Cérebro dos cães revela padrões de autocontrole similares aos dos humanos

Sentar, ficar, rolar ou vir. O repertório básico de comandos utilizados por tutores para educar cães vai muito além do simples adestramento comportamental. Quando um animal interrompe uma ação ao ouvir um comando como “não”, o que ocorre dentro de seu crânio pode ser muito mais complexo do que uma mera obediência. Uma pesquisa recente, publicada na revista científica Animal Cognition, sugere que o cérebro canino manifesta padrões de atividade que lembram, de forma impressionante, o autocontrole exercido por seres humanos.

A capacidade de suspender uma atitude impulsiva pode ser, em muitos contextos, a linha tênue entre a sobrevivência e o desastre. Seja um coelho que imobiliza o corpo ao detectar um predador por perto ou uma pessoa lutando contra o vício do tabaco ou do álcool, o mecanismo de dizer “não” para si mesmo atua como um mecanismo crítico de proteção. No entanto, as engrenagens biológicas por trás dessas reações variam drasticamente. Enquanto o travamento do coelho diante do perigo é uma resposta instintiva, enraizada nas camadas mais profundas e primordiais do cérebro, o exercício de força de vontade humana demanda um esforço consciente.

Essa habilidade humana depende diretamente dos lobos frontais, a região mais recente do sistema nervoso, que surgiu nos mamíferos há cerca de 310 milhões de anos. Quando os neurologistas monitoram a atividade neural nessa área, o aumento das ondas teta frontais surge como o sinal clássico de que o autocontrole está em ação. Investigar esse fenômeno em cães, que compartilham o mesmo ambiente físico e social que nós — embora em um ritmo de envelhecimento muito mais acelerado —, oferece uma janela de observação valiosa para a ciência.

Márta Gácsii, etóloga da Universidade Eötvös Loránd, na Hungria, aponta que o desenvolvimento acelerado dos cães permite que fatores cognitivos e patologias sejam analisados com maior eficiência do que em populações humanas. Para verificar o que ocorre quando um cachorro precisa se conter, a equipe de Gácsii utilizou a eletroencefalografia (EEG) não invasiva. O experimento reuniu 226 registros de EEG, cada um com duração de 30 segundos, obtidos de 14 cães enquanto eles estavam em repouso ou respondendo a comandos específicos.

Os pesquisadores buscavam justamente as tais ondas teta, as mesmas que marcam o esforço mental humano. O resultado foi revelador. De acordo com Ivaylo Borislavov Iotchev, coautor do estudo, durante as situações que exigiam autocontrole, os animais apresentaram uma atividade eletroencefalográfica que espelha o padrão humano, tanto em termos de frequência quanto de localização geográfica no cérebro.

Essa descoberta abre portas importantes para o entendimento de distúrbios que afetam humanos, como o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e questões relacionadas ao controle de peso. Anna Kis, etóloga da Academia Húngara de Ciências, explica que o mau funcionamento dos lobos frontais está ligado tanto ao TDAH quanto ao ganho de peso anormal em pessoas. A possibilidade de medir os reflexos de EEG desse envolvimento frontal em cães permitirá que a ciência verifique a proximidade dessas condições entre as espécies, fornecendo, por fim, modelos mais precisos para prever tratamentos e terapias para os seres humanos.

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