Home OpiniãoO Papel do Apego Ansioso na Manutenção de Relacionamentos Abusivos: Perspectivas de Empoderamento e Intervenção

O Papel do Apego Ansioso na Manutenção de Relacionamentos Abusivos: Perspectivas de Empoderamento e Intervenção

by Redação CPAH

A permanência em relacionamentos marcados pela violência e pelo abuso é um fenômeno complexo que desafia as compreensões puramente racionais da tomada de decisão humana. No cerne dessa persistência, a Teoria do Apego oferece um arcabouço fundamental para compreender como modelos internos de funcionamento influenciam a resiliência ou a vulnerabilidade em contextos interpessoais adversos. De acordo com Kural e Kovacs (2022), a ansiedade de apego — caracterizada por um medo intenso de abandono e uma necessidade exacerbada de proximidade e aprovação — correlaciona-se significativamente com a dificuldade de romper vínculos abusivos. Indivíduos com altos níveis de ansiedade de apego tendem a minimizar sinais de perigo e a superestimar a capacidade de mudança do parceiro, resultando em uma paralisia decisória que os mantém confinados em ciclos de vitimização.

A vulnerabilidade inerente ao apego ansioso é frequentemente explorada por parceiros abusivos, que utilizam a intermitência de afeto e a ameaça de separação como ferramentas de controle coercitivo. Esse cenário cria uma dinâmica de dependência emocional onde a autoestima da vítima torna-se dependente da validação de um perpetrador que, paradoxalmente, é a fonte do seu sofrimento. Segundo Kural e Kovacs (2022), a segurança do apego funciona como um “esquema” cognitivo que, quando fragilizado, impede que a vítima visualize alternativas viáveis fora do relacionamento atual. A internalização de que o self é indigno de amor ou que o mundo é um lugar inerentemente inseguro sem o parceiro — mesmo que este seja abusivo — constitui uma barreira psicológica que neutraliza as tentativas de busca por suporte externo e autonomia.

Diante dessa paralisia, a ciência psicológica tem investigado estratégias de “priming de segurança” como ferramentas de empoderamento. O objetivo é fortalecer temporariamente ou a longo prazo os esquemas de apego seguro, permitindo que a vítima acesse recursos cognitivos e emocionais para a autoproteção. Conforme discutido por Kural e Kovacs (2022), ao evocar memórias ou representações de figuras de suporte confiáveis, é possível reduzir a hipervigilância ao abandono e aumentar a autoeficácia necessária para o encerramento da relação abusiva. Intervenções baseadas no fortalecimento do apego seguro não apenas mitigam os sintomas de ansiedade, mas capacitam o indivíduo a reavaliar a realidade do relacionamento sob uma ótica de dignidade e preservação da integridade física e mental, rompendo o ciclo de submissão e sofrimento.

Referência (ABNT):

KURAL, Ayşe I.; KOVACS, Monika. The role of anxious attachment in the continuation of abusive relationships: The potential for strengthening a secure attachment schema as a tool of empowerment. Acta Psychologica, v. 225, p. 1-10, maio 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.actpsy.2022.103537.

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