Resumo: As funções executivas (FE) constituem um construto neurocognitivo multidimensional essencial para a regulação intencional do comportamento, do afeto e da cognição estruturada. Deficits no desenvolvimento dessas funções têm sido amplamente documentados no Transtorno do Espectro Autista (TEA), porém a dinâmica de seu curso longitudinal e seu padrão de agregação familiar permanecem lacunas críticas na neuropsicologia do desenvolvimento. Este artigo de opinião informativa analisa os perfis evolutivos das FE desde a primeira infância até a idade escolar, comparando crianças autistas e não autistas com alta probabilidade familiar (HL) — devido à presença de um irmão mais velho diagnosticado — e crianças com baixa probabilidade familiar (LL). Com base em modelagens neuropsicológicas longitudinais, discutem-se a emergência tardia das divergências executivas, a coocorrência de sintomas do Transtorno de Deficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e o valor preditivo das assinaturas executivas iniciais.
Introdução: A Natureza Multidimensional e o Desenvolvimento das Funções Executivas
O desenvolvimento neurocognitivo infantil é marcado pela maturação progressiva de sistemas corticais e subcorticais que capacitam o indivíduo a exercer o controle voluntário sobre suas ações e pensamentos. No cerne dessa capacidade situam-se as funções executivas (FE), um conjunto de processos cognitivos de ordem superior que engloba a memória de trabalho, a flexibilidade cognitiva, o controle inibitório e a capacidade de planejamento estruturado. A integridade funcional dessas operações depende do desenvolvimento coordenado das redes pré-frontais e de suas conexões recíprocas com estruturas subcorticais e parietais.
No contexto do Transtorno do Espectro Autista (TEA) — uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por desfechos atípicos na comunicação social e pela presença de padrões comportamentais restritos e repetitivos —, as disfunções executivas são reportadas como uma característica fenotípica prevalente e impactante. Contudo, os modelos teóricos clássicos frequentemente falham em capturar a natureza dinâmica e longitudinal desses processos. Investigar as FE sob uma perspectiva ontogenética, acompanhando coortes desde o final do primeiro ano de vida até a transição para a idade escolar, revela-se indispensável para elucidar se os deficits executivos operam como marcadores endofenotípicos precoces ou se emergem como um subproduto do desenvolvimento atípico consolidado.
Abordagem Metodológica de Base Familiar: O Desenho Experimental do Estudo IBIS
A elucidação das trajetórias evolutivas das funções executivas e de sua dependência epigenética e hereditária exige o acompanhamento prospectivo de populações com perfis diferenciados de risco genético. Para atender a essa demanda científica, uma investigação longitudinal robusta foi conduzida com dados integrados do Infant Brain Imaging Study (IBIS), monitorando uma amostra total de 450 crianças distribuídas em três grupos analíticos distintos:
- Crianças Autistas de Alta Probabilidade (High Likelihood – HL-ASD): Indivíduos com histórico familiar de TEA (um irmão biológico mais velho diagnosticado) e que receberam o diagnóstico confirmatório de autismo na idade escolar ($n = 83$).
- Crianças Não Autistas de Alta Probabilidade (High Likelihood – HL-Neg): Indivíduos com um irmão mais velho autista, mas que não preencheram critérios clínicos para o espectro ao final do monitoramento ($n = 235$).
- Crianças de Baixa Probabilidade (Low Likelihood – LL): Grupo de controle composto por crianças sem histórico familiar de TEA em parentes de primeiro grau ($n = 132$).
A avaliação neuropsicológica das FE foi estruturada de forma sequencial e adaptada aos marcos do desenvolvimento. Na primeira infância, aos 12 e 24 meses de idade cronológica, utilizou-se o paradigma experimental de reversão espacial A-not-B para mensurar capacidades incipientes de memória de trabalho e controle inibitório. Na idade escolar (abrangendo a faixa dos 5 aos 14 anos, com média de 9,6 anos), a avaliação foi expandida por meio de instrumentos diretos e indiretos, incluindo o Behavior Rating Inventory of Executive Function (BRIEF) — respondido pelos cuidadores para mapear o funcionamento executivo no ambiente cotidiano — e testes computadorizados de desempenho, nomeadamente o Flanker Inhibitory Control and Attention Test e o Dimensional Change Card Sort (DCCS), ambos integrantes do NIH Toolbox. Sintomas concomitantes de TDAH foram rigorosamente quantificados na idade escolar por meio da Kiddie Schedule for Affective Disorders and Schizophrenia (K-SADS) e do Social Responsiveness Scale (SRS-2).
