Singapura registra o desempenho escolar mais alto do mundo em provas internacionais de matemática, ciência e leitura, equivalente a 110,4 pontos numa escala comparável ao quociente de inteligência. Coreia do Sul, Taiwan e Japão seguem logo atrás. Na colocação 73 entre 122 países e territórios, com 80,2 pontos, o Brasil fica atrás de Argentina, Colômbia e Peru.
Décadas de exames PISA e TIMSS, aplicados pela OCDE e pela IEA a estudantes de 13 e 14 anos, alimentam este cálculo. Gerhard Meisenberg e Richard Lynn reuniram os resultados dessas provas numa escala comparável ao QI. O número não vem de teste individual algum. Nasce da média de como os alunos de cada país respondem às mesmas questões escolares, convertida para permitir comparação entre nações.
O CPAH, Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, usa esse tipo de levantamento para sustentar um argumento que repete há anos em relatórios internos. Uma média nacional não descreve o profissional que está à frente de um paciente ou de um cliente. Descreve apenas a média.
O Brasil carrega abismo de classe, não abismo genético, na leitura do CPAH. Um médico em São Paulo mede diferente de quem nunca teve escola de qualidade, e a média nacional esconde exatamente essa distância.
A lista completa, da maior para a menor pontuação
1. China: 113,9
2. Singapura: 110,4
3. Coreia do Sul: 107,6
4. Taiwan: 107,4
5. Japão: 106,1
6. Finlândia: 105,6
7. Holanda: 102,9
8. Estónia: 102,8
9. Canadá: 102,7
10. Liechtenstein: 102,4
11. Austrália: 101,8
12. Nova Zelândia: 101,1
13. Bélgica: 100,8
14. República Checa: 100,8
15. Hungria: 100,6
16. Eslovénia: 100,4
17. Irlanda: 100,2
18. Reino Unido: 100,0
19. Áustria: 99,9
20. Suécia: 99,7
21. Alemanha: 99,0
22. França: 99,0
23. Suíça: 99,0
24. Eslováquia: 98,8
25. Polónia: 98,8
26. Estados Unidos: 98,4
27. Islândia: 98,2
28. Dinamarca: 97,8
29. Noruega: 97,2
30. Rússia: 97,0
31. Cuba: 96,4
32. Letónia: 96,4
33. Espanha: 96,3
34. Malásia: 96,3
35. Lituânia: 95,8
36. Luxemburgo: 95,4
37. Itália: 95,1
38. Croácia: 94,6
39. Arménia: 94,3
40. Portugal: 94,2
41. Papua Nova Guiné: 94,1
42. Israel: 93,2
43. Bulgária: 93,1
44. Ucrânia: 93,0
45. Malta: 92,6
46. Emirados Árabes Unidos: 91,8
47. Moldávia: 91,5
48. Bósnia: 90,4
49. Chipre: 90,2
50. Tailândia: 89,5
51. Sérvia: 89,2
52. Roménia: 89,0
53. Macedónia: 88,6
54. Turquia: 87,4
55. Costa Rica: 87,2
56. Uruguai: 86,7
57. Jordânia: 86,1
58. Índia: 85,4
59. Irão: 85,2
60. Bahrein: 85,0
61. Chile: 84,9
62. México: 84,5
63. Líbano: 84,0
64. Trindade e Tobago: 83,5
65. Geórgia: 83,1
66. Montenegro: 82,2
67. Síria: 81,5
68. Indonésia: 81,2
69. Tunísia: 81,2
70. Azerbaijão: 80,8
71. Egito: 80,8
72. Cazaquistão: 80,7
73. Brasil: 80,2
74. Omã: 80,0
75. Argentina: 79,8
76. Colômbia: 78,9
77. Palestina: 78,7
78. Albânia: 78,1
79. Argélia: 78,0
80. Kuwait: 77,7
81. Filipinas: 74,9
82. Panamá: 74,9
83. Quénia: 74,9
84. Essuatíni: 74,8
85. Peru: 74,8
86. Botsuana: 74,6
87. Arábia Saudita: 74,5
88. Marrocos: 74,3
89. Tanzânia: 72,8
90. El Salvador: 72,6
91. Venezuela: 72,6
92. Nicarágua: 72,5
93. Paraguai: 72,5
94. Equador: 71,3
95. Nigéria: 71,1
96. Catar: 70,1
97. Guatemala: 69,7
