A busca pela compreensão dos determinantes biológicos que sustentam a performance atlética de elite tem avançado significativamente com o mapeamento de polimorfismos genéticos. Atualmente, estima-se que mais de 200 variantes genéticas influenciem traços relacionados ao desempenho, sendo que cerca de 20 delas estão diretamente associadas ao status de atleta de elite. Entre os marcadores mais robustos destacam-se o polimorfismo R577X do gene ACTN3, essencial para a função das fibras musculares de contração rápida, e o polimorfismo de inserção/deleção (I/D) do gene ACE, que modula a eficiência cardiovascular. Contudo, apesar do entusiasmo científico, a literatura indica que a utilização de testes de DNA como ferramenta isolada para a detecção de talentos ou para a prescrição personalizada de treinamento ainda carece de validade preditiva robusta, dada a natureza poligênica e multifatorial do desempenho humano (VARILLAS-DELGADO et al., 2022).
A complexidade da performance esportiva reside na interação dinâmica entre o genoma e o ambiente (exposoma), onde fatores como nutrição, metodologia de treinamento e suporte psicológico desempenham papéis cruciais. Estudos sugerem que a contribuição genética para traços de força e resistência pode variar de 30% a 80%, dependendo do fenótipo analisado. Entretanto, muitos estudos na área apresentam limitações metodológicas, como amostras reduzidas de atletas verdadeiramente de elite e a falta de padronização nos testes de desempenho físico. Essa heterogeneidade dificulta a criação de algoritmos genéticos precisos que possam substituir ou complementar de forma eficaz os métodos tradicionais de observação técnica e avaliação fisiológica (VARILLAS-DELGADO et al., 2022).
Para o futuro, a genômica esportiva deve transitar da análise de SNPs isolados para abordagens mais integrativas, como o sequenciamento de nova geração (NGS) e o desenvolvimento de Escores de Risco Poligênico (PRS). A integração desses dados com a metabolômica e a epigenética poderá oferecer uma visão mais holística da plasticidade biológica do atleta. Por ora, a aplicação clínica e prática do mapeamento genético no esporte deve ser conduzida com cautela ética e científica, servindo mais como uma ferramenta complementar de compreensão da biologia individual do que como um critério definitivo de exclusão ou seleção de talentos (VARILLAS-DELGADO et al., 2022).
Referência (ABNT):
VARILLAS-DELGADO, David et al. Genetics and sports performance: the present and future in the identification of talent for sports based on DNA testing. European Journal of Applied Physiology, v. 122, n. 8, p. 1811-1830, 16 abr. 2022. DOI: 10.1007/s00421-022-04945-z.