O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) representam duas das condições neurodesenvolvimentais mais prevalentes e amplamente diagnosticadas na infância, com taxas de prevalência global estimadas em 5-7% para o TDAH e 0,6-1% para o TEA. Historicamente, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais em sua quarta edição (DSM-IV) impunha uma barreira diagnóstica mútua, estabelecendo o TDAH como critério de exclusão para o TEA e proibindo a coocorrência formal de ambos. Todavia, o advento da quinta edição do manual (DSM-5) reformulou esse paradigma ao permitir a realização do diagnóstico duplo, impulsionado por robustas evidências epidemiológicas e genéticas de sobreposição feno-genotípica. Apesar dessa abertura regulatória, a elucidação do perfil de sintomas do tipo autista em indivíduos com diagnóstico primário de TDAH permanece cercada por desafios diagnósticos e heterogeneidade metodológica na literatura científica atual.
Investigações sistemáticas revelam que indivíduos diagnosticados primariamente com TDAH apresentam, em média, níveis significativamente mais elevados de sintomatologia associada ao TEA do que a população geral. No entanto, as estimativas de prevalência de sintomas autistas clinicamente relevantes dentro dessa população flutuam drasticamente, variando de 15% a 64,3%. Essa acentuada variação quantitativa decorre de disparidades metodológicas rigorosas, em especial o emprego preferencial de triagens (screeners) e inventários de sintomas — como o Quociente do Espectro Autista (AQ), a Escala de Responsividade Social (SRS) e o Questionário de Comunicação Social (SCQ) — em detrimento de ferramentas diagnósticas padrão-ouro padronizadas e administradas por clínicos, como a Escala de Observação para o Diagnóstico do Autismo (ADOS). Evidências empíricas demonstram essa discrepância de forma clara: em uma mesma amostra de adultos com TDAH, enquanto 64,3% endossaram níveis clínicos de sintomas autistas por meio do instrumento autoaplicável AQ, apenas 23.3% preencheram de fato os critérios diagnósticos estritos de TEA quando submetidos à avaliação padronizada via ADOS-2.
Análises detalhadas por subdomínios sintomáticos indicam que o cruzamento fenotípico manifesta-se de forma assimétrica entre as dimensões do espectro autista. Dados agregados sugerem que indivíduos com TDAH exibem maior comprometimento nas esferas de cognição social e comunicação do que no domínio de comportamentos restritos, repetitivos e estereotipados. Contudo, a interpretação dessas disfunções de interatividade social no TDAH exige cautela etiológica: frequentemente, tais dificuldades relacionais são secundárias às falhas de funções executivas inerentes ao próprio TDAH (como impulsividade e desatenção sustentada), diferindo dos déficits intrínsecos de raciocínio social e de reciprocidade socioemocional característicos do TEA genuíno. Adicionalmente, mapeamentos baseados em subgrupos clínicos denotam que prejuízos nas habilidades sociais tendem a ser significativamente mais agudos em pacientes que manifestam a apresentação combinada do TDAH do que naqueles com os subtipos predominantemente inatento ou hiperativo/impulsivo.
Outro fator complicador na aferição da comorbidade diz respeito à validade interna dos instrumentos avaliativos e à confiabilidade das fontes informantes em populações neurodesenvolvimentais. Uma parcela expressiva dos questionários de rastreio historicamente utilizados foca excessivamente em falhas de comunicação social e negligencia traços de comportamentos repetitivos e interesses restritos, elementos cuja identificação concomitante é mandatória sob as diretrizes do DSM-5. Além disso, a dependência de autorrelatos pode mascarar a gravidade dos sintomas devido a déficits de insight e habilidades introspectivas/metacognitivas nos próprios pacientes, gerando subnotificação. No caso de informantes heterogêneos, observa-se uma baixa taxa de concordância interavaliadores (como entre pais e professores), ressaltando que os núcleos familiares frequentemente tendem a classificar os indivíduos com níveis de limitação funcional substancialmente superiores aos reportados por observadores externos.
Diante do exposto, conclui-se que o diagnóstico diferencial e a identificação precisa de sintomas de TEA no cenário do TDAH dependem crucialmente de um refinamento metodológico urgente na prática clínica e de pesquisa. A mera aplicação de listagens de sintomas e rastreadores unidimensionais mostra-se insuficiente e propensa a inflar as taxas de comorbidade devido à sobreposição superficial de comportamentos funcionais. Para mitigar o risco de diagnósticos incorretos ou tardios, os quais obstaculizam a formulação de intervenções terapêuticas direcionadas, torna-se imperativo que investigações futuras e protocolos clínicos priorizem avaliações diagnósticas estruturadas e objetivas — unindo de forma sinérgica o uso do ADOS e de entrevistas clínicas detalhadas (como a ADI-R) — idealmente amparadas por múltiplos informantes e análises longitudinais de severidade.
Referência
ZHONG, Qing; PORTER, Melanie. Autism Spectrum Disorder Symptoms in Individuals with a Primary Diagnosis of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder: A Systematic Review. Review Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 11, n. 1, p. 1-15, mar. 2024.