Início OpiniãoComportamentos Prosocial e Antissocial em Jogos Econômicos: Uma Análise Neurocientífica e Cognitiva

Comportamentos Prosocial e Antissocial em Jogos Econômicos: Uma Análise Neurocientífica e Cognitiva

por Redação CPAH

O estudo do comportamento humano em jogos econômicos tem oferecido insights valiosos sobre os fatores que influenciam ações prosociais e antissociais. Enquanto o comportamento prosocial, que beneficia os outros, tem sido amplamente investigado, o lado antissocial, que prejudica, recebeu menos atenção. Este artigo explora as nuances desses comportamentos, integrando perspectivas da economia, psicologia e neurociência.

Uma vertente proeminente da pesquisa foca na base cognitiva dos comportamentos prosocial e antissocial, utilizando uma perspectiva de processo dual que distingue entre processos cognitivos automáticos/intuitivos e controlados/deliberativos. Pesquisas indicam que a cooperação em jogos de bens públicos (PGG) é maior quando os indivíduos são forçados a decidir rapidamente, sugerindo que as decisões intuitivas promovem mais cooperação do que as deliberativas. Isso está alinhado com a Hipótese das Heurísticas Sociais, que postula que os seres humanos internalizam comportamentos sociais benéficos em interações de longo prazo na vida real e os aplicam intuitivamente em encontros únicos, mesmo que sejam desvantajosos.

A neurociência tem contribuído significativamente para essa compreensão. Estudos de ressonância magnética funcional (fMRI) mostram que escolhas prosociais, quando não são custosas, estão associadas a uma maior ativação nos córtex pré-frontais ventromedial e dorsomedial, especialmente em indivíduos classificados como “proselfs” (orientados para si mesmos). Isso sugere que decisões prosociais são mais intuitivas para indivíduos prosociais, mas exigem deliberação mais ativa em indivíduos proselfs. Além disso, a revisão de evidências sobre o papel do autocontrole em decisões prosociais e antissociais destaca a importância do córtex pré-frontal lateral na codificação de comportamentos de cooperação e punição.

A relação entre estilos cognitivos e comportamentos sociais é complexa. Um estilo cognitivo mais deliberativo (em oposição ao intuitivo) está associado a uma menor influência da “inveja” (aversão à desigualdade desvantajosa) na tomada de decisões. A deliberação pode estar ligada a um “altruísmo leve” e ao autointeresse, enquanto a intuição pode estar relacionada a preferências tanto igualitárias quanto maliciosas.

A punição, seja para recompensar cooperadores ou penalizar não cooperadores, também é uma área de pesquisa prolífica. A “punição antissocial”, que visa cooperadores, é mais rara em regimes de punição centralizada, mas frequentemente observada quando todos os membros do grupo podem punir uns aos outros. Estudos mostram que a meditação da compaixão de longo prazo pode reduzir a probabilidade de punir proponentes avarentos em jogos, sugerindo um forte componente de malícia na punição de segunda parte. No entanto, na punição de terceiros, a motivação moralista parece ser mais influente do que a malícia ou a vingança. A ativação do estriado bilateral em fMRI para punição e compensação sugere que as pessoas derivam satisfação de ambos os comportamentos.

A competição intergrupal também influencia o comportamento social, com evidências de que aumenta a cooperação intragrupo. Em crianças, o favoritismo intragrupo é observado desde cedo, mas à medida que envelhecem, ele pode ser substituído por um senso mais generalizado de justiça. Crenças e emoções também são fatores-chave, influenciando a confiança, a reextensão da confiança e até mesmo o engano em interações. A ativação cerebral pode revelar a intenção verídica de enganar os outros para aumentar o próprio ganho, independentemente de envolver mentira ou verdade quando a mensagem não é esperada para ser acreditada.

Por fim, a pesquisa também explora a relação entre biomarcadores como a razão 2D:4D (indicador da exposição pré-natal a testosterona vs. estrogênios) e o altruísmo. Indivíduos caucasianos com uma razão digital intermediária tendem a ser mais altruístas, embora esse resultado não se mantenha em amostras não caucasianas, sugerindo uma interação entre ambiente e hormônios na formação do comportamento altruísta.

Esses estudos multidisciplinares destacam a complexidade do comportamento social humano, revelando a interação entre processos cognitivos, bases neurobiológicas e fatores contextuais na forma como ajudamos ou prejudicamos uns aos outros.

Referência:

Brañas-Garza, P., Espin, A. M., Herrmann, B., Kujal, P., & Nagel, R. (2016). Editorial: Prosocial and Antisocial Behavior in Economic Games. 

Frontiers in Behavioral Neuroscience, 10, 243. 

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