Trajetórias Longitudinais: A Emergência Tardia das Divergências Executivas
Os resultados derivados da modelagem longitudinal do estudo IBIS trouxeram esclarecimentos fundamentais acerca da cronologia das alterações cognitivas no autismo. Contrariando hipóteses neuropsicológicas que postulavam a presença de deficits executivos generalizados e detectáveis já nos primeiros meses de vida de bebês que posteriormente se tornariam autistas, os dados de desempenho no teste A-not-B aos 12 e 24 meses não revelaram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos HL-ASD, HL-Neg e LL. No final do período de lactente e início da infância, os três grupos demonstraram níveis equivalentes de proficiência em tarefas básicas de busca espacial e inibição de respostas motoras reflexas.
Esse cenário sofreu uma modificação radical quando a coorte atingiu a idade escolar. Os inventários comportamentais aplicados aos pais (BRIEF) revelaram disfunções executivas marcantes e generalizadas nas crianças do grupo HL-ASD em comparação com os grupos HL-Neg e LL. Os deficits escolares no grupo autista estenderam-se por múltiplos domínios funcionais, englobando o Índice de Regulação Comportamental (controle de impulsos e monitoramento de ações), o Índice de Regulação Emocional (flexibilidade afetiva) e o Índice de Regulação Cognitiva (planejamento, organização de materiais, iniciativa e memória de trabalho). Em contrapartida, as mensurações de desempenho direto em laboratório (testes Flanker e DCCS do NIH Toolbox) apontaram deficits significativamente mais restritos e discretos. Essa dissociação sugere que, embora crianças autistas possam manifestar habilidades de processamento executivo relativamente preservadas em ambientes altamente estruturados, de curta duração e desprovidos de distratores (como o cenário de um teste computadorizado individual), elas enfrentam barreiras severas para recrutar e coordenar essas mesmas funções de forma flexível e adaptativa diante da complexidade e da imprevisibilidade das demandas da vida diária.
Agregação Familiar e o Efeito de Resiliência no Grupo HL-Neg
Um dos achados de maior impacto teo-clínico do estudo diz respeito ao perfil manifestado pelas crianças do grupo HL-Neg — aquelas que possuem carga genética compartilhada para o autismo por terem irmãos afetados, mas que não desenvolveram a condição. Na idade escolar, o grupo HL-Neg exibiu escores no BRIEF que se posicionaram em um patamar intermediário: demonstraram maior vulnerabilidade e mais queixas executivas do que os controles LL, porém mantiveram um funcionamento significativamente mais preservado e adaptativo do que os seus pares autistas (HL-ASD).
Essa configuração endofenotípica sugere que os deficits nas funções executivas agregam-se familiarmente e refletem uma responsabilidade genética compartilhada para o neurodesenvolvimento atípico, operando de forma dimensional. As sutis elevações nas dificuldades executivas observadas no grupo HL-Neg indicam a expressão de traços do chamado fenótipo ampliado do autismo (broader autism phenotype). O fato de essas crianças não preencherem critérios para o transtorno, apesar de compartilharem certas fragilidades executivas familiares, aponta para a presença de mecanismos compensatórios cognitivos ou fatores epigenéticos de resiliência que blindam a integridade de suas trajetórias de comunicação social, permitindo-lhes navegar pelas demandas escolares sem cruzar o limiar da falência funcional.
A Coocorrência com Sintomas de TDAH e a Especificidade do Perfil Executivo
A investigação aprofundada dos perfis na idade escolar evidenciou que a magnitude e a severidade das disfunções executivas cotidianas no grupo autista são fortemente moduladas pela presença de sintomas concomitantes de desatenção, impulsividade e hiperatividade. A análise dos dados obtidos via K-SADS revelou taxas expressivas de sintomatologia de TDAH no grupo HL-ASD.
Crianças autistas que manifestavam níveis elevados de sintomas de TDAH de forma combinada apresentaram os perfis mais rebaixados de funcionamento executivo no inventário BRIEF, com prejuízos exacerbados na memória de trabalho, na capacidade de planejamento e na velocidade de processamento atencional. Todavia, a modelagem estatística demonstrou que o TEA exerce um impacto aditivo e independente sobre as funções executivas: mesmo após o controle rigoroso e a covariância dos escores de sintomas de TDAH, o diagnóstico de autismo permaneceu como um preditor robusto para o rebaixamento dos índices de regulação cognitiva e flexibilidade. Esse achado consolida o entendimento de que, embora o TDAH atue amplificando o sofrimento cognitivo, o autismo possui uma assinatura executiva própria, intrinsecamente ligada à rigidez cognitiva e às dificuldades de transição entre estados mentais que caracterizam a fenomenologia do espectro.
O Valor Preditivo Insuficiente das Métricas Executivas Iniciais
No campo da intervenção precoce, a busca por preditores cognitivos na primeira infância que possam antecipar o grau de comprometimento funcional futuro constitui uma prioridade de pesquisa. O estudo longitudinal testou se o desempenho das crianças na tarefa A-not-B aos 12 e 24 meses correlacionava-se com as notas obtidas no BRIEF ou com os sintomas de TDAH e autismo na idade escolar.
