Os transtornos de ansiedade representam as psicopatologias mais prevalentes no público infantojuvenil, com estimativas de que até uma em cada dez crianças preencherá critérios diagnósticos para um transtorno de ansiedade antes dos 16 anos. Diferente da ansiedade normativa — que atua como uma resposta adaptativa a ameaças —, os transtornos clínicos são caracterizados por um medo ou preocupação excessiva, persistente e desproporcional ao perigo real, resultando em sofrimento significativo e prejuízo funcional em múltiplas esferas da vida do jovem, como o ambiente escolar e familiar. A identificação precoce é fundamental, dado que a ansiedade não tratada na infância é um preditor robusto para o desenvolvimento de depressão, abuso de substâncias e continuidade da psicopatologia na vida adulta. (Referência: Hill C, Waite P, Creswell C. Anxiety disorders in children and adolescents. Paediatr Child Health. 2016;26(12):548-553. doi:10.1016/j.paed.2016.08.007)
A apresentação clínica dos transtornos de ansiedade varia conforme o estágio do desenvolvimento e o diagnóstico específico. O Transtorno de Ansiedade de Separação (TAS) é comum em crianças menores e envolve um medo intenso de eventos catastróficos que possam separar a criança de suas figuras de apego. Já o Transtorno de Ansiedade Social (TASoc) tende a emergir na adolescência, focado no medo do julgamento negativo e da avaliação por pares. Outras manifestações incluem as Fobias Específicas, o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) — marcado por preocupações incontroláveis sobre diversos domínios — e o Transtorno de Pânico. É comum a coexistência de múltiplos transtornos de ansiedade em um mesmo indivíduo, bem como a comorbidade com o Transtorno Depressivo Maior, o que complexifica o quadro clínico e a resposta ao tratamento. (Referência: Hill C, Waite P, Creswell C. Anxiety disorders in children and adolescents. Paediatr Child Health. 2016;26(12):548-553. doi:10.1016/j.paed.2016.08.007)
No que tange à etiopatogenia, os transtornos de ansiedade resultam de uma complexa interação entre fatores genéticos, temperamentais e ambientais. A herdabilidade é significativa, mas não determinante, sendo mediada por estilos parentais e processos de aprendizagem, como a modelagem de comportamentos ansiosos pelos genitores. Neurobiologicamente, observa-se uma hiperatividade em circuitos neurais envolvidos na detecção de ameaças, notadamente no complexo da amígdala. Além disso, vieses cognitivos — como a tendência a interpretar estímulos ambíguos como perigosos e a subestimação da própria capacidade de enfrentamento — desempenham um papel central na manutenção dos sintomas ansiosos, criando um ciclo de evitação que reforça a crença na periculosidade do estímulo. (Referência: Hill C, Waite P, Creswell C. Anxiety disorders in children and adolescents. Paediatr Child Health. 2016;26(12):548-553. doi:10.1016/j.paed.2016.08.007)
As evidências científicas atuais apontam a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) como a intervenção de primeira linha para crianças e adolescentes. O componente central da TCC é a exposição gradual, onde o jovem é incentivado a enfrentar as situações temidas de forma sistemática, permitindo a habituação e a desconfirmação de previsões catastróficas. Intervenções farmacológicas, especificamente os Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS), são indicadas para casos de gravidade moderada a severa ou quando a resposta à psicoterapia isolada é insuficiente. Contudo, a farmacoterapia deve ser sempre acompanhada de monitoramento rigoroso e, preferencialmente, combinada com estratégias psicoterapêuticas para garantir a manutenção dos ganhos terapêuticos e a prevenção de recaídas em longo prazo. (Referência: Hill C, Waite P, Creswell C. Anxiety disorders in children and adolescents. Paediatr Child Health. 2016;26(12):548-553. doi:10.1016/j.paed.2016.08.007)
Em suma, o manejo dos transtornos de ansiedade na juventude exige uma abordagem multidisciplinar e sensível ao desenvolvimento. A redução das barreiras para o acesso ao tratamento é um imperativo ético e clínico, visto que o sucesso terapêutico não apenas alivia o sofrimento imediato, mas altera a trajetória de desenvolvimento do indivíduo, prevenindo a cronificação de morbidades mentais. A educação de pais e educadores sobre os sinais precoces de ansiedade, diferenciando-os de timidez ou comportamentos normativos, é o primeiro passo para uma rede de proteção eficaz que assegure a saúde mental das futuras gerações. (Referência: Hill C, Waite P, Creswell C. Anxiety disorders in children and adolescents. Paediatr Child Health. 2016;26(12):548-553. doi:10.1016/j.paed.2016.08.007)
Referência (ABNT):
HILL, Claire; WAITE, Polly; CRESWELL, Cathy. Anxiety disorders in children and adolescents. Paediatrics and Child Health, [s. l.], v. 26, n. 12, p. 548-553, 2016. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1016/j.paed.2016.08.007. Acesso em: 02 maio 2026.