O Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem sido amplamente estudado sob a ótica de seus critérios diagnósticos nucleares, que envolvem restrições na comunicação social, barreiras na interação interpessoal e padrões de comportamento rígidos. No entanto, investigações contemporâneas na intersecção da psicologia clínica e da neurodivergência têm voltado os holofotes para uma resposta fenotípica adaptativa e complexa: o mascaramento social (social camouflaging). Este constructo descreve um conjunto de estratégias cognitivas e comportamentais — divididas em mascaramento estrito (masking), compensação (compensation) e assimilação (assimilation) — empregadas de forma consciente ou inconsciente por indivíduos autistas para ocultar traços neurodivergentes e emular competências sociais neurotípicas. Longe de ser uma simples encenação teatral ou escolha deliberada de papel social, as evidências apontam que o mascaramento se estrutura como um mecanismo profundo de enfrentamento, impulsionado por altos níveis de ansiedade e pela necessidade de sobrevivência psicossocial e adequação em ambientes majoritariamente hostis à diversidade cognitiva. (PYSZKOWSKA, 2024).
A dinâmica conceitual que separa o mascaramento social verificado no autismo dos sintomas clássicos observados no Transtorno de Ansiedade Social (TAS) reside na etiopatogenia e no custo biológico de cada processo. Embora ambas as condições compartilhem manifestações fenotípicas superficiais correlacionadas ao medo crônico do julgamento público e à evitação social, os determinantes cognitivos subjacentes são qualitativamente distintos. Indivíduos diagnosticados isoladamente com TAS utilizam estratégias de segurança e evitação baseadas em distorções cognitivas sobre o próprio desempenho, mas retêm a automação dos canais basais de processamento pragmático e comunicação não verbal. Em contrapartida, no TEA (e em quadros com diagnóstico duplo), o mascaramento é uma computação de alta sobrecarga cortical: o indivíduo precisa deduzir logicamente regras de contato visual, prosódia, expressões faciais e dinâmica de conversação que não foram automatizadas biologicamente pelo seu neurodesenvolvimento. Portanto, enquanto no TAS a reatividade está atrelada à ansiedade de desempenho, no espectro autista o mascaramento configura-se como um esforço exaustivo de tradução cultural mútua simultânea. (PYSZKOWSKA, 2024).
Esse esforço cognitivo contínuo e a alocação maciça de recursos atencionais cobram um preço severo à homeostase do sistema nervoso, culminando na manifestação do burnout autista. O burnout autista é uma síndrome incapacitante distinta da depressão clínica clássica, caracterizada por uma exaustão física, mental e emocional cumulativa, acompanhada por um declínio agudo nas funções executivas e na capacidade de tolerar estímulos sensoriais. A necessidade perene de sustentar o mascaramento em ambientes acadêmicos, profissionais e familiares exaure os estoques de energia adaptativa, forçando o organismo a um estado de colapso regulatório. O indivíduo perde temporariamente habilidades previamente adquiridas — como a autorregulação do humor e a própria fala em casos extremos —, necessitando de isolamento social absoluto e prolongado para tentar reestabelecer o equilíbrio sináptico e metabólico. O modelo conceitual derivado de análises psicométricas contemporâneas valida que o mascaramento atua como o principal predetor mediador para a eclosão do burnout, demonstrando que a suposta “funcionalidade social” alcançada por meio da camuflagem mascara uma profunda crise inflacionária na saúde mental do indivíduo. (PYSZKOWSKA, 2024).
Ademais, a vulnerabilidade psicossocial desses sujeitos é amplificada pelas pressões impostas pelo estigma público percebido e pela internalização desse viés depreciativo sob a forma de autoestigma. A percepção de que a sociedade pune e marginaliza desvios de comportamento neurotípico atua como o principal gatilho ambiental para a manutenção e o refinamento das estratégias de camuflagem. No entanto, ao forçar-se a desempenhar um papel artificial contínuo, o indivíduo passa a experimentar processos de fusão cognitiva e alienação de si mesmo, solidificando o autoestigma — a internalização das noções de que sua verdadeira essência biológica é inadequada, defeituosa ou inferior. Esse ciclo vicioso estabelece uma correlação direta em que a ansiedade social atua tanto como impulsionadora do mascaramento quanto como subproduto crônico do medo constante de ter sua identidade autêntica exposta, minando os pilares da autoestima e da autoaceitação do indivíduo inserido no espectro. (PYSZKOWSKA, 2024).
A compreensão aprofundada das dinâmicas do mascaramento social e de seu desfecho no burnout autista exige uma mudança radical de paradigma nos campos do diagnóstico clínico e das políticas públicas de inclusão. Critérios diagnósticos e ferramentas de triagem baseados puramente na observação de déficits comportamentais superficiais falham sistematicamente em identificar indivíduos de alta performance cognitiva — especialmente fêmeas e adultos — que mascaram eficientemente seus sintomas, atrasando o acesso a suportes adequados até que o colapso do burnout ocorra. Torna-se imperativo que profissionais da saúde e instituições de ensino descontinuem intervenções focadas na supressão forçada de comportamentos autistas inofensivos (como estereotipias autorregulatórias), pois tais práticas forçam o indivíduo ao mascaramento exaustivo. O desenho terapêutico moderno e ético deve priorizar a mitigação de estressores ambientais e sensoriais, a validação da identidade neurodivergente e a criação de espaços sociais seguros e previsíveis, transformando a meta terapêutica da busca obsessiva por uma normalidade superficial para a promoção real de autonomia, saúde mental e dignidade existencial. (PYSZKOWSKA, 2024).
Referência (Padrão ABNT)
PYSZKOWSKA, Anna. It is More Anxiousness than Role-playing: Social Camouflaging Conceptualization Among Adults on the Autism Spectrum Compared to Persons with Social Anxiety Disorder. Journal of Autism and Developmental Disorders, New York, v. 55, p. 3154–3166, jun. 2025. DOI: https://doi.org/10.1007/s10803-024-06416-0. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s10803-024-06416-0. Acesso em: 24 maio 2026.

