A compreensão contemporânea das bases etiológicas e fisiopatológicas dos transtornos psiquiátricos passa por uma profunda transição paradigmática. Historicamente condicionados a modelos puramente baseados em desequilíbrios de neurotransmissores centrais e determinantes psicossociais, os transtornos mentais passam agora a ser decodificados sob uma lente sistêmica e translacional. No cerne dessa revolução científica encontra-se o eixo microbioma-intestino-cérebro (microbiome-gut-brain axis), uma rede de comunicação bidirecional mediada por vias metabólicas, endócrinas, imunológicas e neurais que se estende desde a vida uterina e é moldada por fatores como tipo de parto, dieta, estilo de vida e estresse adaptativo. Evidências científicas de alta qualidade robustecem a premissa de que a composição e a funcionalidade do microbioma intestinal (MI) divergem sistematicamente entre indivíduos neurotípicos e populações clínicas, atribuindo à disbiose microbiana o status de potencial biomarcador biológico em uma área cronicamente carente de parâmetros diagnósticos objetivos e não invasivos.
Uma das maiores contribuições analíticas desse campo emerge de revisões sistemáticas integrativas conduzidas de acordo com as rigorosas diretrizes do protocolo PRISMA 2020 e validadas por ferramentas de avaliação de risco de viés, como as preconizadas pelo National Institutes of Health (NIH). Ao agregar dados fenotípicos e metagenômicos de grandes coortes clínicas cujos diagnósticos psiquiátricos foram meticulosamente padronizados com base nos critérios taxonômicos do DSM-IV e DSM-V, os pesquisadores demonstraram de forma inequívoca que a disbiose se manifesta de modo transversal nos táxons superiores, apresentando um desbalanceamento pervasivo na proporção mútua dos filos Firmicutes, Bacteroidetes e Actinobacteria. Todavia, longe de constituir um padrão uniforme e indistinto, o deslocamento ecológico da microbiota revela flutuações e assinaturas moleculares que guardam correlações altamente específicas com o fenótipo clínico de cada transtorno psiquiátrico avaliado.
No âmbito do Transtorno do Espectro Autista (TEA), por exemplo, os achados metagenômicos revelam reduções reprodutíveis nas abundâncias relativas dos filos Firmicutes (14,79%) e Bacteroidetes (13,29%), em concomitância com expressivos incrementos nas famílias Bifidobacteriaceae (15,86%) e Eggerthellaceae (15,50%). Ao nível de gênero, detectam-se elevações proeminentes em Barnesiella e Parabacteroides. Diferentemente de condições em que os desvios microbianos decorrem de privações nutricionais agudas, essa assinatura taxonômica no autismo demonstra estabilidade replicável entre coortes independentes e faixas etárias distintas, consolidando-se como uma assinatura diagnosticamente informativa. Em contrapartida, o perfil dos Transtornos do Humor (incluindo o Transtorno Depressivo Maior e o Transtorno Bipolar) exibe trajetórias ecológicas divergentes, sendo predominantemente marcado pela expansão populacional da família Christensenellaceae (18,1%) e contração severa de táxons produtores de ácidos graxos de cadeia curta, notadamente a família Ruminococcaceae (12,0%).
Paralelamente, distúrbios neurocomportamentais de alta prevalência, como o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), exibem desequilíbrios característicos na relação Firmicutes/Bacteroidetes (com flutuações quantificadas em aumentos de 49,8% e reduções de 56,6%, respectivamente), o que reforça a natureza transdiagnóstica e metabólica desse eixo. No espectro da Esquizofrenia, o panorama biológico torna-se marcadamente complexo: observam-se elevações acentuadas nas famílias Lachnospiraceae, Christensenellaceae e Enterobacteriaceae (com variações entre 11% e 28%), acompanhadas por reduções críticas no gênero Akkermansia e na família Turicibacteraceae (9% a 28%), emergindo o gênero Succinivibrio como um dos componentes mais prevalentes nessa população clínica. Esse mosaico de alterações bacterianas ilustra como a gravidade de sintomas psicóticos e déficits cognitivos correlaciona-se com disfunções no perfil pró-inflamatório e de barreira intestinal mediado por esses microrganismos.
A expressão máxima da quebra da homeostase intestinal, contudo, manifesta-se nos Transtornos Alimentares, como a Anorexia Nervosa e o Transtorno da Compulsão Alimentar. Nessas condições, o ecossistema microbiótico sofre reduções profundas de diversidade induzidas pela desnutrição crônica ou por comportamentos alimentares bizarros, resultando na contração drástica do filo Firmicutes (42,7%) e dos gêneros Lactobacillus (48,5%), Roseburia (42,7%) e Clostridium (47,4%), além de uma eliminação total (100%) do gênero mucolítico protetor Akkermansia. Esse esvaziamento ecológico é parcialmente compensado pelo aumento compensatório de organismos metanogênicos, como o gênero Methanobrevibacter (41,5%), o qual maximiza a extração energética a partir de dietas restritivas hipocalóricas. Da mesma forma, em quadros severos de Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT), reporta-se o colapso severo de filos fundamentais para a regulação imune e preservação da barreira digestiva, como Actinobacteria, Lentisphaerae e Verrucomicrobia.
Diante do exposto, a translação clínica dessas assinaturas baseadas em inteligência artificial e algoritmos de aprendizado de máquina (machine learning) oferece uma perspectiva promissora para o desenho de painéis microbianos multidimensionais de alta acurácia diagnóstica, capazes de diferenciar subtipos de doenças e prever a gravidade sintomática. Todavia, a comunidade científica deve discriminar rigorosamente as alterações que funcionam como assinaturas estáveis e específicas daquelas que constituem padrões transdiagnósticos compartilhados — decorrentes de inflamação periférica difusa, estresse crônico ou padrões dietéticos atípicos comuns a múltiplas psicopatologias. O avanço seguro desse ecossistema em direção a ferramentas clínicas validadas e acionáveis exige o fomento urgente de estudos longitudinais prospectivos e mecanísticos que padronizem as técnicas de amostragem e pipelines de bioinformática, transformando o perfilamento microbiótico em um pilar adjuvante indispensável para uma psiquiatria de precisão, preventiva e personalizada.
Referência (Normas ABNT)
ESPINOSA, Paula; HINOJOSA-FIGUEROA, Mario S.; VALLEJO, Paula; PÉREZ, Felipe; BURNEO, Gabriela; VILLARREAL, Coralía; RODAS, Jose A.; LEON-ROJAS, Jose E. Microbial dysbiosis as a diagnostic marker in psychiatric disorders: a systematic review of gut-brain axis disruptions. Frontiers in Neuroscience, v. 20, n. 1728473, p. 1-15, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.3389/fnins.2026.1728473. Acesso em: 24 maio 2026.