As análises de correlação longitudinal e os modelos de regressão revelaram uma ausência de associação preditiva significativa entre as medidas. A performance de um bebê de um ou dois anos no teste de reversão espacial não se mostrou capaz de prever as competências executivas, o nível de atenção ou a severidade dos traços autistas na infância tardia. Esse fenômeno de descontinuidade preditiva reflete a complexidade do desenvolvimento cortical infantil. As funções executivas precoces avaliadas no teste A-not-B apoiam-se em circuitos frontostriatais ainda rudimentares e altamente plásticos. À medida que a criança cresce, a exigência ambiental migra de respostas motoras simples para tarefas integrativas complexas, que demandam a conectividade de redes neurais de grande escala (como a rede de controle executivo e a rede de modo padrão). Portanto, a avaliação isolada das FE em fases muito precoces da vida possui baixo valor prognóstico individual, sugerindo que o colapso ou a divergência executiva no autismo consolida-se de forma progressiva e cumulativa ao longo da infância.
Implicações Clínicas, Educacionais e Terapêuticas
Os achados consolidados a partir do monitoramento longitudinal da coorte do estudo IBIS impõem uma revisão profunda nas práticas de rastreamento, diagnóstico e reabilitação neuropsicológica no autismo. Compreender que as disfunções executivas tornam-se proeminentes e disruptivas na idade escolar, a despeito de antecedentes normativos na primeira infância, exige o desenho de estratégias de suporte longitudinal e proativo.
As diretrizes de intervenção clínica e educacional devem estruturar-se em eixos coordenados:
- Abandono do Reducionismo de Testes de Laboratório: Os profissionais de saúde não devem basear suas conclusões sobre as capacidades executivas de uma criança autista exclusivamente em testes computadorizados aplicados em consultórios clínicos isolados. É imperativo coletar inventários comportamentais ecológicos (como o BRIEF) preenchidos por pais e professores, uma vez que o real deficit reside na aplicação prática dessas funções nas condições caóticas do mundo real.
- Apoio Estrutural no Contexto Educacional: As escolas devem implementar adaptações ambientais direcionadas para mitigar o impacto das falhas de regulação cognitiva. O uso de agendas visuais, a segmentação de diretrizes complexas em passos sequenciais simples, a organização explícita de materiais escolares e a concessão de tempo adicional para transições entre atividades funcionam como próteses cognitivas externas indispensáveis para o estudante autista.
- Manejo Coordenado de Comorbidades: Frente ao efeito amplificador exercido pelos traços de TDAH sobre o perfil executivo, as equipes multidisciplinares devem monitorar e intervir precocemente sobre os sintomas atencionais e de hiperatividade em crianças autistas, combinando intervenções comportamentais e, quando clinicamente indicado, suporte farmacológico otimizado para desonerar a memória de trabalho do paciente.
- Monitoramento Atento do Grupo de Risco Familiar (HL-Neg): Crianças não autistas que possuem irmãos no espectro devem receber atenção psicopedagógica continuada ao ingressarem no ensino fundamental. Mesmo sem o diagnóstico de TEA, a presença de uma vulnerabilidade executiva intermediária familiar pode acarretar dificuldades veladas na auto-organização e no rendimento acadêmico, justificando suportes preventivos de treinamento em estratégias de estudo e gerenciamento de tempo.
Considerações Finais: Rumo a uma Visão Dinâmica do Neurodesenvolvimento
A investigação prospectiva dos perfis de funções executivas em populações com diferentes probabilidades familiares para o autismo redefine os modelos concebíveis da neuropsicologia do desenvolvimento. A constatação de que os deficits executivos no TEA não se manifestam de forma congênita ou linear na primeira infância, mas emergem de forma proeminente com o aumento da complexidade das demandas ambientais na idade escolar, corrobora o caráter dinâmico e probabilístico do neurodesenvolvimento.
Estudos futuros devem associar o acompanhamento comportamental longitudinal a avaliações repetidas de ressonância magnética estrutural e funcional, mapeando as trajetórias de fiação sináptica e a eficiência de conectividade da rede pré-frontal ao longo do crescimento. Compete aos cientistas, clínicos e educadores a compreensão de que as funções executivas no autismo constituem um alvo terapêutico em constante mutação. Ao fornecer suportes ecológicos precoces, intervir de forma agressiva nas comorbidades atencionais e estruturar ambientes previsíveis e acolhedores, a sociedade estará capacitando as crianças autistas a superarem suas barreiras algorítmicas, preservando sua autonomia, otimizando seu potencial acadêmico e garantindo a plena expressão de suas identidades.
Referência Bibliográfica (Norma ABNT)
ST. JOHN, Tanya et al. Longitudinal profiles of executive function in autistic and non-autistic children at high likelihood of autism. Journal of Neurodevelopmental Disorders, v. 18, n. 21, p. 1-12, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s11689-026-09682-4.

