A astronomia acaba de encontrar um berçário cósmico em plena atividade. Localizado a cerca de 450 anos-luz de distância da Terra, o exoplaneta batizado como Elias 2-24 b foi identificado como o mundo alienígena mais jovem já registrado pela ciência. Com uma idade estimada em menos de 1 milhão de anos, o corpo celeste ainda está em processo de formação, acumulando freneticamente matéria do disco protoplanetário que o cerca — um estágio de evolução planetária que, até hoje, permanecia praticamente invisível aos nossos instrumentos.
Para se ter uma ideia da escala temporal, o Elias 2-24 b é cerca de 5 mil vezes mais novo que a Terra. Se comparássemos a idade deste “bebê” cósmico com a expectativa de vida de um ser humano, ele teria apenas dois ou três dias de nascido. O gigante, que possui uma massa entre duas e quatro vezes maior que a de Júpiter, orbita sua estrela-mãe a uma distância quase dupla da que separa Netuno do nosso Sol.
A primeira pista de sua existência surgiu ainda em 2017. Na ocasião, astrônomos detectaram uma lacuna curiosa no disco protoplanetário da estrela, uma espécie de anel turbilhonante de poeira e gás que sobra da gênese estelar. O espaço vazio era um sinal revelador: ali, matéria suficiente havia colapsado pela gravidade para formar algo substancial. Contudo, na época, a tecnologia disponível não permitia uma visualização direta do objeto que causava aquela perturbação.
O cenário mudou com a publicação de um novo estudo no periódico The Astrophysical Journal Letters, em 16 de setembro. Uma equipe internacional combinou dados de três das mais potentes instalações astronômicas do planeta — o Observatório W. M. Keck, no Havaí, e os telescópios Atacama Large Millimeter/submillimeter Array e Very Large Telescope, ambos no Chile. O esforço conjunto não apenas confirmou a existência de Elias 2-24 b, mas permitiu calcular sua tenra idade com precisão inédita.
Andrea Bernardi, estudante de doutorado no Instituto de Estudos Astrofísicos da Universidade Diego Portales, no Chile, e autor principal da pesquisa, destacou o ineditismo da observação. Para ele, a oportunidade de acompanhar um planeta que ainda está absorvendo matéria do ambiente permite vislumbrar processos de formação que, até agora, eram apenas teóricos ou baseados em simulações.
Até pouco tempo atrás, encontrar planetas tão jovens era quase impossível. O limite de idade para detecção girava em torno de 5 milhões de anos. Esse hiato ocorria porque os telescópios não tinham sensibilidade para identificar mundos antes que eles “limpassem” grandes lacunas nos discos onde nasceram. Avanços técnicos recentes permitiram baixar essa barreira, com descobertas como o TIDYE-1b, de 3 milhões de anos, e o AB Aurigae b, de aproximadamente 2 milhões. O Elias 2-24 b, no entanto, é, no mínimo, duas vezes mais novo que qualquer outro exemplar conhecido, abrindo uma nova fronteira para o conhecimento.
A descoberta traz, inevitavelmente, uma ponta de incerteza para os cientistas. Modelos atuais de formação planetária já enfrentavam dificuldades para explicar como mundos tão jovens chegavam a tal estágio de maturação. Com a existência confirmada do Elias 2-24 b, torna-se evidente que os cálculos científicos ainda ignoram variáveis fundamentais. Como explicou Lucas Cieza, astrônomo do IEA que liderou a investigação original de 2017, a existência desse planeta mostra que o conhecimento humano sobre o nascimento de mundos ainda carece de peças importantes no quebra-cabeça.
O desafio de caçar esses bebês cósmicos reside na própria natureza da observação espacial. A maior parte dos mais de 6 mil exoplanetas catalogados foi encontrada pelo método de trânsito — quando o planeta cruza a linha de visão entre sua estrela e a Terra, causando uma leve queda no brilho estelar. Contudo, essa técnica é ineficaz para planetas imersos em discos protoplanetários, onde a nebulosidade de poeira obscurece a luz estelar de forma permanente. Para detectá-los, é necessário que o disco esteja alinhado perpendicularmente à Terra, permitindo uma visão “de cima para baixo”, algo que ocorre raramente e é ofuscado pelo brilho intenso da estrela central.
O futuro próximo, porém, promete mudar esse panorama. Com a entrada em operação plena do Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, lançado em agosto, a astronomia ganha um aliado com um coronógrafo de última geração. Esse dispositivo consegue bloquear a luz das estrelas, revelando o que está escondido ao seu redor. A expectativa é que o Roman possa identificar até 100 mil novos exoplanetas, reduzindo a tendência de favorecer apenas mundos mais velhos e, finalmente, permitindo que a humanidade consiga um retrato mais completo de como sistemas solares inteiros dão seus primeiros passos na vastidão do espaço.