O texto em questão aborda a complexa dinâmica que leva as vítimas a permanecerem em relacionamentos abusivos, um problema de saúde pública de grande relevância, especialmente para as mulheres. Um estudo exploratório, dividido em duas partes, examinou a relação entre o apego ansioso e a vontade de permanecer em um relacionamento abusivo. A pesquisa foi conduzida com mulheres solteiras, com o objetivo de entender os fatores psicológicos que contribuem para a vulnerabilidade à vitimização.
O Estudo 1 utilizou uma metodologia correlacional, onde as participantes liam um cenário fictício de violência física por parte de um parceiro e respondiam a questionários sobre a sua vontade de permanecer no relacionamento (WSR). Os resultados indicaram que um alto nível de apego ansioso está associado a uma maior tendência de imaginar a permanência na relação, mesmo diante da violência. O estudo concluiu que a visão negativa que as pessoas com apego ansioso têm de si mesmas e a sua fixação na ansiedade de separação podem interferir na sua percepção da violência e, consequentemente, levá-las a preferir a continuação da relação abusiva à ameaça de abandono.
O Estudo 2 aprofundou essa investigação, utilizando um design experimental. As participantes foram submetidas a uma técnica conhecida como “preparação para a segurança” (security priming), que consistia em uma visualização e escrita sobre um relacionamento seguro e solidário. O objetivo era ativar um esquema de apego seguro. Os resultados mostraram que as participantes expostas a essa técnica apresentaram uma redução significativa na sua vontade de permanecer no relacionamento abusivo, em comparação com o grupo de controle que foi exposto a uma “preparação neutra” (neutral priming). Esse efeito foi mais forte em mulheres com níveis de apego ansioso de moderado a alto.
Em conclusão, os estudos contribuem para o entendimento de que a insegurança de apego, especialmente o apego ansioso, é um fator de risco psicológico para a vitimização. A pesquisa também sugere que fortalecer o esquema de apego seguro, por meio de técnicas como a preparação para a segurança, pode ser uma ferramenta eficaz para capacitar (potenciais) vítimas a rejeitar relacionamentos abusivos. Essa descoberta tem implicações importantes para a prática clínica, sugerindo que as intervenções devem incluir a psicoeducação sobre o apego e o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento mais saudáveis.
Referência:
KURAL, Ayşe I.; KOVACS, Monika. The role of anxious attachment in the continuation of abusive relationships: The potential for strengthening a secure attachment schema as a tool of empowerment. Acta Psychologica, v. 225, p. 103537, maio 2022.

