O ordenamento econômico global, que durante décadas foi governado pelos preceitos do livre comércio institucionalizados pelo Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) e, posteriormente, pela Organização Mundial do Comércio (OMC), enfrenta um período de profunda reconfiguração estrutural. O paradigma neoliberal clássico, fundamentado na hiperglobalização, na dispersão geográfica irrestrita das forças produtivas e na busca incessante pela eficiência de custos através de cadeias globais de suprimentos estendidas, tem demonstrado sinais inequívocos de exaustão. Em seu lugar, emerge um cenário geoeconômico fragmentado, no qual a racionalidade estritamente mercadológica é progressivamente subordinada a imperativos de segurança nacional, autonomia tecnológica e estabilidade estratégica, culminando no ressurgimento de práticas proteccionistas sofisticadas e multidimensionais.
Diferenciando-se das barreiras tarifárias e aduaneiras rudimentares que caracterizaram as disputas comerciais do século XX, o chamado “novo proteccionismo” opera por meio de mecanismos estratégicos híbridos que entrelaçam políticas industriais domésticas e salvaguardas geopolíticas. Eventos disruptivos recentes de magnitude global — tais como as tensões comerciais crônicas entre os Estados Unidos e a República Popular da China, os gargalos logísticos sistêmicos evidenciados durante a crise sanitária internacional e os conflitos geopolíticos no Leste Europeu — expuseram a extrema vulnerabilidade das redes de suprimentos globais do tipo just-in-time. Como resposta, as principais potências econômicas mundiais passaram a adotar diretrizes de ecoproteccionismo e regulações técnicas rigorosas, utilizando o argumento da resiliência interna para subsidiar setores industriais nativos e restringir o fluxo transfronteiriço de tecnologias sensíveis, especialmente no segmento de semicondutores e energias renováveis.
Essa transição paradigmática impõe uma alteração profunda na geografia da produção global, materializada através de movimentos de relocalização industrial conhecidos como nearshoring e reshoring. O redesenho das cadeias globais de valor prioriza agora a proximidade geográfica ou o alinhamento ideológico e político entre as nações parceiras (friendshoring), com o objetivo explícito de mitigar riscos de interrupção logística e coerção econômica em períodos de crise. Blocos e nações de relevância sistêmica, como a União Europeia, os Estados Unidos e a Índia, redesenham suas políticas externas para fortalecer pólos regionais de manufatura e garantir o controle de insumos críticos. Esse processo de fragmentação e regionalização do comércio internacional sinaliza que, embora a interconexão global não caminhe para uma extinção absoluta, o modelo de integração econômica globalizada e linear cede espaço a um sistema multipolar, onde as fronteiras políticas voltam a delimitar as margens de expansão do capital.
Referência (Formato ABNT):
HERNÁNDEZ LEAL, Angélica. ¿El fin de la globalización comercial?. Open Minds International Journal, v. 1, n. 1, art. 5, p. 1-14, ago. 2025. ISSN 2675-5157. DOI: https://doi.org/10.22533/at.ed.5157125230075.