A compreensão da arquitetura genética das doenças cardiovasculares (DCV) experimentou uma mudança de paradigma com a consolidação dos Estudos de Associação Genômica Ampla (GWAS). Esta abordagem permite a exploração imparcial de variantes genéticas comuns em todo o genoma, revelando que as DCV, como a doença arterial coronariana (DAC), a fibrilação atrial e a insuficiência cardíaca, são fenótipos poligênicos complexos. Ao identificar loci de risco que não eram anteriormente associados a caminhos fisiopatológicos conhecidos, o GWAS tem fornecido novos insights sobre os mecanismos biológicos subjacentes à saúde cardiovascular, permitindo a transição de um modelo de risco puramente clínico para um modelo integrado que inclui a suscetibilidade molecular (WALSH et al., 2023).
A utilidade dos achados de GWAS estende-se para além da mera identificação de genes; ela possibilita a construção de Escores de Risco Poligênico (PRS). Os PRS agregam o efeito cumulativo de milhares de variantes de nucleotídeo único (SNVs) para quantificar o risco genético individual, permitindo a estratificação de pacientes em diferentes níveis de vulnerabilidade. Na prática clínica, isso significa que indivíduos com alta carga genética para DAC podem ser identificados precocemente, possibilitando intervenções preventivas, como o uso de estatinas ou mudanças no estilo de vida, antes mesmo da manifestação de biomarcadores tradicionais. Além disso, o GWAS auxilia na descoberta de novos alvos terapêuticos e na validação genética de pipelines de medicamentos já existentes, reduzindo as taxas de falha em ensaios clínicos ao focar em alvos com suporte genético robusto (WALSH et al., 2023).
Entretanto, a aplicação plena dos resultados de GWAS na medicina de precisão enfrenta desafios significativos que exigem atenção contínua. A maioria dos estudos realizados até o momento focou em populações de ascendência europeia, o que limita a aplicabilidade e a precisão dos PRS em grupos ancestrais diversos, podendo exacerbar desigualdades em saúde. Além disso, a transição do locus associado para o gene causal funcional permanece uma tarefa complexa, exigindo estudos de acompanhamento genômico funcional. Para o futuro, a integração de dados de variantes raras através de sequenciamento de exoma e genoma total, juntamente com a expansão da diversidade ancestral nas biobancos, será fundamental para que a genômica cardiovascular beneficie a saúde global de forma equitativa (WALSH et al., 2023).
Referência (ABNT):
WALSH, Roddy et al. Genome-wide association studies of cardiovascular disease. Physiological Reviews, v. 103, n. 3, p. 2021-2073, jul. 2023. DOI: 10.1152/physrev.00025.2022.