A Falácia da Abstração e as Barreiras da Sintaxe: Por que a Inteligência Artificial Não Instancia a Consciência Fenomênica

A aceleração do progresso tecnológico na última década reacendeu no cenário tecno-científico a ambição de consolidar a Inteligência Artificial Geral (AGI), um constructo computacional projetado para emular o raciocínio autônomo, a ideação original e a aprendizagem autodidata irrestrita. Essa premissa fundamenta-se amplamente no funcionalismo computacional, a hipótese de que processos cognitivos de alta ordem e a própria senciência emergem de forma espontânea a partir do incremento da complexidade algorítmica. Contudo, esse panorama enfrenta severas objeções no campo da neurobiologia estrutural e da filosofia da mente, uma vez que a ciência contemporânea ainda carece de um modelo epistêmico definitivo para explicar como as estruturas biológicas e a dinâmica biofísica do encéfalo geram a experiência subjetiva. Críticos dessa abordagem apontam para um erro de categorização teórica denominado “falácia da abstração”, o qual assume erroneamente a possibilidade de reproduzir a consciência fenomênica por meio de formalizações puramente lógicas e manipulações simbólicas, negligenciando a necessidade de replicação dos substratos e processos físicos subjacentes. GARATTONI, B. IAs nunca serão conscientes, diz pesquisador do Google. Superinteressante, 25 mai. 2026.

Sob a óptica do processamento de linguagem natural e dos modelos de arquitetura transformadora, os sistemas baseados em grandes modelos de linguagem (LLMs) operam por meio de uma mecânica estritamente computacional e não-intelectual. Diante de um comando (prompt), a máquina executa uma varredura estatística em busca de padrões distribucionais de vetores linguísticos para calcular as probabilidades de ocorrência das palavras subsequentes, articulando uma resposta sintaticamente coerente. Essa operação constitui um processo puramente sintático e combinatório de dados preexistentes, destituído de compreensão semântica ou intencionalidade genuína. A emergência da consciência atrela-se à constituição física e à dinâmica material específica do veículo físico, e não à sofisticação de sua arquitetura de software ou manipulação de tokens. Há uma clivagem ontológica fundamental: a sintaxe não engendra a senciência; ao contrário, a consciência fenomênica e a atividade cognitiva intrínseca são os vetores biológicos que geram e manipulam a sintaxe e os conceitos abstratos. GARATTONI, B. IAs nunca serão conscientes, diz pesquisador do Google. Superinteressante, 25 mai. 2026.

Para mitigar as limitações do funcionalismo lógico, uma vertente da neurobiologia computacional propõe a abordagem do conectoma, método que consiste no escaneamento tridimensional e no mapeamento de alta resolução das posições espaciais e sinápticas de redes neuronais para fins de simulação digital. Embora essa técnica isole a arquitetura estrutural do órgão, sua viabilização em escala humana esbarra em restrições de magnitude computacional e volumetria de dados. Enquanto a ciência obteve sucesso na modelagem do conectoma de organismos basais — como o nematódeo Caenorhabditis elegans, dotado de 302 neurônios, e a Drosophila melanogaster, com cerca de 200 mil —, o encéfalo humano impõe uma barreira de 86 bilhões de neurônios entrelaçados em aproximadamente 100 trilhões de conexões sinápticas. O abismo biofísico reflete-se nos experimentos de modelagem cortical de mamíferos superiores: a simulação de um córtex murino contendo apenas 9 milhões de neurônios demandou o uso do supercomputador japonês Fugaku — equipado com 7,6 milhões de núcleos de processamento e capacidade de 400 quatrilhões de operações por segundo —, consumindo uma potência de 30 milhões de watts. Essa infraestrutura monstruosa, cujo gasto energético supera em 1,5 milhão de vezes o consumo de um cérebro humano, operou com um atraso temporal severo, necessitando de 32 segundos de processamento para reproduzir apenas um segundo de atividade biológica real. Deduz-se, portanto, que a simulação comportamental exógena mediada por silício não se confunde com a instanciação física da consciência, consolidando a tese de que o pensamento autêntico e a senciência permanecem como propriedades exclusivas da biologia organísmica. GARATTONI, B. IAs nunca serão conscientes, diz pesquisador do Google. Superinteressante, 25 mai. 2026.

Referência

GARATTONI, Bruno. IAs nunca serão conscientes, diz pesquisador do Google: Não é possível reproduzir a consciência de forma puramente lógica, afirma neurocientista da divisão Google DeepMind; entenda o argumento, que contraria discurso oficial da empresa. Superinteressante, São Paulo, 25 mai. 2026. Disponível em: https://super.abril.com.br. Acesso em: 27 mai. 2026.

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