Uma Perspectiva Evolutiva para o Transtorno de Personalidade Borderline

O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é uma condição psiquiátrica que se destaca por desregulação emocional, impulsividade, comportamentos de risco, instabilidade em relacionamentos e medo de abandono. Apesar de alguns sintomas, como a automutilação e a impulsividade, poderem diminuir com o tempo, as dificuldades interpessoais e a instabilidade emocional frequentemente persistem. Uma questão intrigante e ainda não resolvida é a coexistência de sintomas depressivos e comportamentos de risco, visto que a depressão geralmente está associada à aversão a riscos, enquanto o TPB é caracterizado por tendências a assumir riscos.

A Teoria da História de Vida (LHT) da ecologia comportamental oferece uma estrutura evolutiva para entender o TPB. Segundo essa teoria, o TPB pode ser visto como um extremo patológico ou uma distorção de uma “estratégia” comportamental que busca a exploração imediata de recursos, tanto interpessoais quanto materiais. Essa estratégia é moldada por experiências precoces, como trauma ou negligência emocional, que levam o indivíduo a prever que a disponibilidade futura de recursos é imprevisível.

A hipótese de que o TPB se alinha a uma “estratégia de vida rápida” é consistente com diversos traços do transtorno. Indivíduos com TPB frequentemente apresentam maior impulsividade e desregulação emocional, traços que se encaixam em uma estratégia de vida rápida. Em estudos que utilizaram jogos neuroeconômicos, pacientes com TPB transferiram menos dinheiro a outros jogadores, demonstrando uma falta de confiança e comportamento oportunista, características típicas de uma estratégia de vida rápida, em contraste com indivíduos com depressão ou controles saudáveis.

Além disso, comportamentos sexuais de risco, como a iniciação sexual precoce e um maior número de parceiros, são mais comuns em mulheres com TPB do que em mulheres sem o transtorno, o que também se alinha com uma estratégia de vida rápida. Em termos de parentalidade, mães com TPB tendem a ter comportamentos críticos e intrusivos, e muitas vezes se deparam com a necessidade de entregar seus filhos aos cuidados de terceiros, o que é um comportamento consistente com o baixo investimento parental previsto pela LHT.

Uma perspectiva de ecologia comportamental pode ter implicações profundas para a psiquiatria. A visão tradicional de “déficit” que sugere lesões cerebrais no TPB pode ser reconsiderada. As alterações cerebrais observadas no TPB podem, na verdade, ser adaptações complexas ao estresse precoce que servem a propósitos de regulação do estresse em ambientes perigosos, mas que se tornam disfuncionais em ambientes mais seguros. Essa visão não argumenta que o TPB seja adaptativo, mas sim que os traços sub-limiares podem ter vantagens reprodutivas em circunstâncias específicas, embora à custa do bem-estar mental e físico.

Referência:

Brüne, M. (2016). Borderline Personality Disorder: Why ‘fast and furious’?. Evolution, Medicine, and Public Health, 2016(1), 52–66. https://doi.org/10.1093/emph/eow002

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