Inteligência e Sintomas Internalizantes em Adolescentes com Transtorno do Espectro Autista

A comorbidade de transtorno do espectro autista (TEA) e transtornos mentais é uma realidade complexa, com a prevalência de sintomas internalizantes, como ansiedade e depressão, sendo notavelmente alta em jovens com TEA. A relação entre o quociente de inteligência (QI) e esses sintomas internalizantes tem sido objeto de debate na literatura científica, com resultados inconsistentes. Para clarificar essa relação, uma meta-análise foi conduzida, investigando a correlação entre QI e ansiedade e depressão em adolescentes com TEA, ao mesmo tempo que explorava fatores metodológicos que podem contribuir para a inconsistência dos resultados.

As Duas Faces da Inteligência

A meta-análise encontrou uma associação moderada e negativa entre QI e ansiedade autorrelatada, indicando que a ansiedade é significativamente maior em jovens com QI mais baixo. Por outro lado, o estudo identificou uma pequena correlação positiva entre QI e depressão, sugerindo que níveis mais altos de QI estão associados a uma maior prevalência de sintomas depressivos.

Esses achados contraditórios podem ser explicados por mecanismos distintos que ligam a inteligência a cada sintoma. Para a ansiedade, a teoria sugere que um QI mais baixo pode estar associado a estratégias de enfrentamento menos eficazes e a uma dificuldade maior em expressar sentimentos, resultando em sintomas internalizados. Para a depressão, um QI mais elevado pode aumentar o risco de sintomas por meio de uma maior autoconsciência de déficits sociais, levando a uma autoestima mais baixa e a um sentimento de exclusão, especialmente em ambientes escolares regulares onde o apoio socioemocional pode ser insuficiente.

O Desafio da Avaliação e as Implicações Clínicas

A meta-análise ressalta a importância de fatores metodológicos, especialmente o papel do informante na avaliação dos sintomas. A correlação negativa entre QI e ansiedade só foi observada nos relatos dos próprios adolescentes, e não nos relatos de cuidadores. Essa discrepância sugere que os cuidadores podem subestimar a ansiedade em jovens com QI mais baixo , ou confundi-la com características do TEA, como déficits de comunicação. Por isso, o estudo defende que, na prática clínica, a capacidade de um adolescente autorrelatar seus sintomas deve ser estabelecida independentemente do seu QI.

Com base nos resultados, é fundamental que pais, escolas e clínicos estejam atentos ao risco de subestimar a ansiedade em jovens com QI mais baixo. Ao mesmo tempo, é crucial garantir que adolescentes com TEA e QI mais alto não sejam negligenciados em termos de apoio social e emocional, pois a falta de suporte adequado pode contribuir para o desenvolvimento de depressão. O estudo reforça a necessidade de abordagens de avaliação que incluam múltiplos informantes para construir um perfil de sintomas mais representativo.

Referência:

EDIRISOORIYA, M. et al. IQ and Internalising Symptoms in Adolescents with ASD. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 51, n. 10, p. 3887–3907, 2021.

Related posts

O Ciclo de Disfunção Interpessoal no Narcisismo Patológico: O Impacto em Parceiros e Familiares

Mídias Sociais e Saúde Mental: Uma Análise Científica de Benefícios, Riscos e Oportunidades no Cenário Digital Contemporâneo

A Dinâmica Sócio-Técnica da Plataformização: Codificação da Interação Social e a Construção da Socialidade Computada