Estudo na revista Nature revela 362 sítios arqueológicos mapeados por equipe em Portugal

📷 Unsplash / Trnava University

As teorias tradicionais sobre as primeiras migrações humanas costumam apostar em uma premissa simples: grupos antigos caminhavam sempre em direção aos recursos hídricos mais acessíveis. No entanto, essa lógica padrão tropeça em um enigma intrigante na imensidão da antiga Arábia. A região exibe marcas geológicas claras de que chuvas de monções preenchiam bacias e mantinham extensas pastagens no coração dos desertos de areia. Ainda assim, vestígios de ocupação humana antiga teimam em aparecer concentrados quase exclusivamente nas bordas do deserto, longe do interior árido.

Para investigar os motivos dessa distribuição peculiar, o pesquisador Jeffrey I. Rose, vinculado à Universidade do Algarve, em Portugal, liderou uma expedição com colegas para examinar o terreno de perto — uma abordagem prática que evitou a dependência exclusiva de simulações computacionais. A equipe percorreu cerca de 1.500 quilômetros cruzando o território desértico.

Ao longo do trajeto, os cientistas inspecionaram minuciosamente 125 pontos situados entre as dunas de areia. Em cada um desses locais, o grupo vasculhou a superfície exposta em busca de ferramentas de pedra e quaisquer outros indícios de presença humana, além de mapear depósitos antigos de lagos e catalogar as rochas da região.

Concluída a etapa de campo, os pesquisadores combinaram mapas geológicos e reconstruções das redes hidrográficas para montar um modelo espacial abrangente da península arábica. O passo seguinte consistiu em confrontar esse modelo com 362 sítios arqueológicos já conhecidos no território, com o objetivo de verificar se a disponibilidade de água bastava para atrair populações ou se a fabricação de artefatos exigia outro elemento crucial.

O trabalho detalhado foi divulgado nas páginas da revista Nature. O arqueólogo Emanuele Cancellieri, também da Universidade do Algarve, analisou o impacto do estudo em um artigo de acompanhamento publicado na mesma edição.

Mesmo após a varredura minuciosa em campo, a equipe não encontrou absolutamente nenhum sinal de ocupação humana antiga no interior do deserto. Em contrapartida, a investigação confirmou a existência de antigos lagos em 55 pontos, além de registrar fósseis de conchas e fragmentos de ovos de avestruz. A preservação desses elementos delicados indicava que, se houvesse ferramentas de pedra abandonadas no local, elas dificilmente teriam passado despercebidas.

O modelo espacial construído pelos pesquisadores apontou um cenário coerente com essa ausência. Em 57% da área considerada acessível à água, a geologia do solo carecia de rochas adequadas para a confecção de ferramentas líticas.

Os autores argumentam que as estimativas anteriores podem ter inflado a capacidade de suporte da antiga Arábia para assentamentos prolongados. Conforme apontado no estudo, modelos de dispersão que ignoram a geologia de matérias-primas tendem a superestimar o espaço habitável para populações que dependiam de instrumentos de pedra.

Com base nesses dados, a equipe concluiu que a presença de água na paisagem desértica não bastava para ditar os locais de fixação humana. A sobrevivência e a permanência de grupos antigos dependiam tanto das pedras expósta na superfície quanto da água que preenchia as bacias.

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