Home OpiniãoA Arquitetura Genética Comum Modula a Trajetória da Depressão na Adolescência

A Arquitetura Genética Comum Modula a Trajetória da Depressão na Adolescência

by Redação CPAH

A adolescência marca um período onde os sintomas depressivos se intensificam e o Transtorno Depressivo Maior (TDM) frequentemente se manifesta. Estudos com gêmeos há muito tempo indicam que fatores genéticos influenciam o desenvolvimento e as mudanças na depressão durante a adolescência. Avanços recentes nos Estudos de Associação Genômica Ampla (GWAS) permitiram a criação de Escores de Risco Poligênico (PRS), que consolidam o efeito de múltiplas variantes genéticas comuns (SNPs). No entanto, o papel exato do PRS na determinação da severidade e da trajetória da depressão adolescente ainda estava em grande parte inexplorado.

PRS e a Gravidade dos Sintomas

Um estudo longitudinal, utilizando dados de mais de 6.000 participantes da coorte ALSPAC e modelos de curva de crescimento, examinou as associações entre os PRS de cinco traços psiquiátricos (depressão, TDM, ansiedade, neuroticismo e esquizofrenia) e os sintomas depressivos autorrelatados.

A análise transversal revelou evidências fortes e consistentes de que um PRS mais alto para depressão (DEP), TDM e neuroticismo (NEU) estava associado a piores sintomas depressivos ao longo de toda a adolescência e no início da idade adulta (dos 10 aos 24 anos). Esta associação com a gravidade aumentou com o avanço da idade.

O Impacto nas Trajetórias Temporais

Os modelos de curva de crescimento, que são mais poderosos que as análises transversais, forneceram insights adicionais sobre a dinâmica dos sintomas:

Trajetórias Mais Íngremes: Um PRS mais alto para DEP, TDM e NEU foi fortemente associado a trajetórias mais íngremes dos sintomas depressivos. Isso indica que indivíduos com maior risco genético não apenas tiveram sintomas mais graves, mas também apresentaram um aumento maior na taxa de mudança (aumento da velocidade de agravamento) dos sintomas desde o início da adolescência até a idade adulta jovem.

Associação Compartilhada: O PRS para ansiedade (ANX) também demonstrou alguma evidência de associação com trajetórias mais íngremes, embora de forma menos consistente. A associação com traços correlacionados e comórbidos, como ANX e NEU, sugere uma etiologia genética compartilhada (afetividade negativa) subjacente à manifestação da depressão adolescente.

Início da Expressão Genética: Sintomas mais elevados em indivíduos com PRS alto emergiram entre 12 e 14 anos, sugerindo que a responsividade genética é crucial para o início da depressão adolescente.

Persistência: As diferenças previstas nos escores entre o grupo de alto risco genético e a média populacional geralmente aumentaram ao longo do desenvolvimento, indicando que a carga genética também influencia a manutenção ou persistência dos sintomas mais graves ao longo do tempo.

Relevância Clínica e Metodológica

Os resultados reforçam que a manifestação da arquitetura genética da depressão não é estática, mas sim idade-variável. O uso de modelos de repetição de medidas, como a curva de crescimento, demonstrou ser uma ferramenta poderosa para explorar essa associação temporal, pois melhora o poder estatístico e a precisão da medição. Estes achados são fundamentais para refinar a identificação de adolescentes em maior risco de manifestação grave e persistente do TDM e para o desenvolvimento de intervenções preventivas focadas em períodos sensíveis do desenvolvimento.

Referência:

KWONG, Alex S. F. et al. Polygenic risk for depression, anxiety and neuroticism are associated with the severity and rate of change in depressive symptoms across adolescence. The Journal of Child Psychology and Psychiatry, [S. l.], v. 62, n. 12, p. 1462-1474, dez. 2021. doi:10.1111/jcpp.13422.

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