A depressão na adolescência configura-se como uma patologia de elevada prevalência, afetando aproximadamente 4% a 5% dos indivíduos no período da média a tardia adolescência. Esta condição não representa apenas um sofrimento psíquico isolado, mas um fator de risco substancial para o suicídio e prejuízos funcionais, sociais e educacionais persistentes. Dada a sua natureza recorrente e o impacto no desenvolvimento, a identificação precoce em contextos de cuidados de saúde primários é imperativa. Thapar et al. (2022) ressaltam que a depressão em jovens é uma das principais causas de carga de doença global, exigindo estratégias de rastreio eficazes para mitigar consequências de longo prazo. (Referência: Thapar A, Eyre O, Patel V, Brent D. Depression in young people. Lancet. 2022;400(10352):617-631. doi:10.1016/S0140-6736(22)01012-1)
A etiopatogenia da depressão nesta fase é reconhecidamente multifatorial, envolvendo uma interdependência complexa entre predisposição genética e exposição ambiental. No âmbito biológico, destaca-se a maturação de circuitos neurais, como o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) e o sistema de recompensa estriatal, que apresentam variações significativas durante a puberdade. Fatores de risco modificáveis, como o consumo de substâncias (álcool e cannabis), dieta e obesidade, exacerbam a vulnerabilidade do adolescente através de efeitos neurotóxicos e alterações na sinalização de neurotransmissores como a serotonina. Beirão et al. (2020) enfatizam que essa vulnerabilidade neurobiológica, quando somada a adversidades psicossociais, precipita o início de episódios depressivos graves. (Referência: Beirao D, Monte H, Amaral M, Longras A, Matos C, Villas-Boas F. Depression in adolescence: a review. Middle East Curr Psychiatry. 2020;27(50). doi:10.1186/s43045-020-00050-z)
O diagnóstico, embora guiado pelos critérios do DSM-5, é dificultado pela apresentação clínica heterogênea. Diferentemente dos adultos, adolescentes frequentemente manifestam irritabilidade, queixas somáticas e comportamentos disruptivos em vez da clássica tristeza profunda. Para mitigar o subdiagnóstico, entidades como a American Academy of Pediatrics (AAP) recomendam o rastreio anual através de instrumentos validados, como o Patient Health Questionnaire for Adolescents (PHQ-A) e o Beck Depression Inventory (BDI). É crucial, ainda, a realização de diagnósticos diferenciais rigorosos para excluir transtornos de ajustamento, distimia e o início de transtorno bipolar. Mullen (2018) observa que a variação de sintomas em relação aos critérios adultos contribui para que a doença seja frequentemente não reconhecida. (Referência: Mullen S. Major depressive disorder in children and adolescents. Ment Health Clin. 2018;8(6):275-283. doi:10.9740/mhc.2018.11.275)
Quanto ao manejo terapêutico, a abordagem deve ser estratificada conforme a gravidade. Em casos leves, a psicoterapia — preferencialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) ou a Terapia Interpessoal (TIP) — é recomendada como primeira linha. Para quadros moderados a graves, a combinação de psicoterapia e farmacoterapia apresenta resultados superiores. Atualmente, a fluoxetina e o escitalopram são os únicos fármacos aprovados pela FDA para esta faixa etária, sendo a fluoxetina amplamente considerada o padrão-ouro devido ao seu perfil de eficácia e segurança. É fundamental que a continuidade do tratamento seja mantida por 6 a 12 meses após a remissão para evitar recaídas, conforme preconizado nas diretrizes clínicas de Beirão et al. (2020). (Referência: Beirao D, Monte H, Amaral M, Longras A, Matos C, Villas-Boas F. Depression in adolescence: a review. Middle East Curr Psychiatry. 2020;27(50). doi:10.1186/s43045-020-00050-z)
Em suma, a depressão na adolescência exige uma resposta coordenada que priorize a prevenção e a psicoeducação familiar. A implementação de programas de prevenção indicados e seletivos tem demonstrado eficácia na redução da sintomatologia e da ideação suicida, sublinhando que a intervenção precoce é a estratégia mais custo-efetiva para garantir a saúde mental das futuras gerações. Thapar et al. (2022) concluem que o suporte contínuo e a redução do estigma social são pilares essenciais para melhorar o prognóstico desses jovens. (Referência: Thapar A, Eyre O, Patel V, Brent D. Depression in young people. Lancet. 2022;400(10352):617-631. doi:10.1016/S0140-6736(22)01012-1)
Referência (ABNT):
BEIRÃO, Diogo et al. Depression in adolescence: a review. Middle East Current Psychiatry, [s. l.], v. 27, n. 50, p. 1-9, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s43045-020-00050-z. Acesso em: 02 maio 2026.