Início ColunaNeurociências A relação complexa entre memória, neuroplasticidade e inteligência: Uma perspectiva científica

A relação complexa entre memória, neuroplasticidade e inteligência: Uma perspectiva científica

Longe de ser simplesmente um déficit, essa característica pode ter um papel crucial na promoção da neuroplasticidade e na prevenção de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.

por Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues

A habilidade de não reter memórias dos dias anteriores pode ser interpretada como um fenômeno complexo e multifacetado no âmbito do processamento cerebral da memória. Longe de ser simplesmente um déficit, essa característica pode ter um papel crucial na promoção da neuroplasticidade e na prevenção de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.

A memória e seu processamento pelo cérebro constituem aspectos fundamentais para o entendimento da neuroplasticidade e da saúde cognitiva. Avanços recentes na pesquisa científica revelam que a capacidade de lembrar ou esquecer experiências está intrinsecamente ligada à relevância e ao impacto emocional desses eventos. Isso sugere que o cérebro prioriza a retenção de memórias consideradas importantes, enquanto aquelas de menor relevância podem ser esquecidas, um mecanismo que otimiza o armazenamento de memória.

Além disso, a capacidade de armazenamento e recuperação de memórias varia significativamente entre indivíduos, um fenômeno influenciado por diversos fatores, incluindo a inteligência e as diferenças interpessoais. Indivíduos com maior quociente de inteligência, por exemplo, podem apresentar padrões diferenciados de memória, possivelmente devido à sua tendência de se concentrar em tarefas cognitivamente mais exigentes, levando a um esquecimento mais frequente de detalhes menos essenciais. Essas descobertas ressaltam a complexidade da memória humana e seu papel fundamental na cognição e no comportamento.

Neuroplasticidade e sentido da vida

A neuroplasticidade é um processo fundamental para dar sentido à vida. Ela não apenas ajuda na adaptação às novas experiências, mas também atua como uma barreira contra a degeneração neural. A formação de novas conexões neuronais fortalece o cérebro e pode prevenir o declínio cognitivo.

Fatores que Influenciam a Memória

1. Tamanho do Hipocampo e Conexões Frontotemporais: O hipocampo é vital para o armazenamento de memórias. Uma dimensão maior e uma conexão frontotemporal eficaz são indicativos de uma capacidade de armazenamento de memória superior.

O hipocampo desempenha um papel vital na formação e consolidação da memória, e está criticamente envolvido na regulação de emoções, medo, ansiedade e estresse. Além disso, alterações no hipocampo, como o estresse, podem modificar a aprendizagem e a plasticidade sináptica, impactando a memória.

2. Emoção e Memória: As emoções desempenham um papel crucial na formação da memória. Eventos com carga emocional, seja positiva ou negativa, tendem a ser lembrados com mais clareza.

A emoção tem um papel significativo no armazenamento de memórias. A amígdala cerebral facilita operações de memória em outras regiões, incluindo o hipocampo, particularmente em memórias emocionais.

3. Alto QI e Esquecimento: Indivíduos com alto QI frequentemente apresentam esquecimento. Este fenômeno não é um defeito, mas sim um mecanismo de economia de energia cerebral. Pessoas altamente inteligentes tendem a liberar informações menos essenciais para focar em tarefas mais complexas e exigentes.

Indivíduos com alto QI podem apresentar uma forma diferente de processamento de memória. A neurogênese no hipocampo adulto pode tanto facilitar a codificação de novas memórias quanto promover o esquecimento de memórias existentes, sugerindo um mecanismo de ‘limpeza’ de memórias menos essenciais para dar espaço a novas informações (Akers et al., 2014).

O Fenômeno do Esquecimento em Pessoas Altamente Inteligentes

Contrariando a noção popular, o esquecimento em pessoas com alto QI não é um sinal de deficiência na memória. Em vez disso, é uma indicação de que o cérebro está priorizando recursos cognitivos para tarefas mais desafiadoras, descartando informações menos importantes. Este processo pode ser visto como uma forma de otimização da função cerebral, permitindo uma melhor tomada de decisões e foco em assuntos de maior relevância.

A relação entre a neuroplasticidade, a memória e a inteligência é complexa e multifacetada. A compreensão dessas interações é crucial para entender como o cérebro trabalha para manter sua funcionalidade ao longo da vida.

A memória não é um arquivo estático, mas um processo dinâmico, influenciado pela neuroplasticidade, emoções e até mesmo pela inteligência. A capacidade do cérebro de adaptar-se, remodelar conexões e priorizar informações com base em sua relevância e intensidade emocional destaca a complexidade e a eficiência do sistema de memória humano.

Referências

  1. Akers, K. G., Martinez-Canabal, A., Restivo, L., Yiu, A. P., De Cristofaro, A., Hsiang, H. L., … & Frankland, P. W. (2014). Hippocampal neurogenesis regulates forgetting during adulthood and infancy. Science, 344(6184), 598-602. https://doi.org/10.1126/science.1248903
  2. Anderson, M. C., Ochsner, K. N., Kuhl, B., Cooper, J., Robertson, E., Gabrieli, S. W., … & Gabrieli, J. D. (2004). Neural systems underlying the suppression of unwanted memories. Science, 303(5655), 232-235. https://doi.org/10.1126/science.1089504
  3. Guzmán-Vélez, E., Warren, D. E., Feinstein, J. S., Bruss, J., & Tranel, D. (2011). Dissociable contributions of amygdala and hippocampus to emotion and memory in patients with Alzheimer’s disease. Hippocampus, 26(6), 727-738. https://doi.org/10.1002/hipo.22554
  4. Kesner, R. P. (2018). A Process Analysis of the CA3 Subregion of the Hippocampus. Frontiers in Cellular Neuroscience, 12, 80. https://doi.org/10.3389/fncel.2018.00080
  5. Kim, J. J., & Yoon, K. S. (1998). Stress: metaplastic effects in the hippocampus. Trends in Neurosciences. https://doi.org/10.1016/S0166-2236(98)01322-8
  6. Klein-Koerkamp, Y., Baciu, M., & Hot, P. (2012). Preserved and impaired emotional memory in Alzheimer’s disease. Frontiers in Psychology, 3, 331. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2012.00331
  7. LaBar, K. S., & Cabeza, R. (2006). Cognitive neuroscience of emotional memory. Nature Reviews Neuroscience, 7(1), 54-64. https://doi.org/10.1038/nrn1825

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