O avanço dos estudos voltados às neurodivergências tem reposicionado o Transtorno do Espectro Autista (TEA) não apenas como um conjunto de marcadores comportamentais estáticos, mas como uma condição dinâmica e heterogênea cujas estratégias adaptativas demandam investigação rigorosa. Entre os construtos de maior relevância na neuropsicologia e psiquiatria contemporâneas, o camuflamento social (social camouflaging) destaca-se como o processo central por meio do qual indivíduos autistas mascaram ou compensam suas características e comportamentos nucleares com o intuito de interagir, transitar e sobreviver no interior de contextos sociais majoritariamente neurotípicos. Inicialmente investigado sob uma perspectiva predominantemente voltada a adultos, evidências científicas integrativas recentes indicam que esse fenômeno estende-se de maneira transversal ao longo do desenvolvimento humano, afetando de forma igualmente severa as populações de jovens e adolescentes.
Do ponto de vista fenotípico e operacional, o camuflamento social é estruturado a partir de três domínios comportamentais e cognitivos interdependentes: o mascaramento, a compensação e a assimilação. O mascaramento configura-se como o esforço deliberado ou automático para ocultar e suprimir traços associados ao autismo, o que engloba a contenção forçada de estereotipias motoras (stimming) e a camuflagem de interesses focados ou atípicos. A compensação, por sua vez, envolve o emprego de mecanismos intelectuais ativos elaborados para contornar ou mitigar as dificuldades intrínsecas à reciprocidade socioemocional, manifestando-se por meio do uso de roteiros de conversação previamente memorizados e na imitação ativa de pares sociais. Por fim, a assimilação compreende as estratégias adotadas para simular adequação e pertencimento em ecologias sociais desconfortáveis, muitas vezes por meio da encenação e performance de papéis sociais artificiais voltados à facilitação da conectividade interpessoal.
As forças motrizes que impulsionam o engajamento contínuo em práticas de camuflamento social compartilham de uma natureza dual homogênea entre jovens e adultos autistas, estruturando-se ao redor do desejo profundo por conexões e interações sociais e, concorrentemente, pela premente necessidade de autoproteção contra o julgamento, a discriminação, o estigma ou danos diretos decorrentes de sua manifestação neurodivergente. No entanto, os fatores de contexto exercem forte influência no desencadeamento desses comportamentos. Populações mais jovens, por exemplo, exibem uma tendência substancialmente maior a camuflar suas características em ambientes escolares quando comparados ao contexto domiciliar, chegando ao ponto de ocultar ativamente suas dificuldades específicas de aprendizagem no interior das salas de aula. Em contrapartida, observa-se uma atenuação significativa das práticas de camuflamento social, tanto em jovens quanto em adultos, quando estes interagem com indivíduos de sua inteira confiança ou em ambientes compartilhados com parceiros de conversação que também sejam neurodivergentes.
A análise epidemiológica e clínica dos preditores do camuflamento social revela de forma inequívoca o impacto do gênero e de variáveis neurocognitivas nessa dinâmica. Estudos empíricos baseados em metodologias quantitativas e qualitativas correlacionam fortemente a identidade de gênero feminina a escores elevados de camuflamento social, o que se reflete em pontuações substancialmente maiores em subescalas de mascaramento social e imitação quando comparadas às populações masculinas. No tocante à cognição, o uso dessas estratégias adaptativas exige o recrutamento massivo e a consequente depleção de recursos intelectuais e executivos, correlacionando-se potencialmente com funções executivas operantes, quociente de inteligência (QI) e teoria da mente (ToM), embora a literatura cinzenta e empírica ainda aponte para a necessidade de elucidação de suas associações bidirecionais exatas. Adicionalmente, o alto índice de sucesso no camuflamento atua como um severo obstáculo clínico, correlacionando-se com o atraso no tempo de diagnóstico e privando o indivíduo de suportes especializados essenciais ao longo de suas fases formativas.
O custo psicofisiológico decorrente da manutenção perene do camuflamento social impõe severas consequências à saúde mental e ao bem-estar psicossocial de jovens e adultos autistas. A mobilização ininterrupta de energia cognitiva para gerenciar e atuar em conformidade com as expectativas sociais resulta em quadros debilitantes de exaustão, fadiga crônica e esgotamento (burnout). Esse desgaste neurocognitivo crônico correlaciona-se de forma direta e robusta ao desenvolvimento de transtornos psiquiátricos secundários, incluindo transtorno de ansiedade generalizada, ansiedade social, episódios depressivos maiores e sofrimento psicológico agudo. Em cenários de maior gravidade, a fricção identitária imposta pelo mascaramento sistemático da própria essência neurodivergente atua como um preditor alarmante para crises de identidade e para o aumento real do risco de suicidalidade ao longo da vida, demandando respostas urgentes dos sistemas de saúde pública.
Em suma, a decodificação científica do camuflamento social no Transtorno do Espectro Autista exige uma reconfiguração epistemológica e metodológica na abordagem das neurodivergências. O fato de jovens e adultos compartilharem motivações semelhantes, fenótipos de expressão e prejuízos idênticos à integridade psíquica demonstra que a aparente competência adaptativa superficial é, em verdade, um indicador de alta vulnerabilidade clínica. Torna-se imperativo o desenvolvimento e a validação psicométrica de ferramentas de rastreamento de camuflamento padronizadas para indivíduos em idades mais precoces, de modo a capturar suas experiências singulares de forma oportuna. Reduzir os impactos deletérios desse fenômeno requer o desmantelamento urgente do estigma social e a criação de políticas educacionais e clínicas que abracem a neurodiversidade, assegurando que o indivíduo autista possa abrir mão de sua máscara protetiva e usufruir de uma trajetória de vida pautada na saúde mental, na validação de sua identidade e no pleno respeito às suas especificidades de desenvolvimento.
Referência (Normas ABNT)
KLEIN, Jessica; KRAHN, Rachel; HOWE, Stephanie; LEWIS, Jessi; MCMORRIS, Carly; MACOUN, Sarah. A systematic review of social camouflaging in autistic adults and youth: Implications and theory. Development and Psychopathology, v. 37, n. 4, p. 1320-1334, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1017/S0954579424001159. Acesso em: 24 maio 2026.