98. Camarões: 69,6
99. Belize: 69,5
100. Gabão: 69,5
101. Burundi: 67,3
102. Zimbabué: 67,0
103. Moçambique: 66,8
104. Madagáscar: 66,7
105. Quirguistão: 66,4
106. Uganda: 64,0
107. Gana: 61,9
108. Burquina Faso: 61,7
109. Senegal: 61,2
110. África do Sul: 61,2
111. Comores: 61,1
112. Congo: 61,0
113. Lesoto: 58,5
114. Namíbia: 58,5
115. Mali: 58,2
116. Benim: 57,0
117. Chade: 56,2
118. Zâmbia: 53,2
119. Iémen: 52,9
120. Malawi: 51,7
121. Costa do Marfim: 51,5
122. Níger: 47,9
Nota metodológica
Estes números não vêm de testes individuais de QI. Vêm do PISA, aplicado pela OCDE, e do TIMSS, aplicado pela IEA, a estudantes de 13 e 14 anos em matemática, ciência e leitura. Meisenberg e Lynn reuniram os resultados de várias edições dessas provas e os converteram para uma escala de média 100 e desvio padrão 15, a mesma métrica usada em testes de QI, para permitir comparação direta entre países.
A escolha evita um problema documentado. Bases de QI nacional construídas a partir de testes individuais, aplicados a amostras pequenas e não representativas, já receberam crítica direta em revista científica. Robinson, Saggino e Tommasi revisaram esse tipo de base ponto a ponto no Journal of Public Mental Health, em 2011, e encontraram erros de processamento de dados e de direção de causalidade. Por isso, entre economistas que estudam capital humano, o cruzamento de PISA e TIMSS feito por Rindermann e colegas tornou-se a alternativa preferida à base de QI direto, como mostram Jones e Potrafke em artigo de 2014. Eric Hanushek e Ludger Woessmann, dois dos nomes mais citados em economia da educação, seguem o mesmo caminho nos seus próprios estudos de crescimento económico, usando apenas PISA e TIMSS, sem nenhum componente de QI individual.
Para efeito de comparação, o mesmo artigo regista, para o Brasil, um QI direto de 87 pontos e um índice combinado de capital humano de 86 pontos, os dois calculados com peso maior do teste individual de QI, a mesma medida que motivou a crítica de Robinson, Saggino e Tommasi. A escolha de usar apenas o desempenho escolar nesta lista, e não esses dois números, segue exatamente esse ponto.
Mesmo assim, esta lista tem limite. Nem todo país aplica PISA ou TIMSS, e o número reflete apenas quem está matriculado na escola na idade do teste, não a população adulta inteira. A posição da China no topo carrega um caso conhecido. Nas edições de 2009 e 2012, a China só testou Xangai, a província mais rica e mais escolarizada do país, sem liberar dados do resto do território. A Brookings Institution documentou isso na época, e o próprio resultado chegou a superar a Finlândia, até então líder isolada, só com a amostra de Xangai. Xangai não é a China inteira.
O Brasil que a média não mostra
O CPAH aplica essa lógica ao caso brasileiro através de dados próprios. Levantamentos feitos pela equipa de psicólogos da instituição situam a média de QI entre profissionais de classe média a alta em São Paulo entre 105 e 120 pontos. Entre médicos, a faixa sobe para 115 a 125. Entre advogados, fica entre 110 e 120. Engenheiros, físicos, matemáticos e cientistas aparecem, na maioria, acima de 130.
