Uma alimentação nutricionalmente adequada não garante, por si só, que vitaminas, proteínas, gorduras e outros nutrientes sejam efetivamente aproveitados pelo organismo. Para isso, os alimentos precisam primeiro ser digeridos em moléculas capazes de atravessar a parede intestinal. Nesse processo, o pâncreas exerce uma função central.
Além da conhecida participação no controlo da glicose por meio da produção de insulina, o pâncreas possui uma extensa função exócrina. Essa parte do órgão produz enzimas digestivas, como lipase, amilase e proteases, posteriormente libertadas no intestino delgado. A lipase participa principalmente da digestão das gorduras, a amilase atua sobre os hidratos de carbono e as proteases degradam proteínas.
Quando a quantidade dessas enzimas se torna insuficiente, pode ocorrer a chamada insuficiência pancreática exócrina, IPE. Nesse quadro, o problema deixa de ser apenas aquilo que a pessoa ingere. Parte dos nutrientes presentes nos alimentos pode não ser adequadamente digerida e, consequentemente, absorvida.
Sintomas podem parecer apenas intestinais
A IPE pode manifestar-se por distensão abdominal, desconforto, diarreia, fezes oleosas ou gordurosas, perda de peso involuntária, deficiências nutricionais e perda de massa muscular. A digestão inadequada das gorduras também pode prejudicar o aproveitamento das vitaminas lipossolúveis A, D, E e K. Alterações de vitamina B12 e de outros micronutrientes também podem estar presentes.
Isso ajuda a explicar por que determinados sintomas gastrointestinais persistentes merecem investigação quando aparecem repetidamente. Inchaço, alterações das fezes ou intolerância aparente a refeições mais gordurosas possuem numerosas causas possíveis e não significam automaticamente doença pancreática. A função exócrina do pâncreas, porém, faz parte do diagnóstico diferencial.
Entre as condições capazes de provocar IPE estão doenças pancreáticas, fibrose cística e diabetes. A função pancreática exócrina também pode diminuir com o envelhecimento. O material analisado cita estudos com resultados variáveis, mas aponta estimativas de IPE em aproximadamente 15% das pessoas com mais de 70 anos e 30% entre aquelas com mais de 80 anos.
Pancreatite também pode interferir na produção de enzimas
A pancreatite representa outro mecanismo importante. Em determinadas circunstâncias, enzimas digestivas podem ser ativadas prematuramente dentro do próprio pâncreas, contribuindo para lesão celular e inflamação. A pancreatite pode apresentar-se de forma aguda ou desenvolver um curso crónico, e episódios da doença podem comprometer temporária ou persistentemente a função exócrina.
A consequência é biologicamente relevante. Se a digestão permanece prejudicada por tempo suficiente, o problema pode ultrapassar o sistema gastrointestinal. A má absorção crónica pode contribuir para perda de peso, défices de micronutrientes, redução da massa muscular e comprometimento da saúde óssea.
Isso não significa que qualquer pessoa com gases ou fezes amolecidas apresente insuficiência pancreática. Esses sintomas também aparecem em intolerâncias alimentares, doença celíaca, alterações da microbiota, doenças inflamatórias intestinais, perturbações funcionais gastrointestinais e diversas outras condições.
Diagnóstico deve anteceder suplementação
Quando existe suspeita clínica, a investigação médica é necessária para determinar se realmente há deficiência da função pancreática. Um dos exames utilizados é a elastase pancreática fecal, marcador indireto da secreção exócrina pancreática.
Nos casos confirmados de IPE, a terapia de reposição de enzimas pancreáticas pode ser utilizada durante as refeições e lanches para melhorar a digestão. O tratamento e a dose dependem da situação clínica e devem ser orientados por profissional habilitado.
Suplementos digestivos vendidos livremente não devem ser confundidos com a terapia enzimática prescrita para insuficiência pancreática diagnosticada. Utilizá-los indiscriminadamente também pode mascarar sintomas que necessitam de investigação.
A questão central é simples: não basta observar o que entra no organismo. É preciso considerar o que efetivamente consegue ser digerido e absorvido. Quando sintomas digestivos se tornam persistentes, especialmente quando acompanhados de perda de peso, fezes gordurosas ou deficiências nutricionais, investigar a capacidade digestiva do pâncreas pode revelar uma parte importante do problema.