A Sociologia do Gaslighting: Poder, Desigualdade e a Manipulação da Realidade

O fenômeno do gaslighting, frequentemente confinado aos domínios da psicologia individual como uma tática de manipulação interpessoal, exige uma análise sociológica profunda para que se compreenda sua eficácia e persistência. Definido como um tipo de abuso psicológico que visa fazer com que a vítima pareça ou se sinta “louca”, criando um ambiente surreal, o gaslighting não opera em um vácuo; ele é alimentado por desigualdades sociais estruturais. De acordo com Sweet (2019), o gaslighting deve ser entendido como um fenômeno sociológico enraizado em disparidades de poder, especialmente de gênero, onde o agressor mobiliza estereótipos culturais e desigualdades institucionais para erodir o senso de realidade da vítima. Ao associar a feminilidade à irracionalidade e à instabilidade emocional, o perpetrador utiliza uma “infraestrutura de suporte” social que valida sua versão dos fatos em detrimento da narrativa da vítima, tornando o abuso uma forma de controle social tecnicamente sofisticada.

A eficácia do gaslighting em contextos de violência doméstica revela mecanismos que ultrapassam a simples mentira ou negação. O abuso torna-se consequencial quando o agressor consegue isolar a vítima e manipular o ambiente de modo que as instituições — como o sistema judiciário, a polícia e os serviços de saúde mental — tornem-se cúmplices involuntários da realidade distorcida. Segundo Sweet (2019), agressores utilizam vulnerabilidades estruturais relacionadas à raça, nacionalidade e sexualidade para intensificar a tática. Por exemplo, ameaças de deportação para vítimas imigrantes ou a exploração do medo de brutalidade policial em comunidades negras são formas de “mobilizar o contexto” para silenciar a vítima. Assim, o gaslighting não é apenas um conflito entre dois indivíduos, mas uma execução de poder que reflete e reforça hierarquias sociais mais amplas, onde a credibilidade da vítima é sistematicamente minada por sua posição social.

Para que as intervenções de proteção às vítimas sejam eficazes, é imperativo que o gaslighting seja reconhecido além de sua sintomatologia psicológica. A trajetória da vítima em busca de ajuda frequentemente a coloca em situações onde ela precisa provar sua sanidade para ser acreditada, um processo que Sweet (2019) identifica como uma extensão do próprio abuso dentro das instituições. Quando terapeutas ou assistentes sociais focam exclusivamente na “codependência” ou em patologias individuais, podem ignorar as táticas deliberadas de manipulação da realidade exercidas pelo agressor. Em última análise, desarticular o gaslighting exige uma mudança de paradigma: reconhecer que a “loucura” atribuída à vítima é, na verdade, uma construção social produzida pelo abuso e sustentada pela desigualdade. Somente ao endereçar as raízes sociológicas do poder e do privilégio será possível restaurar a autonomia e a voz daqueles que tiveram sua realidade sequestrada.

Referência (ABNT):

SWEET, Paige L. The Sociology of Gaslighting. American Sociological Review, v. 84, n. 5, p. 851-875, out. 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0003122419874843.

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