O avanço contínuo das tecnologias digitais transformou profundamente as formas de comunicação e interação interpessoal na sociedade contemporânea. Embora o uso de smartphones tenha sido extensivamente investigado em coortes mais jovens, como adolescentes e adultos jovens, a dinâmica de engajamento da população idosa com essas tecnologias permaneceu historicamente subexplorada. Diante do envelhecimento demográfico e da crescente digitalização dos serviços, torna-se imprescindível compreender os fatores motivacionais e psissociais que regem o comportamento de uso de smartphones entre idosos.
A análise fundamenta-se na investigação conduzida com 154 usuários de smartphones com idade igual ou superior a 60 anos na Noruega, utilizando a modelagem de equações estruturais por mínimos quadrados parciais (PLS-SEM). Os resultados revelam que os idosos utilizam os dispositivos móveis para finalidades multifacetadas, divididas em interações sociais (45,2% do tempo total de uso) e não sociais (54,8%). Entre as atividades mais prevalentes, destacam-se o uso de redes sociais (média de 39,8 minutos por dia) e a leitura de notícias (28,8 minutos por dia). O tempo médio total de uso diário registrado foi de 159,4 minutos.
Sob a perspectiva dos determinantes motivacionais, o estudo identificou que a solidão se estabelece como o preditor mais forte do ganho emocional (β = 0,402; p ≤ 0,001). Essa constatação alinha-se à teoria da seletividade socioemocional, a qual sugere que, à medida que a percepção do tempo se torna mais limitada na maturidade, os indivíduos priorizam a manutenção de relacionamentos sociais íntimos em detrimento da expansão de redes periféricas. Assim, o smartphone atua como um mecanismo compensatório e de mediação para atenuar o isolamento e cultivar o sentimento de pertencimento.
Além da solidão, a influência social (β = 0,267; p ≤ 0,001) e o hábito (β = 0,149; p ≤ 0,05) exerceram papel determinante na percepção de ganho emocional associado ao uso do dispositivo. Os dados apontam que a encorajamento por parte de familiares, como filhos e netos, impulsiona a adoção e a assimilação de aplicativos de conectividade pelos idosos. Por sua vez, o ganho emocional associou-se significativamente ao medo de ficar de fora (FoMO) (β = 0,517; p ≤ 0,001) e ao uso problemático do smartphone (UPS) (β = 0,285; p ≤ 0,001).
No entanto, diferentemente dos padrões observados em populações jovens, a prevalência do uso problemático do smartphone entre os idosos revelou-se extremamente baixa, fixando-se em apenas 2,4%. Da mesma forma, o sintoma de FoMO apresentou baixa ocorrência nessa faixa etária. Essa discrepância é explicada, em parte, pelo papel do autocontrole, que demonstrou uma associação negativa com o uso problemático (β = -0,233; p ≤ 0,01). Os idosos investigados apresentaram níveis moderados a elevados de autorregulação, o que previne a transição do uso normativo para comportamentos compulsivos ou aditivos.
Em suma, embora a intensificação da conectividade móvel traga riscos potenciais de dependência em grupos vulneráveis, a utilização de smartphones por idosos manifesta-se predominantemente de forma funcional e adaptativa, servindo como ferramenta de suporte interpessoal e acesso à informação sem comprometer significativamente o funcionamento diário.
Referência (Formato ABNT):
BUSCH, Peter André; HAUSVIK, Geir Inge; ROPSTAD, Odd Karsten; PETTERSEN, Daniel. Smartphone usage among older adults. Computers in Human Behavior, v. 121, p. 106783, 2021. DOI: https://doi.org/10.1016/j.chb.2021.106783.