A prevalência de Transtornos Mentais Comuns (TMC) — quadros clínicos caracterizados por sintomas somáticos, ansiedade, depressão e insônia de intensidade subclínica — tem se consolidado como um grave problema de saúde pública, especialmente no contexto do ensino superior. Dentre os diferentes agrupamentos universitários, os estudantes das ciências da saúde encontram-se expostos a uma carga estressora acentuada, decorrente de uma extensa carga horária cronológica, alta densidade programática e o contacto precoce com o sofrimento humano e ambientes hospitalares. Compreender a distribuição epidemiológica e as assimetrias sociodemográficas desses agravos psicopatológicos é um passo fundamental para o delineamento de estratégias institucionais de intervenção precoce e suporte à saúde mental coletiva.
Um estudo epidemiológico transversal conduzido com uma amostra representativa de 295 acadêmicos matriculados em cursos de graduação da área da saúde revelou dados alarmantes quanto à magnitude dessa problemática. Utilizando como ferramenta de rastreio o questionário de autorrelato Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20) — validado internacionalmente para a detecção de suspeição de sofrimento psíquico —, a investigação constatou uma prevalência global de TMC de 29,83% na população estudada. Esse índice ratifica o panorama de alta vulnerabilidade psíquica a que este grupo está submetido, evidenciando que quase um terço dos futuros profissionais de saúde apresenta manifestações clínicas de desgaste mental e emocional ao longo de sua formação.
Ao estratificar os dados obtidos com base em variáveis sociodemográficas, a análise estatística desvelou uma disparidade marcante e estatisticamente significativa no que concerne à distribuição dos transtornos por gênero. Constatou-se que a prevalência de TMC entre as estudantes do sexo feminino atingiu o patamar de 36,04%, um valor substancialmente superior aos 16,67% observados entre os estudantes do sexo masculino. Essa assimetria de gênero na manifestação de morbidades psíquicas menores corrobora a literatura científica clássica e aponta para a persistência de determinantes psicossociais diferenciados — tais como a dupla jornada, pressões socioculturais e maior vulnerabilidade expressiva ao estresse crônico — que impactam de forma desproporcional as mulheres no ambiente universitário.
Em contrapartida, as análises de correlação entre os escores de saúde mental e outras variáveis demográficas e acadêmicas não demonstraram a mesma força de associação. Não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas na prevalência de TMC quando avaliadas as faixas etárias dos estudantes, o estado civil ou o período/ano do curso em que o discente estava matriculado. Essa homogeneidade sugere que o estresse e o sofrimento psíquico não se restringem a um momento específico da graduação (como o início do ciclo básico ou o internato/estágio final), mas configuram-se como um fenômeno transversal que perpassa toda a trajetória acadêmica da área da saúde, exigindo um olhar contínuo por parte das políticas de assistência estudantil.
Diante dos achados expostos, torna-se evidente que os Transtornos Mentais Comuns representam uma realidade epidemiológica expressiva no ecossistema universitário da saúde, com um recorte de gênero bem delimitado. A alta prevalência identificada e a vulnerabilidade acentuada do público feminino acendem um alerta para a necessidade premente de reestruturação das práticas pedagógicas e de consolidação de núcleos de apoio psicopedagógico permanentes. Investir na saúde mental do estudante de saúde significa, em última análise, salvaguardar a qualidade do cuidado que esses futuros profissionais prestarão à sociedade.
Referência
SILVA, A. B. et al. Prevalência de transtornos mentais comuns em estudantes universitários da área da saúde e fatores associados. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 19, n. 9, p. 5064, maio 2022.