A depressão é uma das principais causas de incapacidade global, com sua prevalência aumentando drasticamente na adolescência. A identificação de adolescentes com sintomas depressivos que provavelmente desenvolverão um transtorno persistente com resultados desfavoráveis na vida adulta é um desafio clínico crucial. Um estudo longitudinal, utilizando dados de uma coorte populacional do Reino Unido, examinou as trajetórias dos sintomas depressivos desde a infância até o início da vida adulta (dos 10 aos 25 anos) para determinar os fatores que distinguem a depressão persistente daquela que remite.
Classificação das Trajetórias Depressivas
O estudo identificou quatro classes de trajetórias de sintomas depressivos clinicamente significativos:
Depressão Adolescente-Persistente (7%): Início precoce na adolescência e persistência na vida adulta.
Depressão Adolescente-Limitada (14%): Início mais tardio na adolescência, com remissão na vida adulta.
Depressão Aumentando-na-Vida-Adulta (25%): Aumento dos sintomas na vida adulta.
Estável-Baixa (55%): Níveis estáveis e baixos de depressão.
A diferenciação entre as classes Adolescente-Persistente e Adolescente-Limitada é clinicamente mais relevante, pois a primeira está associada a resultados extremamente desfavoráveis na vida adulta, enquanto a última apresenta um funcionamento adulto semelhante ao grupo Estável-Baixa.
Fatores Preditivos de Persistência
Os fatores que distinguiram de forma mais proeminente a depressão adolescente-persistente da adolescente-limitada incluíram:
Idade de Início: O grupo Adolescente-Persistente apresentou um início dos sintomas mais precoce (aproximadamente 13,5 anos) em comparação com o grupo Adolescente-Limitada (aproximadamente 17,5 anos). Um início precoce é um fator chave de influência na probabilidade de uma trajetória persistente.
Adversidade Crônica: O grupo Adolescente-Persistente foi diferenciado pela exposição a uma adversidade precoce e contínua que começou na infância (incluindo pobreza ou Experiências Adversas na Infância – ACEs) e persistiu até o início da idade adulta. O grupo Adolescente-Limitada, notavelmente, não apresentou uma taxa maior de adversidade na infância do que o grupo Estável-Baixa.
Carga Genética: O grupo Adolescente-Persistente demonstrou maior vulnerabilidade genética. Especificamente, apresentou uma pontuação poligênica (PGS) mais alta para o TDM do que o grupo Adolescente-Limitada.
Desempenho Educacional: O grupo Adolescente-Persistente demonstrou um desempenho significativamente pior em exames acadêmicos (GCSEs) e na aplicação para a universidade, em comparação com o grupo Adolescente-Limitada.
Implicações Clínicas e Intervenção Precoce
As descobertas sublinham que a depressão que se inicia cedo na adolescência e persiste está associada a resultados muito ruins na vida adulta, incluindo alto índice de prejuízo funcional (62%), autoagressão suicida (27%) e a condição de não estar em educação, emprego ou treinamento (NEET) (16%) aos 25 anos.
Para adolescentes mais jovens (cerca de 13 anos) que apresentam sintomas depressivos, uma estratégia mais intensiva do que a “espera vigilante” (watchful waiting) parece justificada. O histórico social e educacional detalhado de um jovem pode ser clinicamente útil para as decisões sobre a intensidade das intervenções.
É de fundamental importância superar as barreiras à procura de ajuda e melhorar o acesso à intervenção precoce baseada em evidências, a fim de alterar esta trajetória maladaptativa.
Referência:
WEAVERS, Bryony et al. The antecedents and outcomes of persistent and remitting adolescent depressive symptom trajectories: a longitudinal, population-based English study. The Lancet Psychiatry, [S. l.], v. 8, n. 12, p. 1053-1061, dez. 2021.