O Eixo Cérebro-Intestino-Microbiota na Doença de Alzheimer: Além das Fronteiras do Sistema Nervoso Central

A Doença de Alzheimer (DA) é tradicionalmente compreendida como um distúrbio neurodegenerativo confinado ao cérebro, caracterizado pelo acúmulo de placas de beta-amiloide (Aβ) e emaranhados neurofibrilares de proteína tau. No entanto, evidências científicas contemporâneas, como as revisadas por Kowalski e Mulak (2019), sugerem que a patogênese da DA está profundamente ligada a perturbações no eixo cérebro-intestino-microbiota. Este sistema de comunicação bidirecional integra sinais neurais, imunológicos e endócrinos, permitindo que a microbiota intestinal influencie diretamente a função cerebral e a neurodegeneração. +4

A disbiose intestinal — a alteração na composição e diversidade dos microrganismos entéricos — induz o aumento da permeabilidade da barreira intestinal (fenômeno conhecido como “intestino permeável” ou leaky gut). Essa quebra de barreira facilita a translocação de bactérias e produtos derivados, como lipopolissacarídeos (LPS) e amiloides bacterianos, para a circulação sistêmica. Uma vez na circulação, esses agentes promovem uma ativação imune crônica de baixo grau, que culmina no comprometimento da barreira hematoencefálica e na promoção da neuroinflamação. O LPS, especificamente, tem a capacidade de promover a fibrilogênese amiloide e foi detectado no hipocampo de pacientes com DA, onde co-localiza com placas de Aβ. +4

Um conceito fascinante abordado no artigo é o papel dos amiloides bacterianos, como a proteína curli produzida pela Escherichia coli. Embora estruturalmente distintos dos amiloides do sistema nervoso central em sua sequência primária, eles compartilham similaridades na estrutura terciária. Através de um processo de mimetismo molecular, esses amiloides bacterianos podem atuar como sementes (seeds), desencadeando o dobramento incorreto e a agregação de proteínas do hospedeiro, como a Aβ e a alfa-sinucleína, em um processo de “seeading cruzado”. Além disso, a exposição intestinal a esses amiloides bacterianos “prepara” (priming) o sistema imune inato, exacerbando a resposta inflamatória à produção endógena de amiloide no cérebro. +4

A neuroinflamação, expressa pela ativação da microglia e astrócitos, é uma característica central da DA que leva à perda sináptica e morte neuronal. O estudo destaca que a microbiota influencia a maturação e o limiar de ativação da microglia, possivelmente através de metabólitos como os ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs). Em modelos animais, a ausência de microbiota (camundongos germ-free) resultou em uma redução significativa da patologia de Aβ cerebral e da ativação microglial, sugerindo que a presença da microbiota é necessária para o desenvolvimento pleno da doença. +3

Diante desses mecanismos, a modulação da microbiota intestinal via intervenções dietéticas, prebióticos ou suplementação de probióticos surge como uma fronteira terapêutica promissora para prevenir ou mitigar a progressão da DA. A compreensão de que a saúde neurológica começa no intestino redefine a abordagem clínica da demência, enfatizando a necessidade de estratégias que preservem a integridade da barreira intestinal e o equilíbrio microbiano. +2

Referência (ABNT):

KOWALSKI, Karol; MULAK, Agata. Brain-Gut-Microbiota Axis in Alzheimer’s Disease. Journal of Neurogastroenterology and Motility, [s. l.], v. 25, n. 1, p. 48-60, jan. 2019. DOI: 10.5056/jnm18087.

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