança com menos oportunidades consistentes de co-regulação afetiva pode chegar à adolescência com maior necessidade de validação ou estratégias menos eficientes de gestão de rejeição social. Se utilizar redes para reduzir desconforto e procurar recompensa imediata, a aprovação pública poderá assumir valor excessivo em situações específicas. Esse encadeamento constitui inferência teórica e não resultado empírico demonstrado neste manuscrito.
A previsão principal é que adolescentes com menor responsividade afetiva parental medida longitudinalmente e maior utilização digital problemática apresentem, em média e após controlo de confundidores, menor tradução da compreensão do sofrimento alheio em escolhas pró-sociais perante recompensas de reputação. A previsão depende de medidas simultâneas de comportamento, contexto familiar e resposta neurobiológica; nenhuma publicação consultada testou diretamente toda a cadeia.
Quadro 2. Modelo integrado com distinção entre observação e hipótese. Elaboração autoral.
| Etapa | Sinal a medir | Situação da evidência |
|---|---|---|
| Experiência parental precoce | Responsividade, sincronização, calor afetivo, continuidade do cuidado | Apoio observacional e longitudinal parcial (Levy et al., 2019; Smith; Stamoulis, 2023) |
| Processamento de valor e regulação | vmPFC, OFC, dlPFC, ínsula, cíngulo e junção temporoparietal em tarefas separadas | Funções regionais sustentadas; ligação única entre exposições não testada |
| Reforço digital | Uso problemático, busca de aprovação, resposta do estriado ventral e vmPFC | Associações e neuroimagem em populações específicas (Meshi et al., 2013; Dores et al., 2025) |
| Empatia e ação pró-social | Tomada de perspetiva, sofrimento pessoal, ajuda efetiva e agressão | Associações heterogéneas; causalidade conjunta ainda não demonstrada |
| Interação das vertentes | Termo estatístico cuidado parental × uso problemático sobre decisão pró-social | [LACUNA] Hipótese original sem teste direto encontrado |
7 DISCUSSÃO E PROPOSTA DE TESTE EMPÍRICO
O modelo explicativo conserva duas proposições distintas: o cuidado responsivo fornece oportunidades de aprendizagem socioemocional e os mecanismos de recompensa social podem influenciar a expressão de decisões interpessoais. A convergência destas proposições não permite afirmar uma deterioração anatómica produzida por plataformas digitais. Tampouco estabelece que o córtex pré-frontal dorsolateral represente um indicador direto da capacidade de permanecer sozinho ou de tolerar a solidão.
Uma investigação prospectiva deverá acompanhar uma coorte desde a infância, com medidas repetidas de responsividade parental, ambiente familiar e características temperamentais. Na adolescência, o protocolo deverá obter registos objetivos e consentidos de utilização digital, diferenciando padrão problemático, tipo de conteúdo, contexto da interação e intensidade de exposição. Instrumentos de empatia cognitiva e afetiva deverão ser aplicados juntamente com tarefas comportamentais de decisão perante sofrimento e valorização da própria reputação.
A neuroimagem deverá incluir tarefas independentes de mentalização, resposta afetiva e recompensa social. As análises poderão testar conectividade funcional entre vmPFC, OFC, dlPFC, ínsula, cíngulo, territórios temporoparietais e estriado ventral, com hipóteses previamente registadas e correção para comparações múltiplas. A utilização de ressonância funcional não deverá ser descrita como medição química da dopamina; mediadores neuroendócrinos periféricos, se utilizados, exigirão avaliação dos limites de correspondência com sinalização cerebral.
Os modelos deverão testar efeitos de interação e mediação temporal, controlando idade, sexo, puberdade, depressão, ansiedade, características temperamentais, contexto socioeconómico, experiências adversas e qualidade de relacionamentos presenciais. Para inferência causal, ensaios com alterações eticamente aceitáveis no uso digital e intervenções de educação socioemocional poderão complementar a coorte. A hipótese será enfraquecida se a associação desaparecer após controlo de confundidores ou se a utilização digital melhorar os resultados empáticos sem prejuízo comportamental.
A expressão “o mal do século é a redução da empatia” permanece como enunciado reflexivo do autor e não como dado epidemiológico. Para a transformar em conclusão científica seria necessário demonstrar declínio temporal comparável entre coortes e sociedades, controlar mudanças nos instrumentos de medição e distinguir comportamento observado de autorrelato. Essas condições não foram satisfeitas pelas fontes selecionadas.
