A medicina contemporânea está testemunhando uma transição fundamental na estratificação de risco de doenças complexas, impulsionada pelo desenvolvimento dos Escores de Risco Poligênico (PRS). Diferente das doenças monogênicas, causadas por variantes raras de alto impacto, a maioria das patologias comuns — como doenças cardiometabólicas, cânceres e distúrbios neurológicos — possui uma arquitetura genética poligênica. Os PRS agregam os efeitos individuais de milhares de variantes de nucleotídeo único (SNVs) identificadas em estudos de associação genômica ampla (GWAS), permitindo a quantificação da suscetibilidade herdada de um indivíduo. Como essas variantes são frequentemente independentes dos fatores de risco convencionais, o PRS oferece um valor preditivo incremental, possibilitando a identificação precoce de grupos de alto risco que poderiam ser negligenciados pelas ferramentas diagnósticas tradicionais (KULLO, 2026).
A utilidade clínica dos PRS manifesta-se em diversas frentes, desde a intensificação de medidas preventivas até a personalização de protocolos de rastreio. Na cardiologia, por exemplo, o uso do PRS pode refinar a decisão sobre o início de terapias com estatinas em pacientes com risco clínico intermediário. Na oncologia, pode orientar a idade de início e a frequência de mamografias ou colonoscopias. No entanto, a implementação em larga escala enfrenta barreiras significativas, incluindo a validade analítica e a variabilidade nos algoritmos de cálculo. Um dos desafios mais críticos é a limitada transferibilidade populacional: a maioria dos PRS foi desenvolvida com base em coortes de ascendência europeia, o que reduz sua precisão em populações diversas e pode exacerbar disparidades em saúde se não houver um esforço deliberado para diversificar os dados genômicos (KULLO, 2026).
Além das questões técnicas, a adoção dos PRS exige a superação de obstáculos éticos e educacionais. Há uma necessidade urgente de alfabetização genômica tanto para pacientes quanto para profissionais de saúde, garantindo que o risco poligênico seja interpretado como uma probabilidade, e não como um destino biológico. A integração desses escores aos registros eletrônicos de saúde e o desenvolvimento de diretrizes clínicas baseadas em evidências são passos essenciais para que a genômica se torne uma ferramenta cotidiana na prevenção personalizada. À medida que os custos de genotipagem diminuem e a precisão dos modelos aumenta, os PRS tendem a se consolidar como um componente vital do cuidado preventivo, permitindo intervenções mais assertivas e centradas na biologia individual (KULLO, 2026).
Referência (ABNT):
KULLO, Iftikhar J. Clinical use of polygenic risk scores: current status, barriers and future directions. Nature Reviews Genetics, v. 27, p. 246–263, mar. 2026. DOI: 10.1038/s41576-025-00900-8.