A medicina cardiovascular atravessa uma mudança de paradigma com a transição de modelos de risco baseados puramente em coortes populacionais para estratégias de precisão individualizada. No centro dessa evolução está a necessidade de identificar indivíduos de alto risco que não são captados pelas calculadoras tradicionais de Risco de Doença Cardiovascular Aterosclerótica (ASCVD), como o Pooled Cohort Equations (PCE). A integração de biomarcadores genéticos, representados pelos Escores de Risco Poligênico (PRS), e marcadores de carga de doença subclínica, como o Escore de Cálcio Coronário (CAC), oferece uma visão bidimensional da vulnerabilidade vascular, combinando a suscetibilidade herdada com a manifestação fenotípica real da aterosclerose (MEKHAEL et al., 2025).
Os Escores de Risco Poligênico (PRS) quantificam a carga genética de um indivíduo ao agregar os efeitos de milhares de polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs), cada um com uma contribuição pequena para o risco total. Diferente dos fatores de risco tradicionais que podem flutuar ao longo da vida, o PRS permanece estático, permitindo a estratificação de risco desde a juventude. Estudos demonstram que indivíduos no percentil superior de PRS para doença arterial coronariana possuem um risco equivalente àqueles com mutações monogênicas raras, como na hipercolesterolemia familiar, mesmo na ausência de fatores de risco convencionais elevados. No entanto, o PRS reflete apenas a predisposição, não a presença da doença, o que torna sua associação com exames de imagem, como o CAC, clinicamente imperativa (MEKHAEL et al., 2025).
O Escore de Cálcio Coronário (CAC), por sua vez, é um dos preditores mais fortes de eventos cardiovasculares futuros, pois mede diretamente a aterosclerose coronária calcificada. A utilidade clínica do CAC reside na sua capacidade de reclassificar o risco, especialmente em pacientes de risco “intermediário”. Um escore CAC de zero atua como um “poderoso sinal de segurança”, sugerindo que o tratamento intensivo com estatinas pode ser postergado, enquanto valores elevados indicam a necessidade de intervenções agressivas. A combinação do PRS com o CAC permite identificar pacientes “geneticamente resilientes” (alto risco genético, mas CAC zero) e aqueles com “alto risco duplo”, em que a genética desfavorável e a presença de cálcio indicam um prognóstico reservado e a urgência de prevenção primária personalizada (MEKHAEL et al., 2025).
Referência (ABNT):
MEKHAEL, Mario et al. Personalization of primary prevention: Exploring the role of coronary artery calcium and polygenic risk score in cardiovascular diseases. Trends in Cardiovascular Medicine, v. 35, n. 2, p. 154-163, fev. 2025. DOI: 10.1016/j.tcm.2023.10.005.

