Embora a maioria das crianças superdotadas seja tão bem ajustada e feliz quanto outras crianças, a superdotação não é apenas uma questão de habilidade, mas também uma experiência relativa que pode trazer vulnerabilidades únicas. A percepção da superdotação por parte de pais e professores é frequentemente influenciada por estereótipos, o que pode levar à falha em identificar crianças superdotadas bem ajustadas ou, inversamente, a uma identificação equivocada de crianças emocionalmente perturbadas como superdotadas. Este artigo explora as vulnerabilidades emocionais e educacionais que, para uma minoria de crianças superdotadas, podem causar problemas significativos.
Uma das vulnerabilidades mais notáveis é a hipersensibilidade. Crianças superdotadas se descrevem como muito sensíveis e empáticas. Essa percepção aguçada, embora lhes permita captar sinais de comunicação mais complexos, também pode levar a interpretações errôneas e a uma maior vulnerabilidade à crítica, resultando no desenvolvimento de uma autoimagem negativa e no isolamento social. A alta inteligência pode funcionar como uma “blindagem externa” que oculta essa dor emocional, mas pode levar a explosões na adolescência ou à depressão.
Outro problema é o das expectativas irrealistas, que podem ser autoimpostas ou vir de adultos. Crianças superdotadas, cientes de seu potencial intelectual, podem estabelecer metas inatingíveis, levando a um sentimento de fracasso e à desistência. Pais e professores, por sua vez, podem usar a criança como fonte de sucesso “vicário”, pressionando-a a “se aprimorar”. Essa pressão constante pode prejudicar a autoaceitação da criança e minar sua autoconfiança, especialmente se a afeição parecer dependente do sucesso.
As instalações educacionais inadequadas são um problema central. Em um ambiente de sala de aula normal, uma criança superdotada pode encontrar o ritmo de ensino insuportavelmente lento, com a repetição de habilidades já dominadas, o que pode levar ao tédio, à frustração e a comportamentos de desvio. Além disso, o clima da sala de aula pode ser negativamente influenciado pela insensibilidade dos colegas, com o “nerd” sendo isolado socialmente. Esse conflito entre a necessidade de exercício intelectual e a necessidade de aceitação social pode resultar em comportamentos defensivos, que, se não forem reconhecidos e corrigidos, podem se tornar hábitos de vida.
Por fim, os problemas de gênero também são mais proeminentes na superdotação. Os meninos têm duas vezes mais chances de serem identificados como superdotados, e são mais propensos a serem identificados como superdotados com baixo desempenho ou como delinquentes superdotados. No entanto, meninas que se encaixam no estereótipo de “boazinhas” podem não ser identificadas, e meninas superdotadas podem ter dificuldade em conciliar o alto desempenho com a feminilidade, sentindo que precisam “abandonar” uma dessas qualidades para se encaixar socialmente.
Em suma, embora a superdotação em si não esteja relacionada a problemas de ajustamento, vulnerabilidades específicas podem causar conflitos, ansiedade e comportamentos indesejados. Crianças superdotadas têm as mesmas necessidades emocionais e educacionais que outras crianças, mas a intensidade dessas necessidades requer uma resposta mais robusta e individualizada. É crucial que pais, professores e outros cuidadores reconheçam a habilidade dos seus filhos e os problemas que ela pode trazer, ajustando os programas educacionais para satisfazer as suas necessidades específicas.
Referência:
Freeman, J. (1983). Emotional Problems of the Gifted Child. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 24(3), 481–485. DOI: 10.1111/j.1469-7610.1983.tb00123.x.

