O envelhecimento populacional de pessoas no espectro do autismo representa uma temática emergente que demanda investigação detalhada no âmbito da saúde pública e dos sistemas de assistência médica. Historicamente, a literatura científica concentrou-se predominantemente em coortes infantis e de adultos jovens, resultando em um déficit substancial de dados epidemiológicos focados na senescência autista. Com o intuito de caracterizar o perfil epidemiológico dessa população, Hand e colaboradores realizaram um estudo de coorte retrospectivo transversal baseado nos dados de reivindicações de saúde do programa Medicare dos Estados Unidos (anos de 2016 e 2017), abrangendo uma amostra nacional de 4.685 idosos autistas com idade igual ou superior a 65 anos e um grupo de comparação populacional pareado de 46.850 indivíduos não autistas na razão de 1:10. Os achados demonstraram que idosos autistas apresentam uma chance significativamente maior de desenvolver a vasta maioria das condições de saúde física e mental investigadas, quando comparados ao grupo de controle, após o ajuste para variáveis de sexo, idade, raça/etnia, residência rural e renda familiar estimada.
No âmbito do acometimento neurológico e gastroenterológico, os dados do estudo apontam discrepâncias acentuadas. A epilepsia apresentou uma razão de chances (odds ratio — OR) de 18,9 (IC 95%: 17,2–20,7) nos idosos autistas. O diagnóstico de doença de Parkinson também se mostrou substancialmente mais frequente na coorte autista (OR = 6,1; IC 95%: 5,3–7,0), assim como as condições gastrointestinais não específicas, como gastroenterite e constipação (OR = 5,2; IC 95%: 4,9–5,5). Adicionalmente, transtornos metabólicos e circulatórios revelaram prevalências elevadas: a hipertensão arterial esteve presente em 66,5% dos idosos autistas em comparação a 51,2% do grupo controle (OR = 2,0; IC 95%: 1,9–2,2), as doenças cardíacas em 54,2% contra 37,1% (OR = 2,1; IC 95%: 2,0–2,3), o diabetes mellitus em 36,6% contra 27,4% (OR = 1,6; IC 95%: 1,5–1,7) e os transtornos de tireoide em 31,7% contra 13,8% (OR = 3,1; IC 95%: 2,9–3,3). Transtornos tipicamente associados ao envelhecimento na população geral, tais como osteoporose (OR = 4,4; IC 95%: 4,0–4,8), acidentes vasculares encefálicos/doenças cerebrovasculares (OR = 1,6; IC 95%: 1,4–1,7), neoplasias (OR = 1,2; IC 95%: 1,2–1,3) e fraturas resultantes de traumas (OR = 3,2; IC 95%: 2,9–3,5), manifestaram-se com razões de chances estatisticamente superiores no grupo autista.
No tocante às comorbidades psiquiátricas e comportamentais, as diferenças observadas entre idosos autistas e a população de comparação pareada foram expressivas. A esquizofrenia e outros transtornos psicóticos apresentaram uma chance 25,3 vezes maior de diagnóstico entre os idosos no espectro (OR = 25,3; IC 95%: 22,4–28,7). O transtorno do déficit de atenção e hiperatividade registrou OR de 22,4 (IC 95%: 16,2–31,0), enquanto os transtornos de personalidade atingiram OR de 24,1 (IC 95%: 17,8–32,5). Notavelmente, o registro de eventos de ideação/comportamento suicida ou lesão autoinfligida intencional apresentou uma elevação de onze vezes em relação ao grupo de controle (OR = 11,1; IC 95%: 8,9–13,8). Além disso, diagnósticos categorizados como transtornos cognitivos (incluindo demência, delirium e amnésia) foram identificados em 25,2% dos idosos autistas, contra 4,9% na coorte de comparação (OR = 8,4; IC 95%: 7,7–9,1). Cabe destacar que 43,8% dos beneficiários autistas analisados apresentavam diagnóstico de deficiência intelectual concomitante, comparados a apenas 0,2% no grupo populacional pareado.
A interpretação contextualizada destes dados exige a consideração de fatores históricos e metodológicos inerentes à coorte avaliada. Todos os indivíduos do grupo autista analisados nas bases do Medicare (2016–2017) nasceram antes do ano de 1950. Esse recorte temporal implica que tais sujeitos vivenciaram o seu desenvolvimento em um período anterior à caracterização formal do autismo nos manuais diagnósticos (como o DSM-III em 1980) e antes da formulação de intervenções baseadas em evidências e leis de garantia de direitos à pessoa com deficiência. Consequentemente, muitos desses idosos provavelmente foram diagnosticados tardiamente na vida adulta e não tiveram acesso precocemente a suportes terapêuticos e educacionais padronizados, o que pode ter influenciado o curso do seu desenvolvimento e a emergência de comorbidades ao longo da vida. Além disso, a análise utilizou dados de cobrança médica provenientes de prestadores de serviços institucionais (ambulatoriais e hospitalares), excluindo registros de profissionais autônomos/não institucionais. Diante da complexidade das necessidades clínicas identificadas, o estudo ressalta a urgência no planejamento de abordagens médicas personalizadas e centralizadas na pessoa, capazes de suprir as demandas específicas de saúde física e mental dessa população em envelhecimento.
Referência (Formato ABNT)
HAND, Brittany N.; ANGELL, Amber M.; HARRIS, Lauren; CARPENTER, Laura Arnstein. Prevalence of physical and mental health conditions in Medicare-enrolled, autistic older adults. Autism, London, v. 24, n. 3, p. 755-764, Apr. 2020. DOI: 10.1177/1362361319890793.