Início ColunaNeurociências A percepção da arquitetura moderna através da lente do transtorno do espectro autista: Implicações neurocognitivas e implicações visuais

A percepção da arquitetura moderna através da lente do transtorno do espectro autista: Implicações neurocognitivas e implicações visuais

Estudos contemporâneos em neurociência cognitiva têm explorado como anomalias neurogenéticas, como aquelas observadas no Transtorno do Espectro Autista (TEA), podem modular a percepção e a criação de espaço arquitetônico.

por Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues

A arquitetura moderna, emergente nos escombros da Primeira Guerra Mundial, representa uma revolução estilística profundamente influenciada por um paradigma de minimalismo e funcionalidade. Esta transição, da ornamentação extensiva para estruturas mais limpas e geometrizadas, pode ser parcialmente atribuída às alterações perceptivas e cognitivas dos indivíduos no espectro autista que influenciaram seus principais proponentes. Estudos contemporâneos em neurociência cognitiva têm explorado como anomalias neurogenéticas, como aquelas observadas no Transtorno do Espectro Autista (TEA), podem modular a percepção e a criação de espaço arquitetônico.

Le Corbusier, uma figura emblemática neste campo, é frequentemente citado como tendo apresentado características consistentes com TEA, como descrito por Daniels e Weber em suas análises biográficas. A expressão arquitetônica de Le Corbusier, marcada por uma preferência por formas puras e uma aversão a estímulos visuais complexos, reflete uma adaptação ao seu processamento sensorial atípico. Isso é evidenciado por sua tendência a simplificar visuais ao extremo, como ilustrado em suas estruturas icônicas, como a Villa Savoye, que destaca uma estética de linhas claras e ausência de decorações desnecessárias.

Pesquisas utilizando tecnologias de rastreamento ocular mostram que indivíduos com TEA frequentemente apresentam padrões atípicos de fixação visual. Por exemplo, enquanto um observador neurotípico pode se concentrar em características sociais como os olhos ao ver faces, indivíduos com TEA tendem a evitar essas áreas, focalizando em pontos periféricos. Aplicada à arquitetura, essa tendência pode explicar uma predileção por estruturas que minimizem estímulos visuais sobrecarregantes, preferindo superfícies lisas e contornos simples que não induzam sobrecarga sensorial.

Adicionalmente, o século XXI, frequentemente descrito como a “Era da Biologia”, proporciona um contexto mais amplo para entender como a hiperplasticidade — uma característica comum no TEA que envolve um excesso de conexões sinápticas — pode afetar a experiência espacial. Esta configuração neural pode fazer com que estímulos visuais sejam esmagadores, levando a uma necessidade de ambientes mais controlados e menos detalhados.

A perspectiva de Le Corbusier sobre a “morte da rua”, como articulado em “Towards a New Architecture”, sugere não apenas uma visão utópica para futuras metrópoles, mas também uma necessidade de reduzir a desordem e o caos que poderiam ser perturbadores para um cérebro autista. Sua visão de cidades caracterizadas por torres isoladas e largas avenidas pode ser vista como uma tentativa de criar um ambiente que reflete a clareza e a ordem necessárias para seu bem-estar cognitivo.

Essas observações neuroarquitetônicas revelam que o desenvolvimento da arquitetura moderna não foi apenas uma resposta a influências culturais e históricas, mas também uma manifestação física das peculiaridades neurocognitivas de seus proponentes. Entender a interseção entre neurociência e design arquitetônico oferece caminhos para ambientes mais inclusivos que atendam às necessidades sensoriais diversas, contribuindo para a saúde e o bem-estar geral. A investigação continuada neste campo não apenas enriquece nossa compreensão da história arquitetônica, mas também impulsiona um futuro onde o design pode ser verdadeiramente adaptado para todos os espectros da experiência humana.

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