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Bebês que apreciam o gosto azedo podem ter QI mais alto

Neste artigo de opinião, discuto a validade e as implicações desses achados, avaliando a robustez dos dados empíricos e sugerindo direções futuras para pesquisa.

por Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues

A literatura científica contemporânea tem investigado, embora de maneira não conclusiva, a possível correlação entre a predileção por sabores azedos e indicadores de quociente de inteligência (QI) elevados, tanto em crianças quanto em adultos. Neste artigo de opinião, discuto a validade e as implicações desses achados, avaliando a robustez dos dados empíricos e sugerindo direções futuras para pesquisa.

Primeiramente, é pertinente considerar a pesquisa conduzida por Liem e Mennella (2002), que investigou a relação entre a alimentação infantil com fórmulas que apresentam sabores distintivamente azedos e a posterior predileção por alimentos com alto teor de ácido cítrico. Este estudo é crucial, pois oferece uma perspectiva longitudinal sobre as preferências gustativas que se desenvolvem desde a primeira infância (Liem, D. & Mennella, J., 2002, “Sweet and sour preferences in young children and adults: role of repeated exposure”, Developmental psychobiology, vol. 41, n. 4, p. 388-395).

Ademais, os trabalhos de Liem et al. (2004) e Liem e Mennella (2003) fornecem uma base empírica que sugere uma predisposição das crianças por sabores intensamente azedos, que poderia estar associada a um perfil comportamental caracterizado pela abertura a novas experiências e uma certa predileção por estímulos sensoriais intensos. Estes estudos encontraram que uma fração significativa das crianças demonstrava preferência por gelatinas com altas concentrações de ácido cítrico, um comportamento que parece estar vinculado não apenas às propriedades organolépticas da saliva, mas também a um maior fluxo salivar (Liem, D. et al., 2004, “Sour taste preferences of children relate to preference for novel and intense stimuli”, Chemical Senses, vol. 29, n. 8, p. 713-720).

Embora esses estudos apontem para uma intrigante associação entre preferências gustativas e capacidades cognitivas, é fundamental abordar com cautela a interpretação de tais correlações como evidências de causalidade. O estudo realizado em 2011 e publicado na revista Appetite, que sugere uma tendência das crianças com maiores QIs a preferirem sabores azedos, e o estudo de 2015 na revista Intelligence, que encontrou uma associação entre a preferência por sabores azedos e um desempenho superior em testes de inteligência fluida, adicionam complexidade ao debate (Appetite, 2011; Intelligence, 2015).

É imperativo que investigações futuras empreguem metodologias robustas, preferencialmente longitudinais e com grupos de controle adequados, para explorar a fundo as dinâmicas biopsicossociais que podem estar subjacentes a estas observações. O desenvolvimento de modelos experimentais que possam isolar variáveis genéticas e ambientais influentes é essencial para avançar na compreensão das interações entre a neurofisiologia das preferências gustativas e a cognição.

Em suma, enquanto a hipótese de que uma preferência por sabores azedos durante a infância possa ser um indicador de maior QI oferece um fascinante vislumbre sobre a complexidade das bases biológicas do comportamento e da inteligência, é crucial prosseguir com investigações rigorosas e criteriosas antes de estabelecer conclusões definitivas. Estudos futuros deverão elucidar se tais preferências são meramente epifenômenos de configurações neurológicas específicas ou se representam fenótipos comportamentais com implicações profundas para o desenvolvimento cognitivo e educacional.

Referências:

  1. Liem, D. G. & Mennella, J. A. (2002). Sweet and sour preferences in young children and adults: role of repeated exposure. Developmental psychobiology, 41(4), 388-395.
  2. Liem, D. G., Westerbeek, A., Wolterink, S., Kok, F. J., & Graaf, C. D. (2004). Sour taste preferences of children relate to preference for novel and intense stimuli. Chemical Senses, 29(8), 713-720.
  3. Liem, D. G. & Mennella, J. A. (2003). Heightened sour preferences during childhood. Chemical Senses, 28(2), 173-180.

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