Desafios e Perspectivas das Intervenções para a Saúde Mental e Bem-Estar de Estudantes Neurodivergentes no Ensino Superior

O aumento da presença de estudantes neurodivergentes — termo que engloba indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), dislexia, entre outras condições — no ensino superior é uma realidade global. Contudo, essa democratização do acesso não tem sido acompanhada por sistemas de suporte adequados. Conforme a revisão sistemática de Ross, Dommett e Byrom (2026), a maioria das instituições de ensino superior (IES) ainda foca primordialmente em ajustes acadêmicos funcionais, como tempo adicional em avaliações, negligenciando as necessidades críticas de saúde mental e bem-estar psicossocial desse grupo, que apresenta maior vulnerabilidade a transtornos como ansiedade e depressão.

A análise de 37 estudos conduzidos em sete países revela uma heterogeneidade significativa nas abordagens de intervenção. Entre as modalidades exploradas, destacam-se o coaching, a terapia cognitivo-comportamental (TCC), o suporte de pares (peer support), o mentoring e práticas de mindfulness. O estudo aponta que intervenções de coaching e TCC demonstram eficácia na melhoria das funções executivas e na redução de sintomas de ansiedade, permitindo que o estudante desenvolva estratégias de autorregulação essenciais para o ambiente universitário. No entanto, nota-se uma lacuna crítica: a predominância de modelos baseados no déficit, que visam “corrigir” comportamentos para adequá-los ao padrão neurotípico, em detrimento de abordagens baseadas em forças (strength-based approaches), que valorizam as competências únicas dos indivíduos neurodivergentes.

A eficácia das intervenções é frequentemente mediada pelo senso de pertencimento e pela redução do isolamento social. O suporte de pares e o mentoria surgem como ferramentas valiosas para mitigar o sentimento de exclusão, promovendo uma rede de apoio que compreende as especificidades da experiência neurodivergente. Entretanto, Ross, Dommett e Byrom (2026) ressaltam que muitas dessas intervenções sofrem com a falta de rigor metodológico e amostras pequenas, o que limita a generalização dos resultados. Além disso, a barreira do diagnóstico formal ainda é um entrave, já que muitos estudantes não possuem documentação oficial, impedindo o acesso a suportes especializados que poderiam prevenir o esgotamento (burnout) acadêmico.

Para que o ensino superior seja verdadeiramente inclusivo, é imperativo que as IES transcendam as adaptações curriculares básicas. É necessário implementar programas de saúde mental que integrem o suporte acadêmico ao psicossocial, adotando uma visão holística do estudante. A transição para modelos que priorizem o bem-estar e utilizem as potencialidades dos alunos, em vez de focar apenas em suas limitações, é fundamental para garantir não apenas a retenção acadêmica, mas o desenvolvimento pleno desses indivíduos. A pesquisa futura deve focar na sustentabilidade dessas intervenções e na inclusão de vozes neurodivergentes no design dos próprios programas de apoio.

Referência (ABNT):

ROSS, Faith; DOMMETT, Eleanor J.; BYROM, Nicola. A systematic review of higher education-based interventions to support the mental health and wellbeing of neurodivergent students. npj Mental Health Research, [s. l.], v. 5, n. 14, p. 1-13, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s44184-026-00196-4. Acesso em: 9 mai. 2026.

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