Home ColunaNeurociênciasRelação entre TDAH e Alzheimer: uma leitura neuroanatômica, neuroquímica e patológica

Relação entre TDAH e Alzheimer: uma leitura neuroanatômica, neuroquímica e patológica

Em termos clínicos e neuroanatômicos, o TDAH pode refletir uma organização cerebral com menor eficiência em circuitos executivos, os quais também são frequentemente comprometidos ao longo da evolução do Alzheimer.

by Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues

Estudos recentes sugerem que o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) pode estar associado a maior risco de declínio cognitivo e de demência na vida adulta, incluindo a Doença de Alzheimer. Entretanto, essa associação deve ser interpretada com cautela: trata-se, mais provavelmente, de uma convergência de vulnerabilidades neurobiológicas, e não de uma relação causal linear. Em termos clínicos e neuroanatômicos, o TDAH pode refletir uma organização cerebral com menor eficiência em circuitos executivos, os quais também são frequentemente comprometidos ao longo da evolução do Alzheimer.

Do ponto de vista funcional, o elo entre as duas condições envolve principalmente as redes frontoparietais, frontoestriatais e frontocingulares, responsáveis por atenção sustentada, controle inibitório, memória de trabalho, planejamento, monitoramento de erros e flexibilidade cognitiva. No TDAH, essas redes já apresentam alteração desde o neurodesenvolvimento; no Alzheimer, elas sofrem comprometimento progressivo por neurodegeneração. Essa sobreposição ajuda a explicar por que indivíduos com TDAH podem, ao envelhecer, apresentar maior vulnerabilidade para declínio cognitivo.

Neuroanatomia envolvida

A relação entre TDAH e Alzheimer pode ser compreendida a partir de uma leitura por circuitos. No TDAH, as estruturas mais implicadas incluem o córtex pré-frontal dorsolateral, o córtex pré-frontal ventromedial, o córtex orbitofrontal, o cíngulo anterior, os gânglios da base, o tálamo e o cerebelo. Essas regiões participam da regulação da atenção, da inibição comportamental e da organização temporal da ação.

No Alzheimer, embora o início clássico envolva o lobo temporal medial, especialmente hipocampo e córtex entorrinal, a progressão da doença alcança redes associativas frontais e parietais, comprometendo memória episódica, linguagem, orientação, julgamento e funções executivas. Assim, o cérebro que já apresentava fragilidade nos circuitos de controle executivo por TDAH pode tornar-se mais suscetível ao impacto de processos degenerativos que atingem exatamente as mesmas redes.

As principais subregiões podem ser organizadas assim:

– Córtex pré-frontal dorsolateral: memória de trabalho, planejamento e manutenção do foco.

– Córtex pré-frontal ventromedial e orbitofrontal: tomada de decisão, controle de impulsos e avaliação de recompensa.

– Cíngulo anterior: monitoramento de erro, esforço cognitivo e regulação atencional.

– Estriado dorsal e ventral: iniciação de resposta, hábito, motivação e processamento de recompensa.

– Tálamo mediodorsal: integração de informação e modulação do estado de alerta.

– Hipocampo e córtex entorrinal: memória episódica e consolidação mnésica.

– Córtex parietal posterior: integração visuoespacial e atenção dirigida.

– Cérebelo: temporização, automatização e modulação cognitiva.

Neurotransmissores centrais

A base neuroquímica do TDAH envolve sobretudo dopamina e noradrenalina. A dopamina é essencial para motivação, recompensa, seleção de resposta e foco dirigido a metas; a noradrenalina contribui para vigilância, estado de alerta, sustentação atencional e otimização do sinal neural no córtex pré-frontal. A disfunção desses sistemas reduz a eficiência dos circuitos executivos e facilita distraibilidade, impulsividade e desorganização.

No Alzheimer, há participação importante da acetilcolina, cuja redução está relacionada a prejuízo de memória, atenção e aprendizagem. Além disso, a doença envolve alterações glutamatérgicas, inflamatórias e metabólicas, com disfunção sináptica progressiva. Portanto, enquanto o TDAH é mais fortemente associado a catecolaminas, o Alzheimer combina déficit colinérgico, excitotoxicidade e neurodegeneração estrutural.

Esse ponto é importante para a aula: o TDAH não é um “prelúdio químico” de Alzheimer, mas existe uma continuidade funcional entre sistemas de atenção, controle executivo e reserva cognitiva. Em outras palavras, quando redes catecolaminérgicas e executivas se desenvolvem com menor eficiência, a capacidade compensatória do cérebro pode ser menor décadas depois.

A proteína tau e a ligação com o Alzheimer

A proteína tau tem papel central na estabilização dos microtúbulos neuronais, sustentando o transporte axonal e a integridade estrutural do neurônio. No Alzheimer, ocorre hiperfosforilação da tau, o que reduz sua ligação aos microtúbulos e favorece agregação, formação de filamentos insolúveis e emaranhados neurofibrilares. Esses emaranhados estão associados a disfunção neuronal, perda sináptica e morte celular.

A progressão da patologia tau segue, em termos gerais, um padrão anatômico ascendente: inicialmente envolve regiões temporais mediais, depois se expande para áreas límbicas, associativas e, em fases mais avançadas, para córtex frontal e parietal. Essa disseminação ajuda a explicar o declínio executivo e comportamental na doença. Estudos recentes também sugerem que maior risco genético para TDAH pode associar-se a níveis elevados de tau fosforilada, sobretudo em indivíduos com biomarcadores de doença de Alzheimer, o que reforça a hipótese de sobreposição biológica entre neurodesenvolvimento e neurodegeneração.

Em termos fisiopatológicos, a tau pode ser entendida como um ponto de convergência entre envelhecimento cerebral, vulnerabilidade sináptica e perda de integridade de rede. Se o cérebro já apresenta menor eficiência funcional nas redes executivas, como ocorre no TDAH, a propagação da patologia tau pode encontrar menos resistência funcional e menos capacidade de compensação.

Como entender a ponte entre as duas doenças

A forma mais didática de explicar a relação é esta: o TDAH pode representar uma vulnerabilidade estrutural e funcional em redes de controle cognitivo; o Alzheimer, por sua vez, adiciona neurodegeneração progressiva sobre essas mesmas redes. Assim, o TDAH não “causa” Alzheimer, mas pode marcar um cérebro que envelhece com menor reserva funcional.

Essa ponte pode ser descrita em quatro etapas:

1. Alteração do neurodesenvolvimento em circuitos executivos.

2. Menor eficiência de modulação catecolaminérgica, especialmente dopaminérgica e noradrenérgica.

3. Menor reserva cognitiva e menor capacidade compensatória ao longo da vida.

4. Maior vulnerabilidade a processos neurodegenerativos, incluindo hipometabolismo, perda sináptica e patologia tau.

Esse modelo também ajuda a integrar fatores clínicos associados, como sono inadequado, depressão, sedentarismo, hipertensão, obesidade e estresse crônico, que podem agravar o risco de declínio cognitivo. Em pacientes com TDAH, esses fatores funcionam como amplificadores de vulnerabilidade.

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