O Transtorno do Espectro Autista (TEA) configura-se como uma condição complexa do neurodesenvolvimento humano, cuja manifestação clínica central é demarcada por prejuízos persistentes na comunicação social e na interação interpessoal, associados a padrões restritos e repetitivos de comportamento. No cerne das barreiras adaptativas vivenciadas por indivíduos inseridos no espectro, as severas dificuldades de inserção psicosocial encontram-se intimamente ligadas a déficits estruturais na interpretação e na manipulação de estados emocionais, tanto próprios quanto alheios. Sob a perspectiva das neurociências e da neurobiologia molecular contemporâneas, tais limitações interpretativas superam abordagens de cunho puramente comportamental, revelando-se como reflexos diretos de atipicidades na conectividade sináptica, disfunções neuroanatômicas regionais e desequilíbrios na modulação por neurotransmissores de redes corticais e subcorticais integradas. (RODRIGUES; LIMA, 2025).
A análise topográfica das estruturas subcorticais profundas no TEA evidencia que a amígdala e a ínsula atuam como eixos primários da reatividade socioemocional disfuncional. A amígdala, núcleo encefálico essencial para a atribuição de valor emocional a estímulos ambientais e para a leitura instantânea de sinalizações não verbais, comumente apresenta padrões acentuados de hipoativação ou hiperativação nos indivíduos afetados, comprometendo de forma severa o processamento de expressões faciais e de pistas prosódicas na fala. Paralelamente, a ínsula exibe alterações anatômicas e de conectividade funcional que prejudicam a interocepção e a ressonância empática, limitando a capacidade do sujeito de correlacionar estados fisiológicos internos à identificação de sentimentos nos pares. Essa desregulação basal estende-se ao sistema de recompensa estriatal, englobando o estriado ventral e o núcleo accumbens; a sinalização atípica nessas vias diminui drasticamente a motivação social intrínseca, reduzindo o valor de reforço biológico normalmente atribuído à formação de vínculos afetivos e ao engajamento interativo diário. (RODRIGUES; LIMA, 2025).
As disfunções na transmissão de informações macroestruturais e na sincronização biológica inter-hemisférica também desempenham um papel agravante na fragmentação perceptiva social no espectro autista. O corpo caloso, principal feixe de substância branca encarregado da integração inter-hemisférica, demonstra com frequência reduções volumétricas e anomalias microestruturais na população com TEA. Essa desconexão estrutural parcial prejudica o fluxo bidirecional de dados entre o hemisfério cerebral direito — responsável pelo processamento holístico de nuances emocionais, metáforas e pragmática — e o hemisfério esquerdo, voltado à decodificação literal, léxica e gramatical da linguagem. Como consequência direta, indivíduos autistas encontram extrema dificuldade em conciliar e alinhar a expressão de suas próprias emoções ao conteúdo verbal estrito de seus discursos, além de manifestarem falhas profundas na atribuição de estados mentais e crenças de terceiros (Teoria da Mente), uma disfunção corroborada pelo processamento anômalo observado no córtex parietal inferior, englobando especificamente os giros angular e supramarginal. (RODRIGUES; LIMA, 2025).
No plano do processamento cortical superior e do controle executivo, a coordenação de comportamentos sociais complexos é substancialmente afetada por atipicidades nas divisões do córtex pré-frontal e em áreas associativas temporais. O córtex pré-frontal ventromedial (CPFvm), encarregado de guiar os processos de tomada de decisão baseando-se em marcadores somáticos e afetivos, exibe circuitos de conectividade alterados com a amígdala, obstruindo a transposição de dados emocionais em ações adaptativas eficazes. Simultaneamente, o córtex pré-frontal dorsolateral (CPFDL) opera com funcionalidade atípica, o que se traduz clinicamente em rigidez cognitiva, dificuldades no planejamento estratégico de condutas interpessoais e falhas no controle inibitório. A incapacidade de monitorar e corrigir desvios comportamentais em tempo real é acentuada por disfunções no Córtex Cingulado Anterior (CCA), ao passo que a avaliação do valor de troca das interações em andamento sofre prejuízos no córtex orbitofrontal. Adicionalmente, o sulco temporal superior (STS) e o giro fusiforme demonstram ativações anômalas, comprometendo, respectivamente, a análise fina de movimentos biológicos corporais (como o direcionamento do olhar) e o reconhecimento de identidades faciais, enquanto alterações funcionais nos núcleos da base (estriado e globo pálido) correlacionam o deficit social à eclosão de estereotipias motoras e à inflexibilidade comportamental. (RODRIGUES; LIMA, 2025).
Esse intrincado panorama de alterações de conectividade de redes neurais é orquestrado e modulado por severos desequilíbrios nos eixos neuroquímicos e nos sistemas neuroendócrinos centrais. Variações nos níveis basais e no processamento da serotonina (5-HT) comprometem diretamente a regulação do humor e a estabilidade das respostas comportamentais em contextos sociais voláteis. O sistema dopaminérgico, operante através de projeções da área tegmentar ventral (ATV) e dos núcleos da base, exibe respostas atenuadas a estímulos sociais, direcionando preferencialmente o foco do indivíduo para interesses restritos e repetitivos que forneçam maior previsibilidade e compensação neuroquímica imediata. No topo dessa pirâmide regulatória, disfunções agudas no eixo hipotalâmico e na sinalização de neuropeptídeos fundamentais, como a oxitocina e a vasopressina, alteram drasticamente a cognição social. A escassez de ligação ou a desregulação dos receptores desses hormônios impede a facilitação natural de comportamentos afiliativos, o estabelecimento de laços de confiança e o desenvolvimento espontâneo da empatia. O detalhamento científico dessas disfunções integradas destaca a urgência de abordagens que considerem a neurobiologia subjacente para o desenvolvimento de terapêuticas focadas na neuroplasticidade e no suporte adaptativo individualizado. (RODRIGUES; LIMA, 2025).
Referência
RODRIGUES, Fabiano de Abreu Agrela; LIMA, Marco Aurélio Brocolli. Difficulties in the social interaction of autistic individuals: a neuroscientific perspective on the interpretation and manipulation of emotions. International Journal of Health Science, São Paulo, v. 5, n. 12, p. 1-7, 2025. DOI: https://doi.org/10.22533/at.ed.1595122524028. Disponível em: https://doi.org/10.22533/at.ed.1595122524028. Acesso em: 24 maio 2026.