8 LIMITAÇÕES
A revisão não utilizou protocolo sistemático de busca e extração, não executou dupla seleção independente e não calculou risco de viés de cada estudo mediante instrumento uniforme. Assim, não permite estimar efeito global nem afirmar completude bibliográfica. Os estudos selecionados combinam adultos, estudantes de Medicina, crianças acompanhadas longitudinalmente e adolescentes de amostras clínicas, com instrumentos e tarefas que não são diretamente equivalentes.
Existe distância inferencial entre associação de cuidado parental e empatia, atividade de circuitos envolvidos em recompensa e hipótese de comportamento egoísta. Neuroimagem funcional não equivale a causalidade nem quantifica diretamente neurotransmissores; indicadores periféricos de oxitocina e cortisol não permitem deduzir concentrações sinápticas centrais. A evidência sobre córtex orbitofrontal e dorsolateral nesta cadeia é funcional e indireta, enquanto a ligação da negligência parental ao posterior uso problemático e à resposta empática precisa de estudo específico.
Resultados contraditórios sobre utilização digital não podem ser descartados em favor da hipótese. É necessário considerar causalidade inversa, diferenças pré-existentes de empatia e autorregulação, seleção dos participantes, variação cultural, conteúdo das plataformas e possíveis erros de medição. Nenhuma análise aqui apresentada comprova um decréscimo global de empatia por geração, nem uma perda uniforme de desenvolvimento cerebral associada às redes sociais.
9 CONCLUSÃO
A responsividade emocional parental e os padrões problemáticos de utilização das redes sociais constituem exposições distintas que podem relacionar-se com a expressão da empatia por vias de desenvolvimento socioafetivo, regulação e recompensa. A hipótese autoral propõe a interação entre essas vias, com participação de redes pré-frontais, límbicas e temporoparietais e modulação por sistemas oxitocinérgicos, serotoninérgicos e dopaminérgicos. As evidências existentes sustentam componentes do mecanismo, mas não comprovam a cadeia causal completa. O passo seguinte é testá-la.
REFERÊNCIAS
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BEADLE, J. N.; PARADISO, S.; TRANEL, D. Ventromedial prefrontal cortex is critical for helping others who are suffering. Frontiers in Neurology, v. 9, art. 288, 2018. DOI: https://doi.org/10.3389/fneur.2018.00288.
CAROZZA, S.; LEONG, V. The role of affectionate caregiver touch in early neurodevelopment and parent–infant interactional synchrony. Frontiers in Neuroscience, v. 14, art. 613378, 2021. DOI: https://doi.org/10.3389/fnins.2020.613378.
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DORES, A. R. et al. The effects of social feedback through the “like” feature on brain activity: a systematic review. Healthcare, v. 13, n. 1, art. 89, 2025. DOI: https://doi.org/10.3390/healthcare13010089.
LEVY, J.; GOLDSTEIN, A.; FELDMAN, R. The neural development of empathy is sensitive to caregiving and early trauma. Nature Communications, v. 10, art. 1905, 2019. DOI: https://doi.org/10.1038/s41467-019-09927-y.
MARKOVA, G. The games infants play: social games during early mother–infant interactions and their relationship with oxytocin. Frontiers in Psychology, v. 9, art. 1041, 2018. DOI: https://doi.org/10.3389/fpsyg.2018.01041.
MESHI, D.; MORAWETZ, C.; HEEKEREN, H. R. Nucleus accumbens response to gains in reputation for the self relative to gains for others predicts social media use. Frontiers in Human Neuroscience, v. 7, art. 439, 2013. DOI: https://doi.org/10.3389/fnhum.2013.00439.
PICCERILLO, L.; DIGENNARO, S. Adolescent social media use and emotional intelligence: a systematic review. Adolescent Research Review, v. 10, p. 201–218, 2025. DOI: https://doi.org/10.1007/s40894-024-00245-z.
POLI, S. et al. Problematic social media use in mid-adolescents: a systematic review of intrapersonal and interpersonal protective/risk factors and psychosocial interventions. Current Addiction Reports, v. 12, art. 81, 2025. DOI: https://doi.org/10.1007/s40429-025-00694-z.
SMITH, C.; STAMOULIS, C. Effects of multidomain environmental and mental health factors on the development of empathetic behaviors and emotions in adolescence. PLOS ONE, v. 18, n. 11, e0293473, 2023. DOI: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0293473.
