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Depressão: Um Desafio de Definição e Mensuração

by Redação CPAH

A depressão é um transtorno comum, debilitante e com potencial letal. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo vivem com depressão, e o transtorno é o maior contribuinte para a incapacidade global. Além disso, a depressão tem aumentado na última década e, de forma alarmante, adolescentes com transtorno depressivo maior têm uma probabilidade até 30 vezes maior de cometer suicídio. Apesar de ser uma ameaça de saúde pública, a definição e a compreensão do que constitui a depressão permanecem difíceis.

Uma das maiores dificuldades reside na sua definição e nos sistemas de classificação diagnóstica, como o DSM e o ICD. A confiabilidade entre avaliadores, mesmo entre profissionais experientes, é baixa, com o coeficiente κ (kappa) para a depressão estando na faixa questionável, tanto em adultos (0,25) quanto em crianças/adolescentes (0,28). Isso contrasta com a alta confiabilidade de outros diagnósticos, como Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Transtorno do Espectro Autista (TEA). A natureza episódica do transtorno é um fator que contribui para essa dificuldade, embora a confiabilidade do transtorno bipolar seja maior, apesar de também ser episódico.

Outro desafio é a delimitação entre o sofrimento humano normal e a depressão patológica. A alta taxa de resposta a placebos em ensaios clínicos com jovens, que se correlaciona inversamente com a gravidade da depressão e o número de centros envolvidos no ensaio, sugere que os critérios para depressão podem ser muito flexíveis em alguns estudos, incluindo casos que se recuperariam espontaneamente. Além disso, a depressão pode ser “situacional”, com sintomas que desaparecem em certos contextos (por exemplo, durante as férias de verão) e retornam em outros, algo que os sistemas de classificação atuais não conseguem acomodar.

A heterogeneidade da depressão é um problema central. A depressão pode ser melhor vista como uma mistura heterogênea de problemas, e não como um único transtorno com diferentes níveis de gravidade. A ideia de subtipos de depressão não é nova, remontando a descrições de melancolia e depressão reativa no início do século XX. Contudo, o desafio sempre foi a falta de meios confiáveis para detectar esses subtipos. Atualmente, novas abordagens científicas, como neuroimagem, estudos geneticamente sensíveis e monitoramento ecológico momentâneo (EMA), estão ganhando força para identificar subtipos com base em biomarcadores e fatores ambientais.

Embora alguns defendam a eliminação do termo “depressão” devido às suas imprecisões, essa medida poderia gerar grande confusão na ausência de categorias ou dimensões de substituição adequadas. A história da medicina, como no caso das leucemias, sugere que categorias inicialmente amplas podem, com tempo e pesquisa, ser refinadas em subtipos mais específicos, validados por marcadores genéticos e outros. O termo “depressão” deve, por enquanto, ser entendido como uma forma de resumir um conjunto de fenômenos, na esperança de que futuras pesquisas permitam uma compreensão mais detalhada e precisa da doença.

Referência:

Stringaris, A. (2017). Editorial: What is depression? Journal of Child Psychology and Psychiatry, 58(12), 1287-1289. https://doi.org/10.1111/jcpp.12844

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