O diagnóstico diferencial de condições neurodesenvolvimentais em adultos tem se tornado um dos campos mais complexos e demandantes da psiquiatria contemporânea. Historicamente validados e investigados sob a óptica da infância, o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) frequentemente estendem-se ao longo do ciclo vital, manifestando-se na idade adulta com contornos fenotípicos refinados e sobrepostos. O desafio clínico é acentuado pela alta prevalência de coocorrência entre ambas as condições. Estimativas apontam que entre 40% e 70% dos indivíduos com TEA apresentam sintomas concomitantes de TDAH , enquanto cerca de 10% a 20% dos adultos com diagnóstico primário de TDAH manifestam traços significativos do espectro autista. Essa expressiva intersecção gera o fenômeno do sombreamento diagnóstico (diagnostic overshadowing), no qual os sintomas de um transtorno mascaram ou camuflam os do outro, resultando em diagnósticos tardios ou na incompreensão da real arquitetura sintomática do paciente. Diante disso, a busca por instrumentos de rastreio autoaplicáveis e marcadores fenotípicos capazes de discriminar de forma robusta o TDAH isolado, o TEA isolado e a sua apresentação sinérgica (TDAH+TEA) assume papel crucial na prática clínica.
Tradicionalmente, os processos de triagem e diferenciação fundamentam-se em dimensões cognitivas e comportamentais clássicas, tais como os déficits de atenção executiva, a hiperatividade motora e as falhas persistentes na reciprocidade socioemocional. No entanto, evidências recentes sugerem que a incorporação da regulação emocional — especificamente o constructo da labilidade afetiva — confere um poder discriminativo substancial e inovador a esse processo. A labilidade afetiva, caracterizada por oscilações rápidas e intensas entre estados de eutimia, depressão, elação e ansiedade, apresenta-se de forma pronunciada em indivíduos com TDAH, mesmo na ausência de comorbidades do humor. Embora também seja observada no TEA, a dinâmica e a expressão dessas flutuações emocionais diferem devido aos perfis intrínsecos de comunicação social e rigidez comportamental de cada transtorno. Estudos comparativos utilizando escalas multidimensionais indicam que o perfil de reatividade emocional e os limiares de controle inibitório afetivo variam de modo previsível entre os subgrupos neurodesenvolvimentais, posicionando o monitoramento das respostas emocionais como um domínio transdiagnóstico essencial.
A utilidade clínica de inventários de autorrelato — como a Escala de Avaliação de TDAH em Adultos de Barkley (BAARS-IV), o Quociente do Espectro Autista (AQ), o Quociente de Empatia (EQ) e a Escala de Labilidade Afetiva (ALS-18) — foi rigorosamente testada em ambiente especializado. Análises estatísticas baseadas em modelos de regressão logística quantificaram o peso exato de variáveis específicas na segregação das patologias. Na distinção primária entre TDAH e TEA, observou-se que escores elevados na avaliação histórica de sintomas na infância (escore total da BAARS-IV dos 5 aos 12 anos) e níveis agudos de desatenção atual (nos últimos seis meses) reduzem significativamente a probabilidade de o indivíduo pertencer ao grupo TEA isolado. Em termos probabilísticos, cada incremento unitário no escore de desatenção atual reduz em 25% a chance de um diagnóstico exclusivo de autismo. Em contrapartida, pontuações elevadas no AQ total elevam em 10% a probabilidade de o paciente situar-se no espectro autista , enquanto a preservação de escores de empatia avaliados pelo EQ atua inversamente, diminuindo essa chance. Esse padrão confirma que a persistência longitudinal de falhas de atenção e o registro retrospectivo preciso de condutas hiperativo-impulsivas na infância servem como balizadores robustos para o isolamento do TDAH.
O cenário torna-se ainda mais refinado quando o desafio clínico reside em diferenciar o portador de TDAH puro daquele que apresenta a comorbidade TDAH+TEA. Nestes casos, a subescala de Raiva extraída da ALS-18 emerge como um preditor neurobiológico e comportamental independente e de alta relevância. Verificou-se que, para além do impacto esperado do AQ total, cada aumento de uma unidade na subescala de Raiva eleva em 10% as chances de o indivíduo apresentar a coocorrência dos dois transtornos. Isso sugere que a manifestação combinada de TDAH e TEA engendra uma sobrecarga nos mecanismos de processamento socioemocional e adaptativo, exacerbando respostas de frustração que se traduzem em labilidade focada na agressividade e na irritabilidade. Por outro lado, o escore total retroativo da BAARS-IV (5-12 anos) correlaciona-se inversamente com a coocorrência ; indivíduos com perfis lineares e clássicos de TDAH na infância tendem a manter o diagnóstico isolado na vida adulta, ao passo que a presença de traços autistas na infância pode atenuar, modificar ou camuflar as manifestações típicas de hiperatividade e impulsividade de forma precoce, reduzindo o registro puramente focado no déficit de atenção.
Por fim, a separação diagnóstica entre o TEA puro e a coocorrência TDAH+TEA repousa primordialmente sobre a severidade dos sintomas de desatenção e hiperatividade atuais e sobre os índices de empatia global. Modelos matemáticos demonstram que elevações no escore total atual da BAARS-IV incrementam em 20% a probabilidade de o paciente com base autista receber também o diagnóstico de TDAH. Curiosamente, o escore total do EQ também se correlaciona de forma positiva com a classificação no grupo comorbidade : indivíduos com TDAH+TEA exibem, em questionários autoaplicáveis, uma pontuação discretamente superior em empatia do que aqueles com autismo isolado. Esse achado aponta para o fato de que o perfil cognitivo do TDAH pode introduzir dinâmicas de busca social e traços de impulsividade interacional que modificam a apresentação clássica de isolamento do autismo, gerando respostas distintas nos inventários de triagem. Em suma, a transição de um modelo diagnóstico estritamente categorial para uma abordagem dimensional, enriquecida por métricas de regulação afetiva e pelo uso estratégico de questionários de autorrelato combinados, dota o clínico de ferramentas preditivas refinadas, mitigando o atraso diagnóstico e otimizando as estratégias de suporte psicoterapêutico e farmacológico na idade adulta.
Referência
PEHLIVANIDIS, Artemios et al. Self-reported symptoms of attention deficit hyperactivity disorder (ADHD), autism spectrum disorder (ASD), and affective lability in discriminating adult ADHD, ASD and their co-occurrence. BMC Psychiatry, v. 25, n. 1, p. 1-14, 15 mai. 2025.