URSONIU, S. et al. The interconnection between social media addiction, alexithymia and empathy in medical students. Frontiers in Psychiatry, v. 15, art. 1467246, 2024. DOI: https://doi.org/10.3389/fpsyt.2024.1467246.
DECLARAÇÕES EDITORIAIS
Contribuições de autoria (CRediT): Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues: conceptualização da hipótese original, definição do problema, orientação interpretativa e revisão científica final a confirmar antes da submissão. Apoio automatizado à redação técnica e formatação descrito abaixo. Não houve recolha nem análise de dados primários para este manuscrito.
Uso de inteligência artificial: foi utilizado o ChatGPT, modelo GPT-6 (OpenAI), em outubro de 2026, para apoio na organização do manuscrito, redação editorial, pesquisa e verificação bibliográfica e normalização formal. A ferramenta não é autora. O autor indicado deve rever integralmente os argumentos e referências, aprovar o texto final e assumir responsabilidade pelo conteúdo antes de qualquer submissão.
Financiamento: nenhum financiamento específico foi informado para a elaboração deste manuscrito. Informação sujeita a confirmação do autor.
Conflitos de interesses: informação não fornecida. A declaração formal deve ser preenchida e assinada pelo autor antes da submissão; não se presume ausência de conflitos.
Aprovação ética: este documento apresenta análise de literatura publicada e não descreve recolha de dados humanos originais; não foi solicitada aprovação de comité de ética para a sua preparação. Eventual investigação futura exigirá avaliação ética própria.
Disponibilidade de dados: não foram produzidos dados primários. As evidências são identificadas por DOI nas referências; a auditoria de proveniência acompanha esta versão editorial.
APÊNDICE A | AUDITORIA DE PROVENIÊNCIA
A tabela identifica afirmações nucleares, fonte integral utilizada, identificador DOI, localização do resultado e grau de suporte. Os campos [FONTE], [AUTORAL] e [LACUNA] pertencem ao controle editorial desta versão, não integram a redação destinada à publicação. A classificação “direto” refere-se ao que a publicação efetivamente mediu, e não a causalidade universal.
Empatia envolve componentes afetivos e cognitivos | [FONTE] Smith; Stamoulis (2023) | DOI: 10.1371/journal.pone.0293473 | Localização: Introdução, definição do construto | Suporte: Direto
Responsividade parental associa-se a empatia juvenil | [FONTE] Smith; Stamoulis (2023) | DOI: 10.1371/journal.pone.0293473 | Localização: Resumo; resultados da coorte ABCD, n inicial 11.062 | Suporte: Direto, associativo
Sincronização mãe-filho relaciona-se com resposta neural empática | [FONTE] Levy; Goldstein; Feldman (2019) | DOI: 10.1038/s41467-019-09927-y | Localização: Resumo, métodos e discussão; n final 84 | Suporte: Direto, longitudinal
vmPFC participa na ajuda perante sofrimento | [FONTE] Beadle; Paradiso; Tranel (2018) | DOI: 10.3389/fneur.2018.00288 | Localização: Resultados, hipótese principal; oito pacientes com lesão | Suporte: Direto, amostra pequena
Oxitocina participa em processos afiliativos no cuidado | [FONTE] Carozza; Leong (2021) | DOI: 10.3389/fnins.2020.613378 | Localização: Secções de toque e vínculo afiliativo | Suporte: Parcial, revisão
Interação materna e oxitocina periférica associadas | [FONTE] Markova (2018) | DOI: 10.3389/fpsyg.2018.01041 | Localização: Métodos e resultados; 43 díades | Suporte: Direto, correlacional
Modulação serotoninérgica altera aversão a causar dano | [FONTE] Crockett et al. (2010) | DOI: 10.1073/pnas.1009396107 | Localização: Métodos e resultados experimentais | Suporte: Direto, tarefas específicas
Recompensa reputacional relaciona-se com resposta do accumbens | [FONTE] Meshi; Morawetz; Heekeren (2013) | DOI: 10.3389/fnhum.2013.00439 | Localização: Métodos e resultados de fMRI; n 31 | Suporte: Direto, associativo
Resposta a curtidas envolve regiões de recompensa | [FONTE] Dores et al. (2025) | DOI: 10.3390/healthcare13010089 | Localização: Resultados e limitações da revisão | Suporte: Direto, heterogéneo
Uso problemático distingue-se de horas de utilização | [FONTE] Poli et al. (2025) | DOI: 10.1007/s40429-025-00694-z | Localização: Introdução, critérios de inclusão e discussão | Suporte: Direto, conceptual
