A interseção entre o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e a Dependência de Internet (DI) representa um desafio crescente para a saúde pública na era digital. Indivíduos diagnosticados com TDAH apresentam uma vulnerabilidade biológica e comportamental significativamente maior ao uso problemático de tecnologias, uma relação que transcende a mera coexistência de sintomas. Conforme investigado por Liu et al. (2026), essa associação não é direta, mas sim orquestrada por uma complexa rede de mediadores psicofisiológicos, onde a disfunção executiva e os distúrbios do sono desempenham papéis cruciais na manutenção do ciclo de dependência.
A disfunção executiva — caracterizada por déficits na inibição de resposta, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva — atua como o principal mecanismo condutor entre os sintomas de TDAH e a DI. Indivíduos com TDAH frequentemente buscam o ambiente digital como uma forma de automedicação ou gratificação instantânea devido à sua sensibilidade alterada à recompensa. A incapacidade de exercer controle inibitório eficaz sobre o uso da internet exacerba a dificuldade em desengajar-se de estímulos digitais altamente estimulantes, resultando em um comportamento aditivo que compromete o funcionamento adaptativo. O estudo de Liu et al. (2026) demonstra que a disfunção executiva não apenas correlaciona-se com o TDAH, mas serve como uma via estrutural que explica como a desatenção e a impulsividade se traduzem em dependência tecnológica.
Adicionalmente, a insônia surge como um mediador paralelo e complementar nesta dinâmica. A relação entre TDAH e distúrbios do sono é amplamente documentada, mas sua contribuição para a DI revela um aspecto crítico: o uso noturno da internet é frequentemente utilizado como uma estratégia (embora contraproducente) para lidar com a dificuldade em iniciar o sono ou como uma fuga do tédio noturno. Essa vigília prolongada sob exposição à luz azul e estimulação cognitiva prejudica a arquitetura do sono, o que, por sua vez, degrada ainda mais as funções executivas no dia seguinte, criando um feedback positivo pernicioso que consolida a dependência.
Um ponto de destaque na pesquisa é o papel moderador da atividade física. Liu et al. (2026) observaram que o impacto negativo do TDAH na dependência de internet é significativamente atenuado em indivíduos que mantêm níveis elevados de exercício físico. A atividade física é conhecida por estimular a neuroplasticidade e aumentar a disponibilidade de dopamina e noradrenalina no córtex pré-frontal, mimetizando de certa forma os efeitos de tratamentos farmacológicos para o TDAH. Portanto, o exercício atua como um fator de proteção, fortalecendo as funções executivas e melhorando a qualidade do sono, o que efetivamente reduz a “força” da conexão entre os sintomas de TDAH e o comportamento aditivo digital.
Em suma, a compreensão de que o TDAH predispõe à dependência de internet através da disfunção executiva e da insônia permite o desenvolvimento de intervenções clínicas mais assertivas. Estratégias que visem não apenas a redução do tempo de tela, mas o fortalecimento das funções executivas e a higiene do sono, são essenciais. A inclusão da atividade física como um pilar terapêutico adjuvante oferece uma via acessível e eficaz para mitigar os riscos associados ao TDAH no contexto de uma sociedade hiperconectada.
Referência (ABNT):
LIU, F. et al. The interplay between attention deficit/hyperactivity disorder and internet addiction: executive dysfunction and insomnia as mediators and the role of physical activity. Frontiers in Psychiatry, [s. l.], v. 17, n. 1737793, p. 1-13, 3 fev. 2026. DOI: 10.3389/fpsyt.2026.1737793.