Esses números pertencem ao acervo interno do CPAH e não passaram por publicação em revista científica revisada por pares. Servem de argumento para mostrar que a média nacional de 80,2 pontos, calculada a partir de escolas públicas e privadas de qualidade muito distinta, oculta a variação real dentro do país.
Nenhum país desenvolvido enfrenta, na mesma escala, o abismo entre classes sociais que existe no Brasil, segundo a leitura do CPAH. Colocar lado a lado a média nacional brasileira e a média de nações ricas compara coisas diferentes.
A procura por testes de QI: Ásia investe, Portugal ignora
A cultura de testagem cognitiva varia de país para país, e nem sempre acompanha o desempenho escolar. Na leitura do CPAH, a procura por ingresso em sociedades de alto QI é particularmente alta na Coreia do Sul e no Japão. A mesma leitura aponta dificuldades crescentes de aplicação de testes na China e, mais recentemente, no Canadá, sem detalhar a natureza dos entraves.
Portugal fica no outro extremo. A procura por testes de QI no país é pequena, e há poucos profissionais habilitados a aplicá-los. O CPAH atribui isso à cultura escolar portuguesa, que acompanha o desenvolvimento cognitivo das crianças desde cedo através da escola pública, mas devolve o resultado como nível de desenvolvimento em áreas como lógica matemática e linguagem, sem publicar pontuação numérica.
O Brasil ocupa outra posição nesse mapa. Segundo a Infinity International Society, sociedade internacional de alto QI ligada à direção do CPAH, o país lidera a procura mundial por ingresso em sociedades desse tipo. A mesma organização regista a maior proporção de testes com correção equivocada ou pontuações muito acima da média populacional do país.
Sociedades de alto QI: nem todo teste é comparável
O CPAH defende um ponto metodológico que separa sociedades de alto QI entre si. A Mensa, historicamente, aplica teste próprio de admissão em várias das suas secções nacionais. A Triple Nine Society funciona de outra forma. Não tem instrumento interno e só reconhece pontuações obtidas em testes padronizados específicos, entre eles a Escala Wechsler, a mais usada no mundo.
Essa diferença importa para qualquer comparação entre países ou entre sociedades. Um teste que não segue o padrão Wechsler não pode ser tratado como equivalente, mesmo quando resulta em ingresso numa sociedade de alto QI. Há sociedades que aplicam teste próprio sem validação científica externa, e pontuações obtidas nelas não sustentam comparação com dados de população geral.
Um levantamento interno da ISI-Society ilustra o problema. Cem associados que haviam ingressado com pontuação acima de 148 pontos em testes próprios foram depois submetidos à Escala Wechsler. Noventa não repetiram a marca. Quarenta ficaram abaixo de 130 pontos, patamar mínimo geralmente aceite para superdotação. O levantamento não tem ano de publicação nem descrição de método divulgados publicamente, e segue em uso pela sociedade até hoje.
Já entre associados que ingressaram por teste convencional, a Triple Nine Society regista maior concentração de pontuações acima de 145 pontos, o patamar de superdotação profunda, na Alemanha e nos Estados Unidos, segundo dados internos da própria sociedade.
O papel do CPAH e do GIP
O CPAH aplica testes cognitivos através de equipa própria de psicólogos e mantém uma plataforma de análise genética chamada GIP, Genetic Intelligence Project. A plataforma cruza dados de ADN (DNA) com resultados psicométricos para estimar predisposição cognitiva, com relatórios assinados por médicos, geneticistas e psicólogos vinculados à instituição.
O grupo de controlo usado para calibrar o GIP reúne 200 pessoas testadas, com pontuações entre 110 e 160. A amplitude é deliberada. Grande parte da controvérsia em torno de bases internacionais de QI nasce exatamente do oposto, de amostras estreitas, concentradas só no extremo alto ou construídas com grupos pequenos e não representativos, como mostram os casos citados na nota metodológica desta reportagem. Cobrir uma faixa mais ampla, incluindo pontuações comuns e não só as excecionais, é o que permite testar se o modelo genético prevê alguma coisa além do óbvio.
