Home OpiniãoO Eixo Microbiota-Intestino-Cérebro e a Patologia de Alzheimer: O Papel Central da Neuroinflamação

O Eixo Microbiota-Intestino-Cérebro e a Patologia de Alzheimer: O Papel Central da Neuroinflamação

by Redação CPAH

A Doença de Alzheimer (DA) é reconhecida mundialmente como a principal causa de demência, caracterizada por um declínio progressivo da memória e das funções cognitivas. Embora fatores genéticos e o envelhecimento sejam riscos estabelecidos, evidências contemporâneas apontam para o eixo microbiota-intestino-cérebro (MGB) como um componente crítico na etiologia da doença. O eixo MGB consiste em uma rede de comunicação bidirecional que integra os sistemas nervoso central, autonômico e entérico, permitindo que sinais provenientes da microbiota intestinal influenciem diretamente a função cerebral e o comportamento.

A patogênese da DA está intimamente ligada ao acúmulo de placas de beta-amiloide (Aβ) e emaranhados neurofibrilares de proteína tau. Curiosamente, estudos indicam que sementes de amiloide podem ter origem no trato gastrointestinal. Em modelos experimentais, a injeção de oligômeros de $A\beta_{1-42}$ na parede gástrica de camundongos resultou na migração dessas proteínas para o cérebro ao longo de um ano, sugerindo que a patologia pode se iniciar perifericamente e progredir para o sistema nervoso central através de vias neurais. Além disso, diversas cepas bacterianas entéricas, como Escherichia coli e Salmonella enterica, possuem a capacidade de produzir fibras amiloides extracelulares funcionais que, embora estruturalmente distintas das humanas, podem desencadear respostas imunes e promover a agregação proteica endógena no hospedeiro por meio de um processo de sementeira cruzada.

A disbiose intestinal — a alteração na composição da microbiota — desempenha um papel fundamental no aumento da permeabilidade da barreira intestinal e na ativação de células imunes. Este estado inflamatório sistêmico promove o comprometimento da barreira hematoencefálica, permitindo a translocação de subprodutos bacterianos, como lipopolissacarídeos (LPS), para o parênquima cerebral. O LPS é um potente ativador de receptores do tipo Toll (TLRs) em células da microglia, as quais, uma vez ativadas, desencadeiam uma cascata neuroinflamatória crônica. Esta neuroinflamação, mediada por citocinas pró-inflamatórias como o TNF-α e a IL-6, é apontada como a principal responsável pela perda neuronal e lesão neural observadas na DA.

Adicionalmente, a microbiota intestinal é um centro metabólico capaz de sintetizar diversos neurotransmissores e neuromoduladores, incluindo GABA, serotonina e dopamina, que modulam a sinalização através do nervo vago e influenciam a cognição. Pacientes com Alzheimer frequentemente apresentam uma redução na diversidade microbiana, com níveis diminuídos de bactérias produtoras de butirato, como as das famílias Fusobacteriaceae e Firmicutes. O butirato possui propriedades anti-inflamatórias, e sua escassez correlaciona-se com o aumento da inflamação cerebral e a progressão do déficit cognitivo.

Diante deste cenário, a modulação da microbiota intestinal surge como uma via terapêutica promissora. O uso de probióticos — microrganismos vivos que conferem benefícios ao hospedeiro — tem demonstrado potencial para restaurar o equilíbrio microbiano e atenuar processos inflamatórios. Estudos clínicos revelaram que a suplementação com cepas de Lactobacillus e Bifidobacterium pode melhorar significativamente o status metabólico e a função cognitiva em pacientes com DA, oferecendo uma nova perspectiva para intervenções preventivas e tratamentos adjuvantes que visam interromper o ciclo de neuroinflamação e degeneração neuronal.

Referência (ABNT):

MEGUR, Ashwinipriyadarshini et al. The Microbiota-Gut-Brain Axis and Alzheimer’s Disease: Neuroinflammation Is to Blame?. Nutrients, [s. l.], v. 13, n. 1, p. 1-24, 24 dez. 2020. Disponível em: https://dx.doi.org/10.3390/nu13010037. Acesso em: 9 mai. 2026.

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