O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento de impacto global, caracterizada classicamente por um conjunto de dificuldades comportamentais que engloba déficits na comunicação social, padrões repetitivos e interesses restritos. No âmago dessa condição, os desafios na interação social destacam-se como um fator central e altamente impactante, estando intrinsecamente atrelados a limitações severas na interpretação e manipulação de estados emocionais. Sob a ótica das neurociências contemporâneas, essas barreiras socioemocionais não representam meros desvios de conduta, mas derivam de uma complexa rede de disfunções neuroanatômicas e desequilíbrios neuroquímicos específicos. Avanços em neuroimagem funcional, análises de conectividade cerebral e investigações moleculares têm demonstrado que o processamento atípico de estímulos sociais em indivíduos autistas está diretamente associado a alterações estruturais e funcionais em estruturas corticais e subcorticais de processamento superior.
No nível subcortical e cortical profundo, a amígdala e a ínsula desempenham papéis fundamentais cujas alterações impactam diretamente a percepção interpessoal. A amígdala, estrutura central no reconhecimento de estímulos emocionais e leitura de sinalizações em contextos sociais, comumente apresenta padrões de hiperativação ou hipoativação no TEA. Essa oscilação funcional distorce a percepção de pistas cruciais de comunicação não verbal, tais como expressões faciais e intonações vocais, prejudicando a decodificação em tempo real dos estados afetivos alheios. Simultaneamente, a ínsula — responsável pela interocepção, percepção emocional e ressonância empática — exibe anomalias estruturais e funcionais que atenuam a capacidade de integrar adequadamente os sinais fisiológicos às respostas empáticas validadas. Consequentemente, o processamento de recompensas sociais e o engajamento motivacional encontram-se prejudicados por alterações adicionais no corpo estriado, especificamente no estriado ventral e no núcleo accumbens, o que diminui substancialmente o interesse intrínseco por interações e pela formação de vínculos duradouros.
Adicionalmente, falhas de conectividade e integração inter-hemisférica agravam o quadro de fragmentação da percepção social. O corpo caloso, principal via de comunicação entre os hemisférios cerebrais, frequentemente exibe anomalias estruturais no TEA. Essa desconexão parcial resulta em uma transferência ineficiente de dados entre o hemisfério direito, predominantemente associado ao processamento de nuances emocionais, e o hemisfério esquerdo, focado nas análises linguísticas e analíticas. Como consequência direta, o indivíduo manifesta uma marcada dificuldade em alinhar a expressão emocional ao conteúdo estritamente verbal de uma conversa. Essa fragmentação impede que os múltiplos elementos de uma situação social sejam sintetizados de forma coesa, gerando barreiras para a inferência de intenções e crenças alheias, faculdade também afetada por disfunções no processamento da teoria da mente no córtex parietal inferior, incluindo os giros angular e supramarginal.
No plano cortical anterior e temporal, os mecanismos de controle executivo e mapeamento biológico operam de forma atípica. O córtex pré-frontal ventromedial (CPFvm), encarregado de direcionar tomadas de decisão baseadas em dados afetivos, apresenta conectividade atípica com a amígdala, o que impede que as emoções atuem como guias eficientes para comportamentos adaptativos. Paralelamente, o córtex pré-frontal dorsolateral (CPFDL) demonstra atividade alterada, gerando prejuízos na flexibilidade cognitiva, no planejamento socio-comportamental e na inibição de respostas inadequadas, funções fundamentais para manter fluxos de conversação estáveis e respeitar normas sociais implícitas. A adequação comportamental frente a erros e conflitos em tempo real é dificultada por alterações no Córtex Cingulado Anterior (CCA) , enquanto anomalias no córtex orbitofrontal comprometem a valoração de recompensas sociais nas interações. Complementando esse circuito de prejuízos perceptivos, o sulco temporal superior (STS) manifesta reatividade alterada na análise de movimentos biológicos, como a direção do olhar e gestos , ao passo que o giro fusiforme apresenta hipoativação na identificação de identidades faciais. Essas disfunções somam-se a anomalias funcionais nos núcleos da base (estriado e globo pálido), que correlacionam o déficit de engajamento a estereotipias e comportamentos rígidos e repetitivos.
Esse intrincado panorama neuroanatômico é regulado por eixos neuroquímicos e modulações hormonais profundamente modificados no TEA. Níveis atípicos de serotonina (5-HT) exercem impacto direto na regulação do humor e na modulação social cotidiana, alterando a interpretação das interações em seus contextos de ocorrência. O sistema dopaminérgico, operante na via de recompensa via área tegmentar ventral (ATV) e núcleos da base, sinaliza de maneira atípica, reduzindo drasticamente a responsividade aos estímulos sociais benéficos. No topo dessa regulação, o sistema oxitocinal e o eixo hipotalâmico, responsáveis pela síntese e sinalização de neuropeptídeos cruciais como a oxitocina (o hormônio do vínculo social) e a vasopressina, encontram-se disfuncionais. A alteração nos níveis desses hormônios ou a desregulação de seus receptores biológicos correlacionam-se diretamente às severas barreiras na facilitação de comportamentos afiliativos, na empatia e na consolidação de laços afetivos. A compreensão aprofundada dessa interrelação sinérgica entre os desequilíbrios moleculares e as falhas de rede conectiva aponta caminhos promissores para intervenções futuras personalizadas, englobando desde a modulação farmacológica direcionada até terapias baseadas em neuroplasticidade, visando mitigar as barreiras de inclusão e garantir melhor adaptação psicossocial e qualidade de vida a esses indivíduos.
Referência (Padrão ABNT)
RODRIGUES, Fabiano de Abreu Agrela; LIMA, Marco Aurélio Brocolli. Difficulties in the social interaction of autistic individuals: a neuroscientific perspective on the interpretation and manipulation of emotions. International Journal of Health Science, São Paulo, v. 5, n. 12, p. 1-7, 2025. DOI: https://doi.org/10.22533/at.ed.1595122524028. Disponível em: https://doi.org/10.22533/at.ed.1595122524028. Acesso em: 24 maio 2026.