Redes sociais podem associar-se positivamente à empatia | [FONTE] Piccerillo; Digennaro (2025) | DOI: 10.1007/s40894-024-00245-z | Localização: Secção “Adolescent’s Empathy and Social Media” | Suporte: Direto, síntese de literatura
Risco digital e empatia cognitiva reduzida em amostra clínica | [FONTE] Accorinti et al. (2025) | DOI: 10.3390/children12091226 | Localização: Resumo, resultados e discussão; n 362 | Suporte: Direto, transversal
Alexitimia pode participar na associação uso-empatia | [FONTE] Ursoniu et al. (2024) | DOI: 10.3389/fpsyt.2024.1467246 | Localização: Métodos e modelo de mediação; n 649 | Suporte: Parcial, não causal
Negligência causa dano sequencial vmPFC > OFC > dlPFC | [LACUNA] Não há teste causal direto nas fontes | DOI: Não aplicável | Localização: Não identificado | Suporte: Sem suporte: descartado
Exposição digital reduz diretamente a concentração de dopamina | [LACUNA] fMRI não é dosagem de neurotransmissor | DOI: Não aplicável | Localização: Limitação metodológica | Suporte: Sem suporte: descartado
Negligência e uso problemático interagem na mesma cadeia causal | [AUTORAL] Hipótese central proposta | DOI: Não aplicável | Localização: Secção 6 do manuscrito | Suporte: Hipotético, não demonstrado
A empatia diminuiu universalmente entre gerações | [LACUNA] Sem séries comparáveis identificadas | DOI: Não aplicável | Localização: Limitações da revisão | Suporte: Sem suporte: descartado
APÊNDICE B | PARECER ADVERSARIAL
Parecer crítico independente simulado para avaliação do argumento: o manuscrito não comprova a interação causal entre negligência emocional infantil e uso problemático de redes sociais na redução da empatia. As referências provêm de populações, tarefas e instrumentos diferentes; estudos de neuroimagem medem atividade associada a eventos, não disponibilidade de neurotransmissores. O modelo combina três escalas temporais distintas, infância, adolescência e decisão imediata, sem dados próprios que integrem essas escalas. A hipótese não poderia ser apresentada como mecanismo demonstrado.
Objeção adicional: a expressão “redução da empatia” pode sugerir tendência histórica inexistente no conjunto de fontes; a relação com redes digitais é heterogénea e inclui associações positivas. Estudos de utilização problemática também apresentam possível causalidade inversa, confundimento por psicopatologia e diferenças de seleção. O conceito de ausência afetiva parental não foi operacionalizado com um instrumento específico neste manuscrito.
Decisão editorial simulada: rejeitar qualquer versão que apresente as duas vertentes como causas comprovadas de alterações anatómicas ou neuroquímicas. Aceitar a discussão apenas como hipótese de revisão narrativa crítica, com descrição explícita das lacunas, previsão falsificável, estudos contrários e reconhecimento das restrições metodológicas. Exigir protocolo de revisão sistemática caso o manuscrito pretenda calcular direção ou magnitude geral do efeito.
APÊNDICE C | RASTREABILIDADE E REVISÃO PRÉ-SUBMISSÃO
Rascunho conceptual de origem: texto autoral fornecido na conversa em outubro de 2026, com a tese “o mal do século é a redução da empatia” e a relação proposta entre cuidado afetivo parental, uso excessivo de redes sociais e função pré-frontal. Versão de trabalho editorial: 1.0, 21 de outubro de 2026. Esta versão preserva o núcleo da hipótese, substituindo relações causais categóricas não demonstradas por mecanismos propostos e inferências explicitamente delimitadas.
Estado de verificação: as referências utilizadas possuem DOI e páginas de texto integral acessíveis na consulta efetuada. Não se considera concluída a avaliação científica externa por pares; a responsabilidade pela aprovação autoral e submissão permanece pendente. Autor correspondente, conflitos de interesses, eventual financiamento e adequação às regras da revista ainda exigem confirmação.
Checklist científico: conferir cada DOI, verificar se a formulação das funções neuroanatómicas está restrita ao desenho do estudo, documentar a estratégia de busca se o artigo evoluir para revisão sistemática, definir instrumentos de medida do cuidado emocional parental, validar critérios de uso digital problemático, registar previamente o modelo causal e testar as hipóteses com correção para comparações múltiplas.