A Doença de Alzheimer (DA) é tradicionalmente compreendida como uma patologia do sistema nervoso central (SNC), caracterizada pelo acúmulo de placas extracelulares de beta-amiloide (Aβ) e emaranhados neurofibrilares de proteína tau. Contudo, evidências emergentes indicam que a origem da patologia pode não estar restrita ao parênquima cerebral. Estudos recentes demonstram que oligômeros de Aβ presentes no trato gastrointestinal (TGI) possuem propriedades semelhantes aos príons, sendo capazes de se propagar de forma autorreplicativa e migrar da periferia para o cérebro. +4
Investigações experimentais conduzidas em modelos murinos (camundongos ICR) revelaram que, após a microinjeção de oligômeros de Aβ1-42 na parede gástrica e no cólon proximal, a proteína é rapidamente internalizada por neurônios colinérgicos do plexo mioentérico. Observou-se que, em um intervalo de um mês, essas sementes de Aβ não apenas permanecem nos locais de injeção, mas redistribuem-se para outras regiões do trato gastrointestinal, como o fundo gástrico e o jejuno. Este fenômeno sugere uma dinâmica de disseminação entérica que precede as manifestações neurológicas clássicas. +3
Ainda mais alarmante é a constatação de que, após um ano da exposição entérica inicial, os animais desenvolvem amiloidose cerebral e vagal disseminada. O nervo vago atua como uma via crítica de transporte retrógrado, permitindo que o Aβ alcance o tronco encefálico e, subsequentemente, áreas como o hipocampo e o córtex. Como consequência dessa translocação, os modelos animais apresentaram déficits cognitivos significativos, evidenciados em testes de memória espacial e reconhecimento de objetos, além de disfunções autonômicas, como alterações na motilidade gastrointestinal e aumento do apetite. +4
Esses achados corroboram a hipótese de que a carga de beta-amiloide pode se iniciar no TGI anos antes das manifestações clínicas da DA no SNC. A detecção precoce de alterações na reatividade neuronal entérica e no acoplamento neuromuscular pode, portanto, representar uma nova fronteira para o diagnóstico precoce e para o desenvolvimento de estratégias preventivas inovadoras, focadas em interromper a progressão da patologia antes que ela atinja o sistema nervoso central de forma irreversível. +4
Referência (ABNT): SUN, Yayi et al. Intra-gastrointestinal amyloid-β1-42 oligomers perturb enteric function and induce Alzheimer’s disease pathology. The Journal of Physiology, [s. l.], v. 598, n. 19, p. 4209-4223, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1113/JP279919. Acesso em: 9 mai. 2026.