Home OpiniãoA Arquitetura Linguística do Gaslighting: Manipulação e Erosão da Realidade nas Relações Interpessoais

A Arquitetura Linguística do Gaslighting: Manipulação e Erosão da Realidade nas Relações Interpessoais

by Redação CPAH

O gaslighting configura-se como uma modalidade insidiosa de comunicação manipulativa, cujo objetivo central é a desestabilização sistemática da percepção da realidade da vítima. Diferente de meros desentendimentos cotidianos, esta prática envolve a negação deliberada ou a distorção de fatos, levando o alvo a duvidar de sua própria memória, julgamento e sanidade. De acordo com Ghaltakhchyan (2024), o gaslighting opera através de um desequilíbrio de poder, onde o manipulador busca exercer controle total sobre o estado mental e emocional do outro. Através de uma análise psicolinguística, observa-se que o agressor utiliza táticas verbais e não verbais para induzir confusão e impotência, resultando em uma diminuição severa da autoestima e na criação de uma dependência psicológica em relação ao abusador.

As estratégias linguísticas empregadas no gaslighting são sutis e diversificadas, variando desde o silenciamento (o uso do silêncio como punição) até a inversão de culpa. Ghaltakhchyan (2024) identifica que táticas como “bloqueio” e “desvio” são fundamentais para impedir que a vítima valide suas próprias experiências. Quando a vítima tenta confrontar a realidade, o manipulador frequentemente responde com frases que minimizam os sentimentos do outro ou que questionam a sua capacidade cognitiva (ex: “você está sendo sensível demais” ou “isso nunca aconteceu”). Esse processo de deslegitimação linguística cria um ambiente “surreal”, no qual a vítima perde a confiança em seus próprios sentidos e passa a aceitar a narrativa imposta pelo agressor como a única verdade possível.

A longo prazo, o impacto dessa violência psicológica é devastador, gerando quadros de ansiedade, isolamento social e, em casos extremos, a fragmentação da identidade da vítima. A pesquisa de Ghaltakhchyan (2024) ressalta a importância de reconhecer os padrões verbais de desonestidade e distorção como sinais de alerta precoces em relacionamentos tóxicos. A compreensão dos mecanismos extralinguísticos, como a linguagem corporal e as microexpressões que acompanham o discurso manipulador, também é essencial para o diagnóstico clínico e para o empoderamento das vítimas. Em última análise, desvelar a arquitetura linguística do gaslighting é um passo crucial para restaurar a autonomia individual e promover comunicações interpessoais pautadas na transparência e no respeito mútuo.

Referência (ABNT):

GHALTAKHCHYAN, Siranush. Linguistic Portrayal of Gaslighting in Interpersonal Relationships. Armenian Folia Anglistika, v. 20, n. 1 (29), p. 61-75, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.46991/AFA/2024.20.1.61.

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