A evolução histórica da medicina global na segunda metade do século XIX foi profundamente marcada por uma crescente consciência coletiva acerca dos desafios sanitários e pela imperiosa necessidade de estabelecer canais eficazes para o intercâmbio de saberes e a cooperação internacional. Nesse cenário, os congressos internacionais de medicina consolidaram-se como as maiores plataformas de difusão de conhecimento e de estabelecimento de redes profissionais de sua era. Portugal, contudo, permanecia consideravelmente isolado dos principais eixos científicos europeus e desalinhado em relação aos rápidos progressos médicos observados na Europa e nos Estados Unidos. Esse isolamento começou a ser rompido de maneira expressiva em abril de 1906, quando a cidade de Lisboa sediou o XV Congresso Internacional de Medicina, um evento de magnitude inédita que se tornou um divisor de águas e um marco definitivo para a medicina em território português.
A materialização desse evento em solo luso decorreu da articulação estratégica iniciada durante a edição anterior do congresso, realizada em Madrid no ano de 1903, na qual uma comitiva de cerca de duzentos delegados portugueses vislumbrou a oportunidade de trazer o prestigiado fórum para o país. Entre os principais entusiastas dessa candidatura destacou-se o Professor Miguel Bombarda, influente docente da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e figura política ativa, que obteve o aval do então Primeiro-Ministro Hintze Ribeiro para formalizar a proposta. Nomeado por unanimidade como Secretário-Geral do evento, Bombarda assumiu a responsabilidade de coordenar uma logística complexa em um período em que Portugal enfrentava severas restrições econômicas e instabilidade político-social. Um dos maiores triunfos dessa organização foi a mobilização governamental para a conclusão das novas instalações da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, cuja infraestrutura monumental serviu de sede digna para acolher as extensas atividades científicas programadas.
A relevância acadêmica do certame manifestou-se na expressiva adesão quantitativa e qualitativa da comunidade científica global, reunindo mais de 2.000 participantes estrangeiros de alto prestígio. O congresso foi estruturado em 17 seções que totalizaram aproximadamente 500 reuniões e sessões de debates. A sessão inaugural, celebrada na Sala Portugal da Sociedade de Geografia de Lisboa, contou com a presença da Família Real portuguesa, liderada pelo Rei Carlos I. Entre os espaços que causaram maior impacto técnico figurou a Sala de Projeções, onde foram demonstrados procedimentos cirúrgicos de vanguarda realizados pelo renomado cirurgião Dr. Eugène Doyen, atraindo exibições repetidas devido ao forte interesse da audiência. Paralelamente, debates cruciais na seção dedicada ao cancro — que discutiam as teorias infecciosas vigentes para a etiologia da doença — serviram de inspiração inicial para que o médico Francisco Gentil passasse a liderar o combate às patologias oncológicas em Portugal. Outros temas vitais voltados à saúde pública e às patologias transmissíveis (como tuberculose, difteria, varíola e lepra) foram debatidos sob a presidência do Professor Ricardo Jorge , enquanto a seção de Medicina Colonial e Tropical deu visibilidade aos avanços portugueses no combate à mosca tsetse em São Tomé e Príncipe, sob a liderança do Dr. Ayres Kopke.
Ademais, o evento proporcionou um intercâmbio científico direto entre a comunidade médica nacional e as maiores sumidades da medicina mundial da época, incluindo luminares como Paul Ehrlich, Karl Landsteiner, Santiago Ramón y Cajal, Élie Metchnikoff, Albert Neisser, Wilhelm Waldeyer, Édouard Brissaud e Paul Richer, dentre outros. A despeito da precariedade da infraestrutura hoteleira lisboeta da época, resolvida de maneira criativa por meio do alojamento em residências privadas de médicos locais e da utilização do navio comercial britânico SS Ophir como hotel flutuante , o congresso foi amplamente elogiado por sua hospitalidade e pelo seu rico programa social. Em termos institucionais, o impacto de longo prazo desse fórum científico internacional refletiu-se diretamente na posterior modernização do ensino médico em Portugal, culminando na fundação das Universidades de Lisboa e do Porto em 1911 e no surgimento da célebre “geração médica de 1911”. Trata-se, portanto, de um acontecimento histórico cujo legado de inserção de Portugal nas correntes da ciência moderna permanece digno de memória e reflexão após mais de um século de sua realização.
Referência Bibliográfica (Formato ABNT)
OLIVEIRA, Victor. The XV International Congress of Medicine (Lisbon, April 1906): 120 Years Later. Jornal da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, Lisboa, v. 170, n. 2, p. 50-54, jun. 2026. Disponível em: https://doi.org/10.57849/ulisboa.fm.jscml.00000522026. Acesso em: 5 jul. 2026.