Início ColunaNeurociênciasO Esquizotípico estratégico: Um transtorno de personalidade silencioso e funcionalizado na era da autenticidade fabricada

O Esquizotípico estratégico: Um transtorno de personalidade silencioso e funcionalizado na era da autenticidade fabricada

Trata-se de um tipo de funcionamento psíquico que, embora diagnosticado classicamente sob o rótulo de transtorno de personalidade esquizotípica, vem adquirindo traços adaptativos refinados e ganhando espaço nas interações sociais, especialmente em contextos que premiam a imagem de autonomia, neutralidade emocional e “inteligência fria”.

por Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues

Por Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues

Existe uma nova face da patologia psíquica contemporânea que não grita, não agride, nem transborda afetos desregulados. Pelo contrário: observa, calcula, racionaliza e se disfarça de escuta. Trata-se de um tipo de funcionamento psíquico que, embora diagnosticado classicamente sob o rótulo de transtorno de personalidade esquizotípica, vem adquirindo traços adaptativos refinados e ganhando espaço nas interações sociais, especialmente em contextos que premiam a imagem de autonomia, neutralidade emocional e “inteligência fria”.

Esse tipo clínico, que proponho nomear aqui como esquizotípico estratégico, possui uma apresentação muito mais sutil do que o espectro psicótico ou borderline que tradicionalmente mobiliza o diagnóstico clínico. Contudo, seus efeitos sobre o laço social são profundos. São sujeitos que mantêm contato social, mas sem presença afetiva genuína; escutam, mas apenas para reafirmar internamente suas próprias convicções; dialogam, mas com um viés instrumental; e, mais criticamente, podem prejudicar o outro sem consciência emocional do dano, apenas com uma racionalização que os exime da responsabilidade moral.

A face adaptada do distanciamento afetivo

Diferente do narcisista clássico, que busca admiração explícita, o esquizotípico estratégico busca autonomia e controle do seu universo interno, mesmo que isso implique manipulação racional e distorção dos vínculos. Seu traço distintivo não é a vaidade evidente, mas a presença de uma lógica própria impermeável ao ambiente externo, revestida de argumentos, causas e ideias que parecem razoáveis, mas servem unicamente à autopreservação do seu modelo mental.

Essa condição se torna especialmente grave em sociedades que valorizam o discurso sem prática afetiva, a eficiência sem empatia, e a liberdade individual acima da corresponsabilidade emocional. Nesse sentido, o esquizotípico funcional não é apenas tolerado, ele é premiado. Suas decisões frias são confundidas com racionalidade; sua fala excessiva, com brilho que parece ser intelectual; sua ausência de reciprocidade afetiva, com maturidade emocional.

Narcisismo, maquiavelismo e o ativismo instrumental

O funcionamento descrito também costuma ser confundido com transtornos narcisistas ou antissociais. Mas há um erro aqui: o narcisismo é comorbidade, não a base estrutural. A vaidade aparece, sim, mas como estratégia de sobrevivência; o maquiavelismo se insere, mas como método funcional de mediação social. A estrutura central continua sendo o pensamento idiossincrático, desconectado da lógica empática, e a utilização dos vínculos como peças móveis em um tabuleiro de controle interno.

É nesse ponto que surge o paradoxo mais inquietante: o sujeito com esse perfil pode defender causas com as quais, no fundo, não se identifica. Apoia minorias, mas carrega preconceitos; levanta bandeiras éticas, mas age por conveniência. Esse moralismo instrumental é um marcador clínico e ético importante do esquizotípico estratégico contemporâneo. A causa é só uma engrenagem no seu sistema interno, desde que ele possa se beneficiar dela sem ser emocionalmente atravessado.

Um perfil silencioso e corrosivo para os vínculos

O que torna esse transtorno particularmente perigoso não é o sofrimento psíquico que ele causa ao próprio indivíduo, mas o desgaste relacional que impõe ao entorno. O interlocutor sente-se emocionalmente drenado, intelectualmente invalidado ou afetivamente desassistido, mas não consegue nomear a disfunção, pois não há gritos, não há quebras, não há histeria. Há apenas silêncio emocional, excesso de racionalização e discursos perfeitos.

Esse é o tipo de personalidade que, num ambiente corporativo, pode ascender rapidamente. Que, em grupos sociais, parece “ponderado e inteligente”. Que, em relações afetivas, parece “calmo, mas difícil de acessar”. E que, ao longo do tempo, corrói o sentido de mutualidade e a possibilidade de alteridade autêntica.

Considerações finais

Em uma sociedade obcecada por performance, autonomia e discurso, o transtorno de personalidade esquizotípica funcionalizado pode se camuflar com perfeição. Sua presença crescente exige um olhar clínico e social mais agudo, que vá além da análise dos afetos explosivos e se volte aos afetos ausentes. A ausência de empatia não é apenas sintoma de psicopatia; pode ser o silêncio elegante de uma mente impermeável que se considera justa por default.

Esse é o novo desafio psicopatológico do nosso tempo: reconhecer o sofrimento que não se expressa, mas que instala o vazio relacional em nome de uma razão fria e estrategicamente adaptada.

Alguns destaques

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