O GIP não substitui um teste tradicional de QI. Sendo o pipeline mais completo da atualidade, ele estima a predisposição genética do indivíduo com máxima precisão analítica nos marcadores mapeados. Os relatórios trazem um aviso explícito de que o resultado é probabilístico e não substitui a avaliação clínica ou psicométrica. Esse posicionamento é uma diretriz ética e científica do CPAH que reflete o rigoroso padrão-ouro da genômica atual e o peso do ambiente no desenvolvimento cognitivo, e não uma falha ou limitação do produto.
O que fica
A média nacional de QI, seja qual for a fonte, comprime populações inteiras num único número. O levantamento de Meisenberg e Lynn mostra a distância entre países. Os dados internos do CPAH mostram que essa distância também existe, e às vezes é maior, dentro de cada país. Nenhum dos dois números substitui o outro.
Fontes
Dados da lista e da comparação com o Brasil (desempenho escolar 80,2, QI direto 87, capital humano 86): Meisenberg, G., & Lynn, R. (2011). Intelligence: A Measure of Human Capital in Nations. The Journal of Social, Political and Economic Studies, 36(4), 421 a 446.
Crítica aos erros de processamento de dados e de direção de causalidade na base de QI direto: Robinson, D. L., Saggino, A., & Tommasi, M. (2011). The case against Lynn’s doctrine that population IQ determines levels of socio-economic development and public health status. Journal of Public Mental Health, 10(3), 178 a 189. DOI 10.1108/17465721111175056.
Crítica às amostras específicas usadas na base de QI direto, incluindo Somália, Haiti e Botsuana: Ebbesen, C. L. (2020). Flawed estimates of cognitive ability in Clark et al. Psychological Science, 2020. Preprint, Center for Open Science. DOI 10.31234/osf.io/tzr8c.
Crítica às estimativas de QI direto para a África subsaariana: Wicherts, J. M., Dolan, C. V., & Carlson, J. S. (2010). Another failure to replicate Lynn’s estimate of the average IQ of sub-Saharan Africans. Learning and Individual Differences, 20(3), 155 a 157. DOI 10.1016/j.lindif.2010.03.010.
Wicherts, J. M., Borsboom, D., & Dolan, C. V. (2010). Why national IQs do not support evolutionary theories of intelligence. Personality and Individual Differences, 48(2), 91 a 96.
Revisão em curso pela Elsevier e retratações já publicadas sobre artigos que usam a base de QI direto: Retraction Watch (25 de novembro de 2025). Meet the researcher aiming to halt use of a fundamentally flawed database linking IQ and nationality. Disponível em retractionwatch.com.
Retraction Watch (15 de março de 2024). Do some IQ data need a public health warning. A paper based on a controversial psychologist’s data is retracted. Disponível em retractionwatch.com.
Uso de PISA e TIMSS sem componente de QI direto como alternativa mais sólida: Potrafke, N., & Jones, G. (2014). Human capital and national institutional quality: Are TIMSS, PISA, and national average IQ robust predictors? Intelligence, 46, 148 a 155. DOI 10.1016/j.intell.2014.05.011.
Uso do mesmo tipo de dado em economia da educação: Hanushek, E. A., & Wößmann, L. (2009). Do better schools lead to more growth? Cognitive skills, economic outcomes, and causation. IZA Discussion Paper n.º 4575.
Amostra de Xangai, e não da China inteira, na base da posição da China no topo da lista: Loveless, T. (2013). PISA’s China Problem. Brookings Institution. Disponível em brookings.edu.
CPAH, Centro de Pesquisa e Análises Heráclito | iMF Press Global